sexta-feira, 14 de abril de 2017

José Paulo Kupfer: "Dificuldades além das teorias"

O Globo

Frustrações com o comportamento da economia, em razão de crenças em teses que acabam não se confirmando, podem se repetir ao longo deste ano


São muitas as teorias ainda sem confirmação que andam circulando por aí. A mais recente é a de que o mercado já teria “precificado" os efeitos da abertura, na terça-feira, das delações da Odebrecht, com denúncias de uso de caixa 2 eleitoral e recebimento de propinas envolvendo meio mundo político, incluindo quatro ex-presidentes e importantes gabinetes do governo de Michel Temer.

O tédio dos índices da Bolsa e das cotações do dólar, na sequência da divulgação da longa e diversificada lista de investigados, está sendo usado como uma comprovação da teoria. A mensagem transmitida pelos sonolentos pregões do dia seria a da crença dos “mercados" no avanço das reformas, apesar dos altos riscos embutidos nas turbulências que ainda podem ser produzidas pelos desdobramentos das denúncias de corrupção nas operações da Odebrecht e de outras empreiteiras.

Difícil saber se a razão da acomodação das primeiras horas, nos mercados domésticos de ativos, se prende de fato a um nem aí dos operadores com os efeitos negativos para a aprovação das reformas do envolvimento de negociadores, no Planalto e no Congresso, nas delações. O certo é que se trata de teoria frágil e o potencial de problemas para o tempo até a aprovação e para a manutenção do espírito original das propostas reformistas oficiais — sobretudo no caso da Previdência, tida, entre os governistas, como o principal ponto de inflexão rumo à estabilidade monetária e o crescimento econômico — aumentou depois que as delações foram escancaradas.

Há quem considere, por exemplo, que a paz relativa dos pregões recentes se deve, mais do que qualquer outro fator, à trajetória francamente descendente da inflação e, no mesmo diapasão, das taxas básicas de juros (taxa Selic). Por trás da vinculação entre o ambiente benigno no departamento monetário da economia e a calma nas cotações estaria a teoria que encadeia um circuito econômico virtuoso a ciclos de cortes nos juros básicos.

O próprio presidente Temer saudou a redução de um ponto porcentual na taxa básica, trazendo-a de 12,25% ao ano para 11,25%, promovida pelo Banco Central na quarta-feira. 

“A inflação em queda e a redução da Selic vão estimular a economia, a produção industrial e o consumo interno”, escreveu Temer em seu Twitter. Essa é mais uma teoria que, nos dias atuais, nem sempre se confirma.

Em certos casos, nem mesmo taxas de juros negativas, ainda que em ambientes de inflação muito baixa, têm sido capazes de relançar a economia. O Japão, com a economia praticamente estagnada há duas décadas, é um exemplo clássico. A Europa, sobretudo depois da eclosão da grande crise de 2008, vive situação muito parecida. O Brasil poderia ser diferente, mas há uma lista de motivos que permitem acreditar que, também entre nós, a teoria, na prática, seria outra.

Um desses motivos é o elevado grau de endividamento de empresas e famílias. A insolvência conspira contra uma relação favorável entre juros mais baixos, crescimento e geração de empregos. Enquanto o peso das dívidas não for significativamente aliviado — e esse alívio vem ocorrendo em ritmo lento —, empresas não terão ânimo para investir e consumidores para consumir. A taxa de desemprego recorde colabora para a tendência à paralisia.

É verdade que, de novo em teoria, um custo do dinheiro mais barato estimula a renegociação de dívidas, o que pode resultar em melhoria no grau de solvência da economia. Só que, no mercado financeiro brasileiro, em razão da anomalia dos spreads (diferença entre o custo dos empréstimos e o de captação de recursos pelos bancos) muito altos, a taxa efetiva de juros, embora já um pouco menos elevada, continua nas alturas, e o custo do dinheiro permanece como vetor contrário. Saldar as dívidas se mantém como objetivo distante no horizonte.

Esse quadro de dificuldades além das teorias tem provocado decepções e erros de política econômica. Foi assim no segundo semestre de 2016, quando expectativas de recuperação econômica acabaram frustradas. O mesmo risco de que ocorram decepções ronda o comportamento da economia ao longo deste ano.


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