segunda-feira, 17 de abril de 2017

Livros marcam centenário de Roberto Campos

Cleo Velleda - 8.fev.99/Folhapress
ORG XMIT: 195001_0.tif O economista e ex-deputado pelo PPB, Roberto Campos, em debate na Folha de S.Paulo.
O economista e diplomata Roberto Campos (1917-2001) durante debate na Folha em 1999


Folha de São Paulo

O economista e diplomata Roberto Campos (1917-2001) faria cem anos nesta segunda (17). Para admiradores, ele foi um dos maiores defensores do livre mercado no Brasil; para críticos, um "entreguista" –o que lhe rendeu o apelido de "Bob Fields".

É inegável a influência de Campos sobre a economia e política brasileiras na segunda metade do século 20. Participou da criação da Petrobras –que ele mais tarde chamaria de "petrossauro"–, ajudou a formular o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e ocupou o Ministério do Planejamento de Castello Branco, no início da ditaura.

Foi o articulador da criação do BNDE (atual BNDES) e participou nos EUA em 1944 da conferência de Bretton Woods, que criou o FMI e o Banco Mundial. Na sua gestão à frente do Ministério do Planejamento, de 1964 a 1967, foram criados o Banco Central e o FGTS. Também mudou a lei de remessa de lucros, concedendo vantagens ao capital estrangeiro.

Conseguiu reduzir a dívida pública a 1,1% do PIB e a inflação a 34,5% ao ano em 1965, à custa de achatamento de salários, repressão a sindicatos e recessão.

Ao mesmo tempo, foi um mordaz crítico do intervencionismo e defensor do neoliberalismo. Em entrevista à Folha feita em 1993 e publicada em 2001, disse que uma das coisas que gostaria de ter feito na ditadura era ter abolido o monopólio do petróleo.

Gilda Mattar
ORG XMIT: 341901_0.tif 1994O economista Roberto Campos e a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher, em 1994.
O economista Roberto Campos e a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, em 1994


A polêmica era uma das marcas de Campos. São dele frases como "as esquerdas brasileiras fora do poder são festivas; no poder são aquisitivas" e "a burrice, no Brasil, tem um passado glorioso e um futuro promissor".

Até sua eleição para a Academia Brasileira de Letras foi polêmica, dividindo intelectuais. Em resposta, o economista afirmou que "as esquerdas queriam criar uma reserva de mercado" na ABL. O economista via-se como um homem "controverso", "não de unanimidades".

Campos manteve uma coluna na Folha de 1994 a 2000 chamada "Lanterna na Popa" –também nome de um de seus mais de 20 livros.
Matogrossense de Cuiabá, morreu em 9 de outubro de 2001, aos 84 anos.

Por ocasião do centenário de Campos, dois livros estão sendo lançados em sua memória. Um deles é "O Homem que Pensou o Brasil", organizado pelo diplomata Paulo Roberto de Almeida.

"Aos cem anos de seu nascimento, em abril de 1917, Roberto Campos permanece extraordinariamente atual, pois, para nossa infelicidade, não conseguimos cumprir nem metade das prescrições por ele feitas, mais de meio século atrás, para aliviar nossos males", escreve Almeida ao apresentar a obra.

Outro livro é "Lanterna na Proa", organizado pelo presidente do IBGE, Paulo Rabello Castro, e pelo jurista Ives Gandra da Silva Martins.

Leia cinco colunas para a Folha escritas por Campos:

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FRASES DE ROBERTO CAMPOS

Economista era conhecido pelas frases polêmicas
"Eu encontrei a velhice e não gostei."
Ao completar 80 anos, em 17 de abril de 1997

"Haverá salvação para um país que se declara "deitado eternamente em berço esplêndido" e cujo maior exemplo de dinâmica associativa espontânea é o Carnaval?"
Em 17 de janeiro de 2000

"Quando cheguei ao Congresso, queria fazer o bem. Hoje acho que o que dá para fazer é evitar o mal."
Em 22 de dezembro de 1999

"As reformas não conseguirão piorar nosso manicômio fiscal. Mas, como dizia um engraxate da Câmara, não há perigo de melhorar."
Sobre o projeto de reforma fiscal em tramitação no Congresso Nacional, em 15 de dezembro de 1999

"Tal como os muçulmanos em suas mesquitas, deixarei minhas sandálias ideológicas do lado de fora da casa."
Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 3 de novembro de 1999

"Hoje eu estudaria biologia molecular. A economia é apenas a arte de alcançar a miséria com o auxílio da estatística."

