A capivara de Lulinha é mais perigosa que um dragão
Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", Fábio Luís Lula da Silva, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva | Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução/Agência Brasil
L ulinha vai para Portugal com o Careca do INSS, a dupla volta pronta para vender ao governo uma imensidão de canabidiol e Lula nada vê. O filhão voa para a Espanha, instala-se num bairro de gente riquíssima e o pai de nada sabe. O Ronaldinho da Informática embolsa gordas mesadas doadas por vigaristas e agenda encontros entre seus patrocinadores e o chefe de gabinete do presidente, sempre assaltado por surtos de miopia conveniente. A trambiqueira Roberta Luchsinger informa que passou a identificar-se com o prenome mágico — Fábio — para entrar sem bater no esconderijo do Marcola do Lula. O dono do Planalto jura que tudo ignora. Decididamente, Lula é um São Jorge de bordel.
Explico-me. Na cidade onde nasci, um quadro de São Jorge duelando com o dragão era o único enfeite da Casa da Diná, a mais apreciada da zona do meretrício de Taquaritinga. Toda cidade paulista com mais de 10 mil habitantes tinha uma um punhado de três ou quatro habitações erguidas naquele território impreciso onde a área urbana acabava sem que tivesse começado o mundo rural. O elenco de moradoras sofria oscilações, mudavam o mobiliário, o tamanho da sala de espera, a metragem e a quantidade dos quartos. Nada disso importava muito. O que não podia faltar de jeito nenhum eram uma cama de casal em cada quarto e o mesmíssimo quadro de São Jorge matando o dragão.
Havia detalhes belíssimos. O capacete do herói rima com as vestes multicoloridas do santo guerreiro que, enquanto luta, domina o corcel com as patas empinadas. A extremidade da lança, empunhada pela mão direita, já está parcialmente enterrada no lombo do dragão. A esquerda segura as rédeas e, simultaneamente, envolve com os dedos a haste da lâmina que perfura a couraça da fera.
O espetáculo da coragem temerária contrasta com a expressão beatífica do herói. Só mesmo um São Jorge de bordel conseguiria arrostar tais perigos com tamanha placidez. Concentrado no embate perigosíssimo, o exterminador de dragões nunca prestava atenção ao que acontecia fora do retrato. Nos quartos, gritos, gemidos e uivos avisavam que a farra corria solta. Na sala, homens e mulheres negociavam o preço do prazer. A zona era uma zona, mas São Jorge parecia nada ver, nada ouvir e nada estranhar.
Demorei a compreender que o santo estava lá não para garantir a moral e os bons costumes, muito menos para transformar zona em convento. Estava lá para matar um dragão, e quem peleja com um bicho desses não tem tempo a perder com batalhas de alcova ou guerras extraconjugais. E então entendi por que era chamado de “São Jorge de bordel” todo homem da cidade que mantinha a cara de paisagem enquanto prosseguia o cortejo de bandalheiras domésticas. O filho que abandonara os estudos e continuava desempregado voltava da rua cada vez com mais dinheiro.
A filha apaixonada pelo cafajeste do bairro dizia que ficara conversando na casa de uma amiga ao chegar às 6 da manhã. A mulher vivia com os cotovelos na janela sorrindo para desconhecidos. Netos trocavam sopapos na divisão do produto do roubo do cofrinho da avó. E a tudo o chefe da família seguia indiferente. Concentrado na luta para pagar as contas da casa, não tinha tempo para outras incumbências. Como um São Jorge de bordel.
Como um São Jorge de bordel age Luiz Inácio Lula da Silva desde que deixou o emprego de torneiro-mecânico para viver de discurseira. O exlíder sindicalista que começava a carreira política morou oito anos — sem pagar um só centavo — num apartamento pertencente ao advogado Roberto Teixeira. Concentrado na fundação do PT, nem perguntou quanto custava o aluguel nem se devia pagar a taxa do condomínio.
Concentrado no ofício de candidato à Presidência da República, jamais quis saber de onde vinha a dinheirama derramada nas campanhas. Concentrado no combate à fome, o ex-operário nascido em Pernambuco fantasiou-se de Pai dos Pobres para desfrutar da vida mansa de Mãe dos Ricos.
Só depois da entrada em cena da Lava Jato ficou claro que Lula sempre soube de tudo o que ocorria na zona do PT (e na própria casa). Fingiu ignorar a catarata de bandalheiras que incluíram, entre outros assombros, o Mensalão e o assalto à Petrobras porque dela foi, sucessivamente, beneficiário, sócio majoritário e mentor antes de assumir a chefia do maior esquema corrupto da história do Brasil. Fez de conta que o sítio em Atibaia era coisa de amigo dele para passar 111 fins de semana descansando em sua casa no campo. Continuou a negar qualquer interesse pelo triplex do Guarujá mesmo depois de flagrado visitando sua futura casa na praia.
Lula já se comparou a Tiradentes, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Nelson Mandela e Jesus Cristo. A devassa das catacumbas do Petrolão provou que é apenas uma versão degenerada do São Jorge de bordel. Numa zona de antigamente, o santo interromperia o duelo com o dragão para descer do quadro e botar ordem na zona do Planalto. Num Brasil imbecilizado pela idiotia endêmica, o São Jorge de araque foi libertado pelo Supremo da merecidíssima cadeia, conseguiu um terceiro mandato e agora reivindica outros quatro anos de vadiagem muito bem remunerada.
Concretizar tal sonho está ficando tão complicado quanto entender a dança que Janja está dançando. Além da exaustão de milhões
de brasileiros, o chefão do PT enfrenta um bicho mais perigoso que
dragão soltando fogo pelas ventas: a capivara de Lulinha.
Augusto Nunes - Revista Oeste