sexta-feira, 24 de abril de 2015

Balanço da Petrobras traz alívio ao mercado, mas dívida preocupa analistas


O Estado de São Paulo

Um dia após a divulgação dos resultados de 2014, ações da estatal operaram com fortes oscilações, com as ordinárias fechando em alta e as preferenciais em queda; maior dúvida do mercado é o que a empresa fará para reduzir o alto endividamento


Livre do peso do longo atraso na divulgação de dados financeiros auditados ao mercado, a Petrobras voltou a enfrentar as desconfianças de sempre. Durante a teleconferência realizada nesta quinta-feira pelos executivos da empresa para explicar os dados do balanço, os analistas financeiros concentraram suas perguntas sobre o endividamento da estatal e sua capacidade de aumentar a produção para fazer caixa.

Na Bolsa, a reação foi confusa, com forte oscilação das cotações. As ações ON (ordinárias, com direito a voto nas principais decisões da empresa) subiram 5,63%, para R$ 14,06, refletindo o alívio com a divulgação do balanço. Já os papéis PN (preferenciais, sem direto a voto) caíram 1,52%, a R$ 12,92, afetados pelo anúncio de que, por causa do prejuízo, a estatal não pagará dividendos, a parte do lucro que cabe aos acionistas - os papéis PN têm preferência na hora de receber os pagamentos.
“A divulgação do balanço da Petrobras sem dúvida alivia a situação, porque elimina o risco de uma aceleração no pagamento das dívidas da companhia”, afirmou Caio Toledo, analista da XP Investimentos.
Em linhas gerais, o prejuízo de R$ 21,587 bilhões em 2014, o primeiro resultado negativo anual desde 1991, causado por perdas de R$ 6,194 bilhões com gastos relacionados à corrupção e de outros R$ 44,636 bilhões com a revisão no valor dos ativos, não assustou investidores. A publicação do balanço, após cinco meses de adiamentos, e uma definição sobre o quanto registrar de perdas foram considerados “um alívio”.

Presidente da Petrobrás, Aldemir Bendine diz que novo plano de negócios deve ser anunciado em 30 dias
Presidente da Petrobrás, Aldemir Bendine diz que novo plano de negócios deve ser anunciado em 30 dias

A agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) disse que a nota da Petrobras não é afetada pelo balanço. Apesar de reconhecer que as baixas contábeis não afetam as métricas da companhia, a agência disse que a perspectiva negativa para a nota reflete incertezas sobre a capacidade de aumentar a produção.
Os analistas do banco Credit Suisse André Sobreira e Vinicius Canheu escreveram em relatório a clientes que os valores retirados como perdas do balanço “parecem grandes o suficiente para ter credibilidade”, mas investimentos estimados de US$ 29 bilhões, neste ano, e de US$ 25 bilhões, em 2016, não foram reduzidos na medida necessária diante de uma previsão de geração de caixa de US$ 23 bilhões neste ano.
Dívidas. Com dificuldade de gerar caixa e diante de um ambicioso plano de investimentos no pré-sal, a Petrobras se endividou demais. A dívida líquida soma R$ 282 bilhões e subiu 27% em 2014 em comparação a 2013. Ela representa 48% do patrimônio da companhia, muito acima do limite de 35% estabelecido pela própria empresa.
Em teleconferência, diretoria da Petrobras reforçou a estratégia de analisar a venda de ativos exploratórios, com o objetivo de compartilhar riscos e reduzir os investimentos
Por isso, investidores esperam que a Petrobras venda ativos e reduza investimentos. “Esperamos que os investidores foquem nos impactos da revisão do plano de negócios e na geração de caixa dos próximos dois anos”, escreveu o analista do Citibank Pedro Medeiros, em relatório distribuído nesta quinta-feira.
Na teleconferência, a diretoria da Petrobras reforçou a estratégia de analisar a venda de ativos exploratórios, com o objetivo de compartilhar riscos e reduzir os investimentos. Segundo a diretora de Exploração e Produção, Solange Guedes, a companhia olha “com atenção” as oportunidades. “Olhamos com atenção ativos onde nós podemos compartilhar riscos”, disse Solange.
Ao comentar os resultados na quarta-feira, o presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, prometeu para daqui a aproximadamente 30 dias a apresentação do novo plano de negócios para os próximos cinco anos.
O plano de negócios 2014-2018, apresentado em fevereiro de 2014, prevê investimentos de US$ 220,6 bilhões. A expectativa de analistas é que a nova versão do plano venha menor. / VINICIUS NEDER, ANTONIO PITA, FERNANDA NUNES, MARIANA DURÃO, ÁLVARO CAMPOS E KARIN SATO