sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

'Recordes indesejáveis', por Anderson Scardoelli

Governo Lula assume a liderança em indicadores como gastos com viagens, déficit das estatais, empresas em recuperação judicial, queimadas na Amazônia e pagamento de emendas parlamentares


A gestão Lula 3 lidera o ranking de gastos com viagens e pagamento de emendas ao mesmo tempo em que as queimadas na Amazônia disparam - Foto: Montagem Oeste/REUTERS/Jorge Silva


Políticos costumam se gabar dos indicadores positivos registrados durante seus mandatos, sobretudo durante campanhas eleitorais. No pleito deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá seguir estratégia diferente. A atual gestão empilha recorde atrás de recorde, em geral, negativos. A estratégia de esconder o que é ruim já se faz presente antes mesmo da corrida eleitoral de outubro, na qual o petista deverá buscar a reeleição. 

O governo Lula é campeão, por exemplo, em recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). Foram 19 vezes desde janeiro de 2023, enquanto Bolsonaro acionou o órgão em 17 ocasiões ao longo de todo o mandato. Sem uma base aliada robusta no Congresso Nacional, onde rotineiramente acumula derrotas, o presidente nem tenta disfarçar a tabelinha com o STF. “Se não entrar com recurso no Judiciário, eu não governo mais o país”, admitiu, em entrevista a uma afiliada da TV Globo em julho do ano passado. Na série iniciada em 2003, os governos anteriores (Lula 1 e 2, Dilma 1 e Dilma 2/Michel Temer) ficaram em um ou dois pedidos desse tipo, segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo.

O atual governo é também o que mais alegou sigilo para não atender a pedidos feitos via Lei de Acesso à Informação. O ápice se deu no ano passado, com 37% de negativas sob tal justificativa. O menor patamar se deu em 2013, no governo Dilma Rousseff, com 19%; na administração do ex-presidente Jair Bolsonaro, o índice chegou a 31% em 2022.


A equipe do petista se destaca ainda no item viagens. 

Em três anos, os gastos — tanto em roteiros nacionais quanto internacionais — foram de quase R$ 7 bilhões, segundo a Controladoria-Geral da União. O valor supera em 65% o montante gasto durante os quatro anos da gestão anterior. Gastos com viagens Total anual de gastos do governo federal com viagens, incluindo diárias, passagens e outros custos. Valores em bilhões de reais Fonte: 

Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União 2019 2020 2021 2022 2023 2024 2025 1,27 0,54 0,79 1,55 2,28 2,38 2,32 


Sanha arrecadatória

A sanha arrecadatória é outra característica do governo Lula. Em 2024, a receita atingiu R$ 2,6 trilhões e deve fechar 2025 acima deste valor — de janeiro a novembro chegou a R$ 2,5 trilhões. No governo Bolsonaro, o recorde havia se dado em 2022, com R$ 2,2 trilhões. Desde 2010, o ano com menor arrecadação foi o último ano de Lula 1, com R$ 805 bilhões. Sem constrangimentos em tirar mais dinheiro dos pagadores de impostos, o PT apela para o cinismo ao classificar este furor tributário como “justiça fiscal”. Apesar do aumento expressivo da arrecadação, o governo bateu recorde no quesito dívida pública: R$ 8,5 trilhões em novembro de 2025, o equivalente a 79% do Produto Interno Bruto do país. Depois de a dívida pública chegar a 86,9% do PIB em 2020, Bolsonaro entregou o governo com a relação dívida pública/PIB em 71,7%.


Arrecadação anual do governo federal (em R$ trilhão) OBS:

o valor de 2025 é da parcial até novembro Fonte: Análise da Arrecadação das Receitas Federais Obter dados Criado com Datawrapper 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021 2022 2023 2024 2025 0,81 0,92 1,02 1,13 1,18 1,22 1,29 1,34 1,45 1,53 1,47 1,87 2,21 2,31 2,65 2,5


As estatais são exemplo de como a gestão petista lida mal com recursos financeiros. Conforme o Banco Central, o déficit das empresas controladas pela União chegou próximo dos R$ 6,7 bilhões em 2024 — valor mais alto desde o início da série histórica, em 2002 —, sendo que os Correios respondem por cerca de 95%, com rombo de R$ 6 bilhões. Temer e Bolsonaro encerraram seus mandatos deixando as estatais federais no azul: saldos de R$ 313 milhões e R$ 4,8 bilhões, respectivamente.


O economista Izak Carlos da Silva, do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais e do Instituto Millenium, explica que o resultado de um governo que gasta mais do que arrecada é a aceleração da inflação, o que obriga o Banco Central a agir. “Para conter esse processo, a autoridade monetária é levada a manter juros mais elevados por mais tempo, o que encarece o crédito e reduz o consumo”, afirma. “Isso também desestimula o investimento privado e afeta diretamente decisões cotidianas como financiamento da casa própria, compra de bens duráveis e expansão de pequenos negócios.” 

