sexta-feira, 17 de março de 2017

“A Lava Jato está no auge”, diz Dallagnol




Contas Abertas

Batalha campal
A Lava Jato faz três anos nesta sexta (17) sob nova onda de pressão exercida pelo Congresso. 
Não dá, porém, sinal de recuo. O procurador Deltan Dallagnol, em declaração do Painel da 
Folha de S. Paulo, disse que a operação faz aniversário “no auge” e que “os resultados que a 
sociedade mais espera virão  do trabalho do STF”. Ele afirma que a ida das pessoas às ruas 
resultou em uma “combinação poderosa” e convoca: “Precisamos arrancar a árvore da 
corrupção, sob risco de termos um Brasil mais corrupto após a Lava Jato”.

Em branco e preto
Dallagnol diz ainda que, talvez, o maior mérito da Lava Jato foi “ter feito o retrato de uma
corrupção que tem raízes profundas e tentáculos que abraçam uma multidão de órgãos
públicos”. “Não só a quantidade, mas o poder dos acusados levados a julgamento
impressiona.”

É com eles
O procurador defende que prisões “paralisam os crimes, mas não diminuem os estímulos à
corrupção” e pede reformas. “Se não alterarmos os sistemas de Justiça e político, a Lava Jato
será, no futuro, a memória de um tempo de esperança, em que acreditávamos que tudo poderia
 ser diferente.”

Leia a íntegra da mensagem de Deltan Dallagnol à coluna:
A Lava Jato chega aos três anos no auge – até agora, pelo menos – de sua história. A 
investigação foi consistente e englobou 746 buscas e apreensões, 183 pedidos de cooperação
 internacional, 155 acordos de colaboração com investigados e 10 acordos com empresas.

As provas coletadas conduziram a 56 acusações criminais em primeira instância, contra 260 
pessoas. Já há 26 sentenças condenando 130 pessoas a penas que, somadas, ultrapassam 
1,3 mil anos. Não é só a quantidade, mas o poder dos acusados levados a julgamento que 
impressiona. O valor que os réus já se comprometeram a devolver soma mais de 10 bilhões de
 reais, quando a regra na justiça penal brasileira é não recuperar nenhum real. E há muito mais 
por vir.

Os resultados que a sociedade mais espera ainda virão a partir do trabalho do Supremo 
Tribunal Federal, em relação a pessoas que têm foro privilegiado. A colaboração da Odebrecht 
lançará uma série de sementes de investigações, em muitos lugares do Brasil e do exterior, que
 poderão germinar e se tornar grandes operações.

Não sabemos ainda se a Lava Jato e todos os seus resultados inéditos, olhados do futuro, em 
perspectiva, serão um pequeno desvio no caminho do país, e ele retornará à estrada original, 
ou se  ela nos colocará sobre novos trilhos, rumo a um país menos corrupto. Isso porque ela faz 
diagnóstico, e não tratamento.

Seu maior mérito talvez seja ter feito um retrato de uma corrupção que tem raízes profundas
 em nossa história e tentáculos que abraçam uma multidão de órgãos públicos. A investigação
 só logrou expor as vísceras do ambiente político-econômico, mas também romper 
episodicamente aimpunidade dos círculos do poder. A gravidade da doença nos faz desejar
 ardentemente o tratamento.

Não queremos que a justiça seja igual para todos, incluindo poderosos, apenas na Lava Jato.
 Não basta colocar na cadeia os corruptos da Lava Jato, mas também os outros 97% daqueles 
desviam dinheiro público e saem impunes.

As prisões são importantes para paralisar os crimes, mas elas não diminuem os estímulos 
à corrupção  que existem no sistema político. Se não alterarmos os sistemas da Justiça e 
o político, a Lava Jato  será, no futuro, uma feliz memória de um tempo de esperança, em 
que acreditávamos  que tudo poderia ser diferente.

Isso traz à tona o papel essencial da sociedade. O maior erro da Itália, acredito, tenha sido 
depositar excessivamente a expectativa de uma solução nos ombros do Judiciário, quando 
apenas  reformas mais profundas poderão nos trazer um país mais limpo.

A Lava Jato mantém aberta uma espécie de portal de reformas, mas cabe à sociedade
atravessar. Vivíamos no círculo vicioso em que mudanças jamais aconteceriam. Há um 
momento de ruptura, hoje, visível em três aspectos. O diagnóstico conscientizou as 
pessoas do mal que a corrupção causa e trouxe o tema para a mesa de debates na 
sociedade e no parlamento.

A Lava Jato nos dá o gostinho do país que podemos ter, onde impera a lei para além 
do reino do papel. A população ganhou músculos ao ir para a rua várias vezes, buscando
 o fim da corrupção. Assim, a consciência do problema se somou ao sonho de reformas e 
à força da sociedade. É uma combinação poderosa.

Se as pessoas não se insensibilizarem, se não desistirem, chegaremos lá. E isso é vital.
 Desbasta  galhos de uma árvore pode fazer com que brotem em maior quantidade e com 
renovado vigor. Precisamos arrancar essa árvore da corrupção, sob risco de termos um Brasil 
mais corrupto após a Lava Jato.

Deltan Dallagnol, procurador da República e coordenador da força-tarefa 
Lava Jato na Procuradoria da República no Paraná