Respondendo a uma pergunta sobre se mudaria de profissão, em 14 de abril de 1999

"A chamada 'Terceira Via' é incompetência para praticar o capitalismo e covardia para aplicar o socialismo."

Em 25 de novembro de 1999
"Um espectro ronda o país –o espectro da desordem."
Em 8 de novembro de 1999

"Não me iludi com o totalitarismo de esquerda por um raciocínio muito simples. Deus não é socialista. Criou os homens profundamente desiguais."
Durante sua posse na ABL, em 3 de novembro de 1999

"Nunca fui um atleta sexual. Usei moderadamente o direito de pecar por falta de cooperação."
Em 12 de abril de 1999

"A aliança Lula e Brizola é o casamento do analfabetismo com o obsoletismo."
Em 15 de maio de 1998

"Para as esquerdas brasileiras, o socialismo não fracassou; é apenas um sucesso mal explicado."
Em 1º de junho de 1996

Fabrizia Granatieri - 26.out.99/Folhapress
ORG XMIT: 591201_0.tif O economista Roberto Campos (dir.) é cumprimentado pelo senador José Sarney, durante a cerimônia de sua posse na Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro (RJ). (Rio de Janeiro, RJ, 26.10.1999. Foto de Fabrizia Granatieri/Folhapress)
Roberto Campos (dir.) é cumprimentado por José Sarney na posse na Academia Brasileira de Letras


LIVROS DE ROBERTO CAMPOS

1953 - "Observações Sobre a Teoria do Desenvolvimento Econômico" (Ed. ESG)
1954 - "Planejamento do Desenvolvimento Econômico dos Países Subdesenvolvidos" (Ed. FGV)
1957 - "Três Falácias do Movimento Brasileiro" (Ed.Saraiva)
1963 - "Economia, Planejamento e Nacionalismo" (Ed.APEC)
1963 - "Ensaio de História Econômica e Sociologia" (Ed. APEC)
1964 - "O Governo, a Moeda e o Tempo" (Ed. APEC)
1965 - "Política Econômica e Mitos Políticos" (Ed. APEC)
1966 - "A Técnica e o Riso" (Ed. APEC)
1967 - "Do Outro Lado da Cerca...Três Discursos e Algumas Elegias" (Ed. APEC)
1967 - "Reflections on Latin American Development" (University of Texas)
1968 - Temas e Sistemas" (Ed. APEC)
1969 - "Ensaios Contra a Maré" (Ed. APEC)
1970 - "Transamazônica", em co-autoria com Fernando Morais (Ed. Brasiliense)
1973 - "O Brasil e o Mundo em Transformação" (Ed. Gráfica Alvorada)
1974 - "A Nova Economia Brasileira", em co-autoria com Mário Henrique Simonsen (Ed. José Olympio)
1975 - "Formas Criativas no Desenvolvimento Brasileiro", em co-autoria com Mário Henrique Simonsen (Ed. APEC)
1976 - "O Mundo que Vejo e Não Desejo" (Ed. José Olympio)
1979 - "Castello Branco : O Caminho para a Presidência" (Ed. José Olympio)
1985 - "Além do Cotidiano" (Ed. Record)
1986 - "Ensaios Imprudentes" (Ed. Record)
1988 - "Guia dos Perplexos" (Ed. Nórdica)
1990 - "O Século Esquisito" (Ed. Topbooks)
1991 - "Reflexões do Crepúsculo" (Ed. Topbooks)
1994 - "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks)
1996 - "Antologia do Bom Senso" (Ed. Topbooks)

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