sexta-feira, 14 de abril de 2017

"Saneamento condominial", Deise Coelho e José Carlos Melo

O Globo

O êxito do método levou o BID a recomendar seu uso na solução para o problema do saneamento na AL por reduzir, com qualidade, os custos dos sistemas de água e esgoto


A série de matérias do GLOBO sobre saneamento básico expôs o enorme déficit do setor, e a exclusão de milhões de brasileiros do acesso à água potável e coleta e tratamento de esgoto. É um problema crônico a desafiar governos e agências unilaterais.

Milhões de famílias pobres, com parcos recursos políticos e econômicos para reivindicar, são privadas de um serviço vital ao seu bem-estar. São moradores de aglomerados pouco ou nada urbanizados, em territórios que sobraram da urbanização regular, em áreas populosas e carentes de serviços, especialmente na América Latina, Ásia e África.

O estudo “UN-Water” da Organização Mundial da Saúde (OMS) cita 100 milhões de pessoas na AL/Caribe sem coleta e tratamento de esgoto, e 36 milhões sem água potável — no Brasil são 35,1 milhões e 3,1 milhões, respectivamente.

A histórica falta de verbas oficiais agrava o quadro, e enseja a disseminação de vários problemas de saúde pública, como zika, chicungunha e dengue.

Contudo, há soluções alternativas sólidas em cidades como Brasília e Salvador, e que já atraem governantes, empresas de saneamento e entidades financiadoras.

A mais estruturada e eficaz delas é o Sistema de Saneamento Condominial, em implantação há 30 anos com nítida melhora na qualidade de vida de brasileiros, paraguaios e peruanos, entre outros. O êxito técnico, social e econômico do método levou o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) a recomendar seu uso na solução para o problema do saneamento na AL por reduzir, com qualidade, os custos de implantação do sistema de distribuição de água potável em cerca de 70%, e de esgotamento em 40%.

O método se adapta a qualquer tipo de urbanização, com menos transtorno e mais diálogo entre os envolvidos — entes político-institucionais, sociedade civil, líderes locais e usuários.

A partir da década de 90, no Distrito Federal, e desde 2000, na Bahia, esse método ajuda a universalizar o acesso ao saneamento, com cerca de 1,5 milhão de beneficiados no primeiro e 1,35 milhão no segundo. Na Estrutural (comunidade pobre do DF), o método mudou as vidas de todos, e ajudou a transformar um aterro sanitário, com milhares de catadores em barracos, num bairro de residências fixas e ordenadas.

Já nos Lagos Sul e Norte, áreas nobres, o novo sistema, em lugar de fossas, foi implantado com sucesso pela Caesb (a empresa local de saneamento), provando que a tecnologia atende pobres e ricos.

Sob orientação e financiamento do BID, a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) trabalha para despoluir a bacia do Rio Ipojuca (terceiro mais poluído do país) e dar qualidade de vida à população via saneamento condominial.

Portando, é um método que está pronto para ir além, e pode mudar nosso crônico déficit de saneamento básico, desde que mais autoridades e agências unilaterais optem por adotá-lo, em prol da saúde de milhões de cidadãos e do meio ambiente. (Mais detalhes emhttp://www.diagonal.net/nosso-canal/71-a-problematica-de-saneamento).

José Carlos Melo e Deise Coelho (Consórcio Condominium/Diagonal) são engenheiros e consultores contratados pelo BID


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