‘Carinhoso’ não foi bem recebida pela crítica. Na revista ‘Phonoarte’, Cruz Cordeiro escreveu que a introdução era um ‘verdadeiro foxtrote’
Em algum momento, entre 1916 e 17, o jovem Alfredo da Rocha Vianna Filho escreveu uma polca lenta em duas partes e achou que a turma do choro não ia aceitar aquela música fora do padrão usual de três partes. Engavetou a composição por pouco mais de uma década, período no qual muita coisa aconteceu na sua vida.
Logo em seguida ao engavetamento de “Carinhoso”, Pixinguinha iniciou ascensão meteórica para se tornar o grande líder da música popular no Brasil. Em 1917, lançou seu primeiro disco como solista e compositor, com duas obras espetaculares: o tango “Sofres porque queres” e a valsa “Rosa”. Em 1919, fundou os Oito Batutas, grupo com o qual esteve em Paris e na Argentina entre 1922 e 23. De volta, fez do teatro de variedades seu laboratório de instrumentação, e quando aqui chegaram quatro gravadoras internacionais de olho no mercado brasileiro de música popular — Victor, Columbia, Parlophon e Brunswick — por volta de 1927, já estava apto a ser o primeiro arranjador brasileiro. O mediador perfeito entre a criação do compositor popular e o produto da indústria do disco.
Foi nesse momento, na plenitude de sua liderança, que Pixinguinha achou que era hora de tirar aquela polca lenta da gaveta e gravou “Carinhoso” com a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga, disco que saiu em fins de 1928. Mas a música não foi bem recebida pela crítica. Na revista “Phonoarte”, Cruz Cordeiro escreveu que a introdução era um “verdadeiro foxtrote”. O detalhe quase inacreditável é que o arranjo gravado não tinha introdução, começando direto na melodia que hoje todos sabemos de cor.
Assim, “Carinhoso” teve que esperar mais uns anos para virar clássico. E tudo meio por acaso. A primeira-dama Darcy Vargas organizou em 1937 um espetáculo beneficente, “Parada das maravilhas”, que misturava no elenco artistas do rádio e do teatro. A atriz e cantora Heloísa Helena queria se destacar e pediu ao compositor João de Barro uma inédita para lançar no evento. Como não tinha nada em mãos, Braguinha colocou letra no choro de Pixinguinha. Pouco tempo depois, com a interpretação perfeita de Orlando Silva e um arranjo de Radamés Gnattali que continha a introdução que hoje conhecemos, “Carinhoso” se tornou o que é.
Desde o sucesso da gravação, Orlando adotou a música como prefixo, e “Carinhoso” o acompanhou até em seu cortejo fúnebre em 1978, do Centro a Botafogo, quando a multidão cantou o choro de Pixinguinha sem parar.
Do ponto de vista musical, é no mínimo curioso que uma melodia contendo sucessivas modulações se preste ao canto coletivo, mas a verdade é que diferentes gerações de brasileiros cantam “Carinhoso” com a maior naturalidade, como se fosse uma melodia singela. Algo meio mágico.
Ao longo de 2017 estarei apresentando com Marcelo Vianna, ator, cantor e neto do Pixinguinha, o espetáculo “Pixinguinha, as cinco estações”, que tem a história de “Carinhoso” como eixo central. Como diz o Paulinho da Viola: “Pixinguinha cura”, e sua música pode ser um bálsamo valioso nos dias raivosos que vivemos.
Henrique Cazes é músico e professor da Escola de Música da UFRJ