sexta-feira, 14 de abril de 2017

Em vídeos, Marcelo Odebrecht substituiu desafio por submissão

Nelson de Sá - Folha de São Paulo








Há um ano e meio, o Marcelo Odebrecht que surgiu diante das câmeras, em depoimento, era outro. Firme, por vezes desafiador, questionava as acusações com frases como "Nada ficou provado contra mim". Sobre a prisão, reclamava de seu "efeito sobre a minha imagem".

Nos novos vídeos, quando esses questionamento e preocupações ficaram definitivamente para trás, ele obedece a tudo sem resistir.

Quando instruem que apresente seus dados pessoais "olhando para a câmara", ele se vira, olha e aguarda nova ordem para começar a falar. E depois dá respostas também mecanicamente, sem emoção, às questões que vão sendo levantadas quase burocraticamente.

A cena não indica humilhação, mas submissão, talvez resultado do tempo que já passou encarcerado, com vida regrada ao detalhe.

Reprodução/YouTube
Marcelo Odebrecht depõe à Procuradoria Geral da República.
Marcelo Odebrecht durante depoimento
Quando muito, Marcelo Odebrecht se permite divagar sobre "como funciona a sistemática", a distribuição do dinheiro. 

Racionaliza que jamais gostou de "contrapartida específica" –o varejo– e que "ser um grande doador é sempre melhor" –o atacado.

Talvez fosse diferente o final da trama, é o que parece sugerir, se tivesse seguido o próprio gosto, em relação à sistemática.

Muito diferentes são a empostação que Emílio Odebrecht, seu pai e patriarca do grupo, adota em vídeos de depoimento e a maneira como organiza a compreensão do que vinha sendo revelado.

Não desafia nem se submete, fala com distanciamento, como quem já está afastado do conflito, e com segurança, como quem não pode mais ser transformado em protagonista, papel designado ao filho.

A distribuição de dinheiro surge como algo institucionalizado, para servir a um sistema político com partidos demais. O que porém não exime sua empresa, tratada em plural majestático, porque, afinal: "Nós passamos a olhar isso como normalidade".

Diferentemente do que acontece nos questionamentos ao filho, tratado com frieza factual, o inquiridor do pai se permite racionalizar também, dialogar.

Por exemplo, quando ouve que "tudo isso é feito há 30 anos", o procurador toma a iniciativa de argumentar, quase pedindo aprovação:

"Sempre há um momento para começar a resolver. Estamos tentando mudar as coisas como vinham sendo feitas. Vamos ver se a gente consegue melhorar o nosso país."

Muito distante de ambos, pai e filho, é a presença de Márcio Faria da Silva em seus vídeos, os mais bombásticos e teatrais, até onde foi possível assistir.

Ele não era proprietário, mas um funcionário –executivo– da Odebrecht, e seu tom é de quem atuava na linha de frente, no balcão.

Usa expressões como "um belo dia", para iniciar o relato de sua reunião em 2010 com Michel Temer, e chama o procurador seguidamente de doutor.

Esparrama-se na cadeira, costurando detalhes como o fato de que o motorista precisou recorrer ao aplicativo Waze para achar o caminho e em qual posição cada um se sentou à mesa.

Seus gestos são largos, ele se estende sobre um lado e outro da mesa, parece estar numa conversa informal, reapresentando uma cena engraçada.

Tanto quanto o que relata, é sua postura que desrespeita quem é hoje o presidente da República.

"Apresentações, muitas amenidades, falamos da política, eu até perguntei: 'Mas, doutor, como é que é ser vice da Dilma? Dizem que é uma pessoa complicada'. Aí o pessoal riu, aquela coisa toda, e para minha surpresa, até com intimidade, falou: 'Não, qualquer coisa, estes rapazes resolvem, ela vem e fica aqui."

Os rapazes Eduardo Cunha e Henrique Eduardo Alves fariam com que ela se sentasse em seu colo, descreveu o delator, reproduzindo o gesto de apontar o próprio regaço.

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