quarta-feira, 19 de abril de 2017

‘Tem um pessoal de extrema confiança’, disse Palocci sobre Odebrecht a Mônica Moura

Julia Affonso e Ricardo Brandt - O Estado de São Paulo

Frase foi atribuída ao ex-ministro pela empresária-delatora Mônica Moura, em depoimento ao juiz Sérgio Moro sobre pagamentos de campanhas do PT


Antonio Palocci. Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters
Antonio Palocci. Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters

Em meio a confissões de caixa 2, a empresária-delatora Mônica Moura contou ao juiz federal Sérgio Moro sobre o início da relação do casal com o ex-ministro Antonio Palocci (Governos Lula e Dilma/ Fazenda e Casa Civil) e com a Odebrecht.
Mônica Moura confessou Caixa 2 em todas as campanhas eleitorais que fizeram.
Moro questionou a empresária se Palocci era o interlocutor financeiro dentro do PT.
“Sim, sempre o Antonio Palocci. Sempre, desde 2006, a primeira campanha que a gente fez, não é a primeira para o partido, mas a campanha da reeleição do presidente Lula, que foi em 2006, meu interlocutor para discutir valores, enfim, negociar campanha, foi o Palocci. Até 2012. Em 2014, ele já não estava, ele já não entrou”, relatou.
Mônica afirmou que ‘tinha muito relacionamento’ também com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, preso desde abril de 2015 na Operação Lava Jato.
“Ele era o financeiro, o tesoureiro, não sei o que do PT, então eu sempre estava me relacionando com ele também. A campanha de 2006, não. Eu nem conheci o Vaccari. A campanha da Marta, em 2008, eu já tive relação com ele, que ele já pagou uma parte. A parte por dentro era paga pelo partido, então, eu sempre emitia nota, contrato, era com ele (Vaccari)”, declarou.
Durante o depoimento, o juiz da Lava Jato quis saber da empresária por que o casal recebia pagamentos não oficiais.
“Eu não posso explicar isso. Isso para mim sempre foi um grande mistério no começo. Eu sempre perguntava, por que tem que ser assim? De verdade, não estou falando isso aqui para me eximir de nada, mas a gente sempre tentou que fosse por dentro. Por vários motivos: era mais fácil trabalhar, era mais simples, não tinha perigo, não tinha insegurança, não tinha nada o que gerava o pagamento por fora que era sempre muito complicado”, afirmou.
Segundo a empresária, a explicação era que o partido ‘não podia, que a campanha não podia, marketing é caro, sempre é caro, para ser bem feito é caro’.
“Não adianta dizer: ‘Ah, se faz campanha com pouquinho’. Se faz, mas, desculpa, se faz campanha mal feita. Campanha bem feita, como qualquer coisa bem feita, como televisão bem feita, como novela bem feita, como filme bem feito, é caro. É muito caro. E o partido dizia: ‘ah, a gente não pode pagar tudo isso por dentro, não tem teto, porque o TSE estipula,…’. Sempre tinha essa conversa. No início, eu também não entendia. Por que a empresa não pode pagar tudo por dentro? É porque o partido não podia aceitar, não podia receber toda aquela doação que era às vezes mais do que o dobro do que eles declaravam oficialmente”, contou.
João Santana foi marqueteiro de campanhas do PT, inclusive, dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (2006) e Dilma Rousseff (2010 e 2014). Mônica cuidava da contabilidade do casal.
A Moro, a empresária-delatora afirmou que, em 2006, João Santana ‘iniciou a tratativa com Palocci de como é que ia ser’ a campanha de Lula.
“Foi quando o João disse que exigia receber tudo por dentro. Tinha acabado de acontecer o Mensalão, Duda Mendonça, aquela história toda que todo mundo já sabe. A gente falou que não ia fazer. Eu lembro até de uma conversa de Palocci, dizendo: ‘não, não se preocupe, a gente vai dar um jeito’”, afirmou.
“Ele (Palocci) falou: ‘não se preocupe, nós temos uma maneira muito segura de te pagar isso. Tem um pessoal que é de extrema confiança, que colabora para gente, inclusive seus conterrâneos’. A gente não conhecia ninguém da Odebrecht. ‘Você vai estar totalmente seguro lá. Você vai receber lá, mas com total segurança’. Isso ele (Palocci) disse ao João. A gente acabou aceitando fazer. Mas também, Dr., um adendo, se a gente não aceitar fazer campanha no Brasil, por fora, a gente não faz a campanha.”
Monica Moura declarou que Palocci acertava com ela o valor da campanha. A empresário afirmou não saber se se Palocci tinha ciência sobre pagamento da Odebrecht ao casal no exterior.
“Ele me dizia: ‘então, tá, vai ser X por dentro, ok, isso você acerta com o tesoureiro, faz contrato, pá, pá, pá. Essa parte por fora, o partido vai pagar tanto, me dizia quem é que eu ia procurar do partido, quem é a pessoa dele que ia me pagar e a Odebrecht vai colaborar’. Isso desde 2006 quando ele falou a primeira vez que a Odebrecht ia colaborar com tanto: ‘Vá lá e acerte com eles como você quer’. A partir daí, ele não… só quando atrasava, quando tinha algum problema ou quando a coisa atrasava muito, o que acontecia muito de atrasar, eu procurava o Palocci para reclamar, porque tinha atrasado, sempre atrasava muito”, contou.

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