sexta-feira, 21 de abril de 2017

Raquel Landim: "Políticos querem vingança contra a Odebrecht"

Reprodução
Pagamentos continuaram após Lava Jato, diz Emílio Odebrecht
Pagamentos continuaram após Lava Jato, diz Emílio Odebrecht

Folha de São Paulo



O empresário Emilio Odebrecht pode até tentar, mas não consegue disfarçar a arrogância de quem está acostumado a mandar.

Nas conversas com os procuradores federais, o patriarca da família baiana deixa claro a reverência com que era tratado por políticos de várias legendas no Brasil e no exterior.

É impressionante a extensão do poder que chegou a desfrutar, mas a verdade é que hoje ele está mais acuado do que leva crer sua atitude nos vídeos divulgados pela Justiça.

Além de ter seu filho e herdeiro, Marcelo Odebrecht, preso há quase dois anos em Curitiba, o empresário vem assistindo seu império desmoronar.

A situação financeira da Odebrecht é muito delicada. O grupo depende da venda de ativos e de intricadas renegociações com os bancos para não quebrar.

Alguns ramos de negócio já conseguiram mais prazo dos credores, mas ainda há pesadas dívidas a solucionar na empresa de petróleo e nas concessões de infraestrutura.

A crise é tão grave que até a construtora se tornou foco de preocupação do mercado, apesar do perfil de longo prazo de seu endividamento.

Atravessando uma crise de reputação sem precedentes, a empresa não conseguiu nenhuma obra nos últimos tempos e, sem novos projetos, a receita se tornou insuficiente para pagar as despesas.

Para piorar a situação, o Grupo Odebrecht também vem sendo asfixiado pela administração Temer, a ponto de representantes do conglomerado reclamarem de "deslealdade governamental".

Eles se referem ao embate entre os diferentes órgãos públicos, colocando em dúvida a amplitude do "perdão" obtido pela empresa ao fechar o acordo de leniência com o Ministério Público Federal.

A discussão gera insegurança jurídica, o que dificulta a venda de ativos e a busca de novos clientes. Em resumo: a empresa não consegue virar a página apesar do acordo.

Além disso, o BNDES travou cerca de US$ 600 milhões em financiamentos para obras da Odebrecht fora do país, alegando que precisa rever os contratos já que existem suspeitas de corrupção.

Antes da Operação Lava Jato, obstáculos desse tipo seriam facilmente removidos pela influência de Emilio Odebrecht. Hoje o clima em Brasília é de vingança contra a empresa.

Um influente dirigente partidário disse à coluna que "não deveria haver salvação para a Odebrecht, já que os políticos não vão se salvar" e que "não é possível que Emilio Odebrecht continue rindo do Brasil".

Pessoas que acompanham a situação de perto dizem que o governo Temer e seus aliados querem tornar a construtora um exemplo do que acontece com empresas que ousam contar como corrompiam os políticos.

O objetivo é evitar que outras empreiteiras e até outros setores engrossem a fila das delações, já que a Odebrecht não é a única corruptora do país.

A situação é preocupante porque coloca em risco os instrumentos do acordo de leniência e de delação premiada, que foram fundamentais para a investigação.

Se a Odebrecht quebrar, que seja por seus próprios erros, e não por vingança dos políticos.

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