terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Para fazer caixa, Petrobras põe à venda duas áreas em produção


Comparsa do chefe da quadrilha, Bumlai nega ter usado amizade com Lula para interferir na Petrobras

GRACILIANO ROCHA
FLÁVIO FERREIRA

Folha de São Paulo


Preso desde a última terça (24), o pecuarista José Carlos Bumlai disse à Polícia Federal que jamais discutiu a Operação Lava Jato ou negócios na Petrobras com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Amigo de Lula desde a eleição de 2002, quando foi apresentado ao então candidato à Presidência pelo governador Zeca do PT (MS), Bumlai minimizou a alegada proximidade com o petista.

De acordo com Bumlai, Lula nunca mais visitou nenhuma de suas fazendas ou seus apartamentos no Rio desde a campanha que o levou, pela primeira vez, ao Planalto.

Em todo o ano passado, os dois estiveram juntos três vezes, mas em nenhuma delas discutiram aspectos da Operação Lava Jato, segundo o pecuarista.

"Que o declarante auxiliou a Presidência da República a partir de estudos e projetos relacionados à reforma agrária e que estes projetos naturalmente o aproximaram de Luiz Inácio Lula da Silva", disse, conforme o registro de seu depoimento à Polícia Federal, em Curitiba, nesta segunda (30).

Tendo participado da fundação do PFL e do PSDB em Mato Grosso do Sul, Bumlai disse que tinha interesse em manter um bom relacionamento com o PT, que assumiria o governo, para representar o setor agropecuário.

Bumlai disse que jamais esteve na sede da Petrobras ou que tenha conhecido o então presidente da empresa José Sérgio Gabrielli ou o ex-diretor da área internacional Nestor Cerveró, preso desde janeiro.

O delator Fernando Soares, o Baiano, havia afirmado que pediu a Bumlai para interferir junto a Lula pela manutenção de Cerveró no cargo. Além de alegar não se lembrar de tal pedido de Baiano, o pecuarista frisou que Cerveró foi substituído.

Baiano, um lobista que admitiu ter movimentado milhões em propinas a políticos e dirigentes da Petrobras, já havia afirmado que entregara R$ 2 milhões a Bumlai como "comissão" para beneficiar a OSX, empresa de Eike Batista, com contratos de navios-sonda com a Sete Brasil, uma empresa criada com auxílio do governo e do BNDES para operacionalizar a exploração do petróleo da camada pré-sal.

Bumlai admitiu ter recebido o dinheiro, mas negou que se tratasse de propina. 

Segundo sua versão, tratava-se de um empréstimo para saldar pagamentos de funcionários de suas empresas, que estavam em atraso.

FAZENDA

Bumlai foi preso após surgirem evidências que um empréstimo que tomara de R$ 12 milhões junto ao banco Schahin teria sido, na verdade, uma operação fraudulenta para repassar recursos ao PT.

A dívida dele com o banco foi quitada um dia antes da Petrobras assinar um contrato de US$ 1,6 bilhão com o braço de óleo e gás dos Schahin para operar um navio-sonda. Salim Schahin, ex-diretor do grupo, diz que Bumlai nunca pagou o débito e que os recursos se destinavam ao PT - o que o pecuarista nega.

No depoimento, ele afirmou que tomara o empréstimo porque precisava de dinheiro rapidamente para dar os R$ 12 milhões como sinal na compra de uma fazenda junto aos Bertin em 2004, à época um dos principais 'players' do setor frigorífico no país. Segundo Bumlai, o negócio, envolvendo a fazenda Eldorado, em Dourados (MS), não se concretizou e o dinheiro foi devolvido pelos Bertin.

Crivado de suspeitas como a falta de garantias e o não pagamento de juros, o empréstimo foi um dos principais temas do depoimento desta segunda. Bumlai disse que ofereceu como garantia ao banco um aval de seu filho, Fernando, empresário do ramo agropecuário.

Ele afirmou não se lembrar de ter participado de qualquer reunião no banco Schahin, junto com o então tesoureiro do PT Delúbio Soares e refutou que tenha repassado qualquer valor para o PT. Bumlai disse que hipotecou um imóvel em garantia ao banco.

O pecuarista disse que preferiu tomar o empréstimo com os Schahin, e não em um dos bancos que era correntista, por uma questão de agilidade já que conhecia Sandro Tordin, um dos diretores da instituição.

Ele sustenta ter quitado a dívida com o banco com a venda de embriões bovinos. Confrontado pelos procuradores com a informação de que os supostos compradores dos embriões negaram ter recebido os tais embriões, Bumlai voltou a afirmar que os contratos de entregas dos embriões não foram simulados e que uma das fazendas compradoras, inclusive, teria se queixado da falta de dois embriões após a entrega.

Acordo da Andrade deve prejudicar concorrente Odebrecht

Mário Cesar Carvalho - Folha de São Paulo


A Odebrecht será a empresa mais prejudicada pela decisão da Andrade Gutierrez de fazer acordos com os procuradores da Operação Lava Jato para obter uma punição menor para a empresa e seus executivos, de acordo com investigadores que atuam nas negociações.

