quarta-feira, 12 de abril de 2017

"O neoliberalismo do PT", editorial do Estadão

O Diretório Estadual do PT de São Paulo, o maior e mais importante do partido, está levando a cabo o seu “ajuste fiscal”. Nas últimas duas semanas, demitiu 13 funcionários. O corte nos últimos dois anos foi profundo. Em 2014, o diretório chegou a ter 55 empregados. Hoje, tem 8 trabalhadores


O Partido dos Trabalhadores (PT) opõe-se no Congresso e no palanque às reformas propostas pelo presidente Michel Temer em prol do ajuste das contas públicas. Lula da Silva e sua tigrada preferem, por exemplo, fazer vista grossa ao déficit previdenciário – em 2016, o rombo superou a casa dos R$ 300 bilhões – e propalar que a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/2016, a respeito da Previdência, é uma cruel tentativa para acabar com os direitos dos trabalhadores. Trata-se de deliberada tentativa de não enfrentar a realidade, recolhendo-se ao fantástico mundo da ideologia petista, onde “eles” são, a despeito dos fatos, os heróis do povo e quem ousa discordar do seu discurso simplista, os vilões.
A fuga da realidade tem, no entanto, seus limites. O mundo real teima em se fazer presente, também nos domínios petistas. Conforme revelou o Estado, o Diretório Estadual do PT de São Paulo, o maior e mais importante do partido, está levando a cabo o seu “ajuste fiscal”. Nas últimas duas semanas, demitiu 13 funcionários. O corte nos últimos dois anos foi profundo. Em 2014, o diretório chegou a ter 55 empregados. Hoje, tem 8 trabalhadores.
Todas as áreas foram afetadas. Das três faxineiras, sobrou apenas uma. A vigilância deixou de ser de 24 horas para funcionar apenas das 9 às 21 horas. Quase todos os secretários estaduais tiveram de demitir assessores. O atual presidente estadual do partido, Emídio de Souza, no cargo desde 2013, já teve quatro funcionários à disposição. Agora tem apenas um.
A redução das despesas petistas incluiu também a revisão do valor do aluguel de sua sede na capital de São Paulo. Antes, o partido de Lula pagava R$ 23 mil mensais. Com a renegociação, paga agora R$ 16 mil mensais. O Diretório Estadual do PT determinou ainda corte de verbas para viagens, hospedagens e atividades de formação política, entre outras.
Num primeiro momento, o PT tentou renegociar suas pendências financeiras. Logo, no entanto, os credores perceberam que, para reaver o que lhes cabia, seria preciso entrar na Justiça. Com o andamento das ações de cobrança, houve diversos bloqueios nas contas bancárias do diretório petista, levando os dirigentes a cortar radicalmente suas despesas.
A razão que o PT paulista aponta para a sua gestão neoliberal é a dívida de R$ 25 milhões, contraída em boa medida durante a campanha do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha ao governo de São Paulo, em 2014. Gastaram bem mais do que podiam e agora tentam acumular um superávit primário como forma de diminuir o rombo. Segundo Emídio de Souza, o pagamento da dívida da campanha consome 40% do orçamento do diretório regional, que é hoje de aproximadamente R$ 500 mil mensais.
Seguindo a prática observada no PT em tantos outros episódios dos últimos anos, Emídio de Souza tira a responsabilidade do partido pelo descalabro de suas finanças. A culpa é atribuída ao Supremo Tribunal Federal (STF), por ter proibido doações empresariais a partidos e candidatos. “A dívida foi contraída numa lógica, e esta lógica foi abolida logo depois da eleição”, diz o dirigente petista, que já foi prefeito de Osasco. O “logo depois” de Emídio de Souza é um tanto generoso. A decisão da Suprema Corte sobre a inconstitucionalidade da doação de pessoa jurídica para campanhas eleitorais ocorreu em 17 de setembro de 2015, quase um ano após as eleições de 2014.
O estado de suas finanças é também reflexo do encolhimento do PT nas duas últimas eleições, o que fez reduzir as receitas com o chamado dízimo petista, a contribuição obrigatória que os detentores de cargos eletivos e ocupantes de postos de confiança na administração devem pagar ao partido. Nas eleições de 2014, sua bancada estadual caiu de 23 para 15 deputados. Em 2016, das 70 prefeituras governadas pelo PT no Estado de São Paulo, sobraram apenas 11.
Fazer discurso populista contra o ajuste fiscal e contra as reformas de Michel Temer é fácil. Difícil mesmo é enfrentar a realidade das urnas e das contas. Que o eleitor não mais se engane com essa gente.

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