Segundo economistas, Brasil não deve reconquistar o 'selo de bom pagador' antes de Temer entregar a faixa a seu sucessor
Com a retirada da ameaça de novo corte na nota de risco de crédito do Brasil, a Moody's foi a primeira agência de rating a dar um sinal positivo ao receituário seguido pelo governo para reequilibrar as contas públicas. Reconquistar o grau de investimento - o selo de bom pagador conferido pelas agências de rating - será, porém, um caminho longo. Segundo economistas, esse trajeto não deve ser totalmente percorrido antes de o presidente Michel Temer entregar a faixa presidencial a seu sucessor.

Moody's mudou perspectiva de rating do Brasil de negativa para estável
Analistas do mercado viram no anúncio da Moody's um reconhecimento da correção de rumo da política econômica, mas, citando o quadro fiscal ainda negativo e riscos políticos, consideraram apressadas as declarações do ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, de que o grau de investimento virá "logo".
Segundo o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais do Banco Central (BC), se o Brasil fizer tudo "direitinho" - isso é, conseguir aprovar as reformas e estabilizar a dívida pública em porcentual próximo de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2021 ou 2022 -, será possível recuperar o grau de investimento, mas não no curto prazo.
"Tem uma eleição no meio do caminho", explica o economista, ao comentar que a política e as incertezas sobre a sucessão presidencial devem contaminar a percepção de risco do País. "Se fizer tudo certo, o Brasil pode recuperar o grau de investimento, mas isso num prazo longo, de, talvez, dez anos", comentou o ex-diretor do BC.
Na mesma linha, o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega considerou positiva a revisão da perspectiva, mas afirmou ser ainda cedo para que País retome o grau de investimento perdido em 2015. "Não deixa de ser uma boa notícia, um reconhecimento que o Brasil adota conjunto de medidas fiscais para atacar o risco de insolvência e é uma ação em linha com que o próprio mercado avaliava", disse. "Mas dificilmente o Brasil voltará a ter grau de investimento no atual governo, pois ainda precisa de dois degraus", completou o ex-ministro, lembrando que a agência manteve o País com o rating Ba2.
Maílson lembrou que, em geral, a recuperação do selo leva de cinco a dez anos. A Coreia do Sul foi um caso excepcional, retomando o grau de investimento em "um ou dois anos" nos anos 90, mas porque fez uma mudança radical de política econômica, ressaltou.
Segundo o economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, a Moodys reconheceu em sua decisão algo que para o mercado já estava claro: o esforço do governo com o ajuste fiscal, mostrado na aprovação do regime de teto dos gastos públicos, e o arrefecimento da inflação. "O governo está seguindo o receituário das agências e está conseguindo transmitir para os agentes um tipo de sinalização bem-vinda", afirma.
Conforme Perfeito, a agência ainda deve esperar a aprovação das reformas para elevar o rating. Uma mudança de nota, segundo o economista, só deverá vir quando o governo aprovar a reforma da Previdência e deixar bem encaminhada a flexibilização da legislação trabalhista. "É isso que está em jogo."
Caso a reforma da Previdência não seja aprovada, Perfeito afirma que a perspectiva do rating soberano brasileiro pode voltar a ser negativa. O resultado de curto prazo da mudança de perspectiva do rating soberano pela Moody's deve ser, segundo o economista da Gradual, a valorização do real.