A razão é que elas são parceiras em algumas das maiores obras investigadas na Lava Jato e fora da operação, como o Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro), a usinas Angra 3 e Belo Monte e a reforma do estádio do Maracanã. Em todas elas há indícios ou confissão de pagamento de suborno.

Folha revelou na última sexta (27) que a Andrade e os procuradores haviam chegado a um acordo, segundo o qual a empresa aceitou pagar uma multa de R$ 1 bilhão, a maior da Lava Jato, e revelar crimes em obras da Petrobras e em outros setores públicos.

Foram acertados dois acordos, um de leniência, no qual a empresa contará os crimes dos quais participou em troca de uma punição menor, e outro de delação premiada.

A delação será feita por três executivos da Andrade que estão presos (Otávio Azevedo, Elton Negrão e Flávio Barra), também em troca de penas menores.

A Odebrecht é a maior empreiteira do país, e a Andrade Gutierrez, a segunda.

A Andrade vai revelar detalhes sobre como ela dividiu obras com a Odebrecht, o que pode caracterizar o crime de cartel, e como o pagamento de propina era repartido pelas empreiteiras em grandes contratos.

No caso do Comperj, Andrade e Odebrecht foram contratadas junto com a Queiroz Galvão para fazer a terraplenagem, uma obra cujo valor final chegou a R$ 1,2 bilhão.

O TCU (Tribunal de Contas da União) determinou em maio deste ano, em decisão unânime, que houve um superfaturamento de R$ 76,5 milhões. A corte mandou a Petrobras cobrar esse montante do consórcio, executando as garantias oferecidas pelas empreiteiras.

Na reforma do Maracanã para a Copa de 2014, foi o TCE (Tribunal de Contas do Estado) do Rio que apurou sobrepreço de R$ 76 milhões na obra de Andrade e Odebrecht.

"Desalento e esperança", editorial da Folha de São Paulo

A pesquisa Datafolha publicada no final de semana mostrou, de maneira inequívoca, o quanto os brasileiros consideram abominável o atual quadro político do país.

Já não se trata apenas de constatar a péssima avaliação da presidente Dilma Rousseff (PT). Tendo seu governo reprovado por 67% dos entrevistados –uma oscilação positiva em relação aos 71% de agosto–, a petista registra índice comparável somente aos 68% de Fernando Collor (então no PRN) às vésperas do impeachment.

A rejeição ao governo federal é tamanha que não se contém na figura de Dilma; transborda para um ex-presidente Lula (PT) incapaz de refrear a contínua dilapidação de seu patrimônio eleitoral.

Não há sinais da taxa recorde de aprovação (83%) com que Lula encerrou seu segundo mandato. Nas simulações de disputa presidencial, o petista luta pelo segundo lugar na preferência dos eleitores; em três hipóteses de segundo turno, se a votação fosse hoje, sofreria derrotas incontestáveis de Aécio Neves (PSDB), Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede).

Vão além das fileiras petistas, entretanto, as evidências de degradação política. O próprio Congresso vê-se tragado pela crise que ajudou a engendrar. Chega a 53% a fatia dos que julgam ruim ou péssimo o trabalho dos parlamentares, pior desempenho desde 1993.

Há, ademais, o caso de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), adversário declarado do governo Dilma. Acusado de corrupção, o presidente da Câmara deveria perder o mandato na opinião de 81% dos entrevistados.

Uma deterioração dessa magnitude dificilmente seria produzida por um único fator. A depressão na economia decerto constitui parte da explicação. Não explica tudo, porém; o desemprego não voltou ao posto de principal problema do país, como acontecia antes de 2007 –quando foi superado pela violência e depois pela saúde.

Pela primeira vez, essa lista é encabeçada de forma isolada pela corrupção, maior objeto de preocupação para 34% dos entrevistados pelo Datafolha. A saúde aparece em segundo lugar, com 16%.

Nunca é possível dizer com certeza se a corrupção aumentou ou diminuiu; quando bem-sucedidas, as quadrilhas que assaltam os cofres públicos passam despercebidas.

Pode-se afirmar, no entanto, que nunca se conheceram tantos e tamanhos esquemas de pilhagem como agora, quando as operações Lava Jato e Zelotes revelam a desfaçatez com que agiam os corruptos.

A população nitidamente se cansou dessa indecência. Talvez, num sinal de amadurecimento democrático, ganhe corpo a percepção de que o dinheiro desviado saiu, afinal, do bolso do contribuinte.

Seja como for, em meio ao desalento pode-se vislumbrar uma esperança. Como diz Sergio Moro, magistrado encarregado da Lava Jato, "o que o juiz pode fazer é muito limitado sem o apoio da opinião pública". O Datafolha atesta que a Justiça jamais teve tanto apoio.

Cunha ameaça impeachment, e petistas discutem salvá-lo