sábado, 10 de agosto de 2019

Chega de apanhar calado, escreve Marcelo Tognozzi

Com pelo menos 30 anos de atraso o governo anunciou semana passada uma campanha para rebater os ataques que todos os dias são desferidos contra a reputação do país e dos seus produtores rurais. O Brasil tem sido atacado muito mais pela ameaça que representa na geopolítica mundial e menos pelos riscos ambientais e étnicos eventualmente provocados pela produção agropecuária, embora possa parecer exatamente o contrário.
Os ataques são cotidianos e muito mais fortes que aqueles desferidos contra outros países, muitos deles com má reputação. É o caso da China, conhecida mundialmente pelas suas falsificações –ou “cópias”–, sejam sofisticadas ou grosseiras. Há uma lista interminável de casos comprovados de falsificação desde leite em pó, mel, óleo e cozinha, ovos, bebidas, água, carne “fabricada” com papelão, carne falsificada e até arroz de plástico. O Google virou uma vitrine de exemplos e denúncias deste tipo contra os chineses, registrando 1,4 milhão de menções. Mas Europa registrou um número maior: 1,8 milhão. A África tem 460 mil menções e a Índia apenas 294 mil. Já o Brasil é o campeão com 4,58 milhões de citações. Confira no quadro abaixo os resultados da busca “alimentos falsificados” realizada no dia 4 de junho desde ano:
Isso quer dizer que o Brasil é o paraíso dos alimentos falsificados? Não. O resultado da busca é apenas a ponta do iceberg de uma campanha permanente com objetivo de atacar a reputação do Brasil e seus produtores.
Dados da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) indicam que o Brasil produz alimentos para 1,5 bilhão de pessoas. O livro Feeding The World: Brasil’s Transformation Into a Modern Agricultural Economy dos professores Francisco Vidal Luna e Herbert Klein, lançado em março passado, mostra como o Brasil saiu da segunda para a primeira divisão do agronegócio mundial em 50 anos. Somos os maiores exportadores de carne, frango, soja, laranja e açúcar. O segundo de milho e algodão. Boa parte do que o mundo come e veste vem de matérias-primas brasileiras. Pelo menos 13 milhões de empregos garantem nossas boas safras. Conquistamos isso com muito esforço, trabalho e geração de tecnologia própria com a Embapa, a Esalq e outros centros de pesquisa e inovação.
Esta guerra contra o agronegócio brasileiro, acusado de desmatar, envenenar, escravizar, matar índios e tudo o que há de pior ética e moralmente, tem como objetivo final denegrir nossa reputação e abalar a confiança nos nossos produtos. Ninguém em sã consciência consumiria um alimento envenenado ou daria para uma criança. Imagine o caos se os brasileiros estivessem consumindo produtos envenenados com pesticidas, hormônios, antibióticos ou adubos químicos. O Brasil é o segundo maior exportador de alimentos em volume, com vendas para 180 países. Será que toda essa gente compraria nossos produtos se eles estivessem fora das mais rigorosas normas e padrões sanitários?
Em três décadas o mundo terá de aumentar a produção de alimentos em 70% para conseguir dar de comer a 10 bilhões de seres humanos. Hoje, apenas três países possuem um território maior do que 5 milhões de quilômetros quadrados, população acima dos 150 milhões de habitantes, PIB superior 1 trilhão de dólares e condições de produção em larga escala: Estados Unidos, China e Brasil. Dos três, o Brasil é o que melhores condições oferece para a produção rural, pelo clima e abundância de água. Esta vantagem interfere diretamente na geopolítica mundial. Separadamente, as duas maiores economias do planeta precisam do Brasil para consolidar sua liderança e manter o poder de controle interno e externo, porque alimentos são a primeira condição de garantia da paz social.
A União Europeia não aceitou firmar um acordo com o Mercosul por causa da Argentina, do Uruguai ou do Paraguai. O Brasil fez a diferença com seu mercado de 200 milhões de consumidores, seus 8 milhões de quilômetros quadrados e liderança incontestável no agronegócio mundial. Quanto mais estressante fica a guerra comercial entre Estados Unidos e China, mais perto do Brasil querem ficar os europeus. Independente do governo que esteja de plantão no Planalto, esta parceria é uma necessidade tanto para americanos como chineses ou europeus. Cabe a nós tirarmos as melhores vantagens desta situação.
O importante é entendermos o grau de manipulação que existe quando atacam o Brasil, porque este é um negócio que garante notoriedade e emprego para muita gente. Com as mudanças no mercado de trabalho e a expansão do terceiro setor, cujo financiamento muitas vezes tem pouca ou nenhuma transparência, o emprego de crítico do Brasil passou a ser uma fonte segura de renda, mesmo para os mais medíocres.
O governo e os produtores já deveriam ter reagido faz tempo. É uma questão de Estado. Não se restringe a um setor ou meia dúzia de fazendeiros, mas é algo muito maior como abrir mão, ou não, da nossa soberania agrícola e do nosso conhecimento. A transformação do país em player poderoso e relevante para geopolítica mundial é consequência da produção de conhecimento e da geração de tecnologia própria. Isso é riqueza. O Brasil cansou de apanhar calado e pode virar o jogo se optar por uma campanha inteligente, eficaz e permanente.

Poder360