Jogando contra quem produz 

Nunca antes na história deste país tantas empresas entraram com pedido de recuperação judicial como em 2024. Foram mais de 2,2 mil CNPJs recorrendo ao Poder Judiciário na tentativa de evitar a falência, indica levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), com base em dados da Serasa Experian. Situação que representa crescimento de mais de 60% na comparação com os 1,4 mil pedidos de recuperação feitos em 2023. Mesmo durante a pandemia de covid-19, a média pedidos por ano ficou abaixo de mil. 

Divulgada no mês passado, uma nova pesquisa da Serasa apresentou outro dado alarmante em relação ao setor empresarial brasileiro. Em outubro, 8,7 milhões de empresas estavam inadimplentes, o que estabeleceu um novo recorde, que vem sendo renovado mensalmente desde janeiro de 2025. Problema que afetou principalmente as micro, pequenas e médias empresas: do total de corporações com dívidas em atraso, 8,2 milhões estão dentro dessa classificação.


“O número recorde de empresas inadimplentes reforça os sinais de fragilidade financeira no setor corporativo”, avalia Camila Abdelmalack, economista da Serasa Experian. “A desaceleração na concessão de crédito tem limitado a capacidade das empresas de renegociar dívidas e reorganizar suas obrigações financeiras, aumentando a pressão sobre o caixa. Paralelamente, o esfriamento da atividade econômica reduz a geração de receita, criando um cenário desafiador para a manutenção da liquidez e para a sustentabilidade das operações, especialmente entre micro e pequenas empresas.”

Dinheiro para a companheirada

 O dinheiro que tem faltado para o setor produtivo sobra para os amigos do poder. No âmbito político-partidário, em três anos, o governo Lula já pagou mais emendas parlamentares do que todo o período da administração Bolsonaro. De 2023 a 2025, cerca de R$ 120 bilhões foram direcionados a projetos indicados por deputados federais e senadores, registra a plataforma Siga Brasil. Montante bem maior que os R$ 85 bilhões liberados pelo ex-presidente de janeiro de 2019 até o fim de seu mandato, em dezembro de 2022.


Ainda na esfera política, o recorde também se dá no número de cargos comissionados (aqueles em que a função surge por meio de indicação do governo de plantão, sem a realização de concurso público). Em novembro de 2025, o Painel Estatístico de Pessoal, plataforma vinculada ao Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, rompeu a barreira dos 50 mil profissionais comissionados na esfera federal, o que inclui a administração direta, autarquias e fundações. Quando Bolsonaro deixou o poder, a máquina pública federal contava com 46,3 mil concursados. Com Lula, tem sido recorde seguido de recorde. Antes de ultrapassar 50 mil, o número de cargos de confiança fechou em 47,7 mil em 2023 e 49,4 mil em 2024.”


A companheirada espalhada pela imprensa também impulsiona recordes da gestão petista. No decorrer do ano passado, o governo federal, via Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, repassou em torno de R$ 200 milhões a veículos de comunicação on-line e elevou o acumulado com esse tipo de gasto para mais de R$ 450 milhões desde o início de Lula 3. Na soma dos quatro anos de Bolsonaro no poder, o montante gasto com publicidade na internet ficou abaixo dos R$ 400 milhões. 

A Lei Rouanet não ficou de fora da lista. Nunca tanto dinheiro foi captado por projetos culturais, a partir dessa regra do governo federal, como em 2025. No caso, foram R$ 3,4 bilhões.


Durante a campanha de 2022, Lula prometeu zerar a fila do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A promessa passou longe de ser cumprida. Pelo contrário. Quando reassumiu o comando do Palácio do Planalto, em janeiro de 2023, 1,2 milhão aguardavam decisões do órgão. Em outubro do ano passado, o número de pessoas à espera de benefícios do INSS era de 2,8 milhões. Mais um recorde.


“Defender a Amazônia da política de devastação” foi outra promessa não cumprida pelo atual presidente do Brasil. Diferentemente da afirmação registrada no plano de governo apresentado à Justiça Eleitoral em 2022, o bioma tem sofrido. O recorde de focos de calor se deu em 2024, com 140 mil ocorrências, segundo a plataforma BDQueimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Em 2022, pior ano de Bolsonaro nesse sentido, foram 115 mil registros, recorde até então.


O petista também prometeu cuidar das mulheres, mas falhou. Em 2024, o número de feminicídios bateu recorde, com 1,5 mil casos, informa a 19ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada em julho do ano passado. Avanço de 1,7% na comparação com 2023, então recorde desde 2015, quando a lei específica contra feminicídio foi criada no Brasil.


Com esse combo de indicadores negativos, incluindo na parte da economia, Lula poderá ter dificuldades para tentar se reeleger. “O bolso é um dos principais fatores da eleição”, observa Murilo Hidalgo, diretor do instituto Paraná Pesquisas. Nesse sentido, o petista corre o risco de ter mais um recorde para chamar de seu: o de maior índice de rejeição.


Anderson Scardoelli - Revista Oeste