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A ditadura sempre teve como aliada a prudência dos diplomatas de rabo preso
Tá ok que o nosso STF é uma repartição política, creio que ninguém mais discorda, nem mesmo a esquerda festiva psolitsa e petista. Não quero adentrar especificamente em assunto nenhum daquela Corte, mas, se o caso Daniel Silveira nos ensina algo, é que o nosso STF é tão imparcial quanto o Casagrande comentando jogos do Corinthians. Quanto antes o STF sair do armário, menos humilhante ficará para ele próprio.
Mas, como disse, não vim aqui para falar de assuntos óbvios. Vim tratar daquela massa silenciosa que sempre povoa com panos quentes, e pavoneia com retóricas mil, as decisões dos tiranos. Isso me fez lembrar que, na iminência da Segunda Guerra Mundial, quando Hitler cada dia mais dobrava a aposta na perseguição aos judeus, quando sem floreios retóricos aumentava as ameaças aos países vizinhos — em especial à Polônia —, quando começou a fabricar armas tal como um solo fértil produz grama, Neville Chamberlain — primeiro-ministro britânico — fazia acenos amigáveis e fofos a Hitler, viajando para a Alemanha na busca de converter o coração do Führer com discursos desarmamentistas e apertos de mãos afetuosos. Quando Winston Churchill finalmente assumiu a mais alta posição no Parlamento britânico, depois de os fracos terem afagado e jogado purpurinas sobre os despotismos alemães e japoneses, o gordo conservador disse a seu motorista: “Tomara que não seja tarde demais”.
Pois é, a lição da minha verborragia é a seguinte: tão ameaçadores quanto os próprios tiranos são os fracos que compadecem das tiranias. Aqueles que, com meias palavras, minoram ou usam da fofa diplomacia do “pera ae, não é bem assim” para afagar os monstros que nos destroçam. Falo abertamente dos liberais que tomam chá com dedinho levantado, vomitando “respeito às instituições” mesmo ante os mais flagrantes desrespeitos do STF; falo também dos conservadores que usam pantufa e discutem música clássica para parecer inteligentes, mas que, na hora de apontarem as gangrenas de nossa sociedade, se escondem atrás de sofisticações e prudentismos tolos.
O que se desenha no limiar de nossas vistas parece mais um golpe sistêmico. Um cala-boca jurídico vestido com lingerie de legalismo
Conversando recentemente com um amigo que, com assiduidade, ronda os corredores de nosso Parlamento, ele me confidenciou que até mesmo os velhos caciques da esquerda estão assustados com os avanços ditatoriais do Supremo Tribunal Federal. Ora, essa reação é um tanto quanto óbvia. Quem estudou um pouquinho só a história da URSS, quem leu ao menos a primeira parte de Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenítsin, sabe que cedo ou tarde a fome despótica recai também sobre os afagadores. Essa morosidade quase romântica que habita as línguas e penas de nossa mídia tradicional e o silêncio sepulcral de nosso Senado me lembram muito aquele mutismo que assola os que estão prestes a ouvir uma condenação, aquele interregno que antecede a explosão iminente. O silêncio dos bons e dos covardes sempre foi o combustível dos maus na história política moderna, a ditadura sempre teve como aliada a prudência sofisticada dos diplomatas de rabo preso.
Isso ainda piora, pois existe um cenário francamente estranho que se desenha no horizonte. Ainda o enxergamos um tanto quanto embaçado, é verdade; e, se fosse incauto, poderia até jurar que parece ser algo como que um golpe. Mas não sou desses, não saio emitindo opiniões imprudentes a esse nível para depois me recolher e fingir que nada disse. Caso minha impressão se mostre real, cabe dizer que não se trata daquele golpe vistoso e heroico, como Fidel entrando em jipes militares em Havana. O que se desenha no limiar de nossas vistas parece mais um golpe sistêmico. Um cala-boca jurídico vestido com lingerie de legalismo. Falo da supressão dos poderes de um dos tripés da República em nome da “democracia”. Da supressão da liberdade de expressão de apenas uma ala da sociedade civil em nome do “combate a fake news”. Do obscurantismo eleitoral, da negação de uma apuração independente do instante mais fundamental de uma República.
Há um cheiro estranho no ar… ainda não reconheço bem do que é. Existe uma espécie de burburinho abafado, silenciado sempre que um ouvido rebelde se dispõe a escutar a perla dos poderosos. Há discursos alinhados, encontros secretos e camaradagens ocultas. Mas, por ora, vou parar aqui. Já estou parecendo aquele típico conspiracionista de Telegram.
Talvez a tempestade que enegrece o horizonte se desfaça até 2 de outubro. Amém. Mas algo fica evidente. Poucas coisas destacam mais as táticas e as vontades dos bandoleiros do que o ensurdecedor silêncio dos complacentes sofisticados. Na história moderna, quase nada é tão certeiro quanto a quietude dos medrosos antes do advento de uma ditadura.
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Revista Oeste