Associação irlandesa quer que a União Europeia barre toda a importação nacional

Escândalo compromete exportação de carne
GENEBRA - Maiores concorrentes da carne brasileira no mercado europeu, os produtores irlandeses pedem oficialmente à Comissão Europeia o "embargo imediato de toda a importação de carne do Brasil". Em um comunicado emitido na manhã desta segunda-feira, 20, a entidade que representa o setor indicou que entrada do produto nacional é "ultrajante".
"A UE tem alertado de forma repetida sobre os riscos da importação de carne da América do Sul ", disse o presidente da Associação Irlandesa de Produtores de Carne (ICSA), Patrick Kent. "É ultrajante que a UE continue dando uma segunda chance ao Brasil, mesmo depois que o Escritório de Veterinária tenha produzido informes continuamente mostrando deficiências das práticas no Brasil", disse.
"O pior de tudo é a tentativa de sacrificar a qualidade da produção de carne na Europa ao negociar um acordo comercial bilateral com os países da América do Sul", atacou. "O impacto disso seria minar totalmente os produtores europeus e irlandeses, inundando a Europa com carne brasileira, barata e abaixo do padrão", denunciou.
Na avaliação do produtor, os consumidores europeus não tem nada a temer, enquanto estiverem sendo abastecidos por produtos de "qualidade europeia". "Fizemos grandes saltos e temos um setor altamente regulado e o mínimo que podermos esperar é que não sejamos sabotados por importações baratas", disse.
"Carne de qualidade custa dinheiro. A maioria dos consumidores europeus quer alimentar suas famílias com o melhor e chegou a vez de a UE priorizar saúde e agricultura viável, e não acordos estranhos", afirmou Kent.
"Chegou a hora de parar de sacrificar os produtores europeus, em troca de alguns bilhões a mais para um pequeno número de multinacionais", denunciou.
Nesta semana, o caso deve chegar à Organização Mundial do Comércio. A entidade se reúne a partir de terça-feira para debater temas fitossanitário.
Na agenda do encontro, fechada há dez dias, não constava nenhuma crítica à carne do Brasil. Mas a reportagem apurou que, desde a eclosão do novo caso, os principais parceiros comerciais se mobilizam para levantar o assunto durante a reunião. Diversos governos também indicaram que querem pedir reuniões bilaterais com o Brasil nesta semana para obter esclarecimentos sobre a fraude na carne.
O Itamaraty, junto com técnicos do Ministério da Agricultura, se prepara para dar uma resposta, trazendo os detalhes da investigação da PF e tentando evitar um embargo. Mas, ao mesmo tempo, o governo vai insistir que o escândalo não envolveu exportações e que, portanto, uma suspensão do comércio não seria justificada. O governo também vai bater na tecla de que foram as autoridades nacionais quem investigaram e puniram o esquema e que, portanto, não tentam esconder o caso.
Mas o Estado apurou que parlamentares e produtores europeus passaram o fim de semana em contato para tentar incrementar o lobby e pressionar as autoridades europeias a rever seus planos de autorização de importação da carne nacional. Na sexta-feira, a reportagem revelou com exclusividade que as maiores cooperativas agrícolas da Europa (Copa e Cogeca) usariam o caso para pressionar os diplomatas europeus a frear novas concessões ao Mercosul.
A pressão sobre Bruxelas, porém, passou a ser real no domingo. Na Irlanda, o partido Sinn Féin foi um dos que apelou publicamente para o fim das importações. O representante do partido para temas agrícolas, o deputado Martin Kenny, alertou que o caso brasileiro revela "as condições contra as quais os fazendeiros europeus precisam competir".