No Brasil que precisa salvar a democracia antes e a economia logo a seguir, só vale o que realmente importa
Ausência de Flávio Bolsonaro e Lula é marcada por púlpitos vazios em debate para as eleições presidenciais de 2026 - Foto: Reuters/Jean Carniel
E leição é história, a corrida eleitoral é o presente. É isso o que pauta os marqueteiros e coordenadores de campanhas majoritárias, como a de presidente da República, e os eleitores: a vida real. Portanto, sem diminuir em nada a iniciativa tradicional do grupo Bandeirantes de realizar grandes debates no primeiro turno, o pragmatismo de resultados, seja do candidato com chances de ganhar ou do eleitor com sede de soluções, é a resposta para o encontro esvaziado do último domingo, 23 de agosto. Sem conseguir trazer para o palco Lula e Flávio Bolsonaro, restou a segunda divisão dos candidatos presidenciais e uma audiência baixa com repercussão menor ainda.
Dois fatos demonstram que esse modelo, embora seja histórico e tenha pautado eleições no passado, está superado. Ao menos no primeiro turno. A primeira realidade inalienável é que Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante), quando somados, não ultrapassam os 10 pontos, segundo o Datafolha da sexta-feira, 21, justamente a última pesquisa que antecedeu o debate da Band.
Outro ponto indiscutível é que nenhum dos que foram seria capaz de fazer algo que pudesse mudar o cenário das intenções do eleitor. Alguém acredita que Caiado, Renan e Augusto Cury poderiam fazer algo no debate que pudesse tirar 13 ou 14 pontos de Lula ou Flávio e avançar para o segundo turno como uma terceira via? Não. Atualmente, são todos coadjuvantes, como Romeu Zema (Novo), outro que desistiu de ir porque sabia que só faria número. A cena de Gilberto Kassab, candidato a vice na chapa do PSD, cochilando durante a fala do próprio Caiado, é o resumo caricato de um debate que resultou pífio.
O modelo de grandes debates sobre temas nacionais e propostas de candidatos funcionou de maneira excepcional nos anos 1980. Nos anos 1990, a fórmula engessada de pergunta, resposta, réplica e tréplica, com tempo determinado em segundos, já suscitava críticas. O modelo até avançou, com mais liberdade de tempo e mobilidade de palco para os candidatos, mas só funciona para dois, no segundo turno. O que se viu semanas atrás, no debate entre os candidatos ao governo de São Paulo, realizado pela própria Bandeirantes, é uma exceção que confirma a regra. Debate bem-sucedido, com repercussão, um debate de primeiro turno com só dois candidatos: Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad.
Ainda assim, o modelo sugere um certo cansaço. Houve críticas pela inconsistência e despreparo de Haddad, o herdeiro de Lula que saiu do Ministério da Fazenda com a alcunha de “Taxad” e incapaz de controlar a sanha gastadora do padrinho e presidente. Fato é que na eleição presidencial, o governo Lula tem contestação forte e justa pelo descalabro fiscal, pela ineficiência administrativa, violência crescente, inflação e diplomacia errática, altamente ideologizada. É terreno fértil para discussões acaloradas. Em São Paulo, não. Tarcísio tem alta aprovação, grande probabilidade de ser reeleito já em 4 de outubro e era, até outro dia, o pré-candidato mais bem avaliado a suceder o próprio Lula. Neste caso, mesmo tendo dado certo, a pergunta que ficou foi se era preciso.
Neste século, até antes de a internet e das redes sociais serem o fenômeno que são, com mais ou menos motivos de contestação, os debates no primeiro turno até reservavam algum apelo. Mas o formato caótico do debate da TV Cultura à prefeitura de São Paulo, em 2024, com candidatos paraquedistas na política, falastrões e a cadeirada de José Luiz Datena em Pablo Marçal, transformou o que deveria ser uma discussão política sobre o futuro da maior cidade do país em um picadeiro de circo mambembe. Além do mais, hoje vivemos outros tempos, de comunicação ampla e quase instantânea com o eleitor. Uma estratégia bem feita numa rede social arregimenta milhões de cabos eleitorais espontâneos e aguerridos na defesa de seu candidato.
Na média, os brasileiros gastam mais de 9 horas por dia na internet, a segunda maior do mundo. Nas redes sociais, 3 horas e 49 minutos, o que nos coloca no top 5 global. A internet no Brasil é o que se chama no interior produtivo do Brasil de terra roxa — o que plantar, floresce. E, mesmo nesse ambiente conturbado das redes, muita coisa boa cresceu. A consciência política, o gosto por escrutinar governantes e, sobretudo, a descentralização da comunicação. Os veículos tradicionais já não são a única fonte, não há mais monopólio da verdade.
O debate presidencial de 1989, talvez o mais relevante de todos, é hoje apenas uma memória. E ali havia situações muito diferentes. Era a primeira eleição direta para presidente. Vivíamos o auge da redemocratização com a Constituição recém-promulgada no ano anterior, em 1988. A TV era um veículo único, que gerava prestígio imediato a quem conseguisse aparecer em seus programas. Os veículos de comunicação gozavam de credibilidade porque haviam se juntado na luta pela volta da democracia, das eleições diretas e tudo o que a nossa sede de participação política ensejava num Brasil que se reencontrava com o debate público livre e um país por fazer dar certo. As dores eram coletivas, como a hiperinflação e o subdesenvolvimento.
E o desejo de liberdade, uma causa inalienável. Com isso em mente, numa época em que os debatedores eram políticos do nível de Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e Leonel Brizola, pegue o túnel do tempo e veja que no Brasil de 2026, os brasileiros precisam lutar para fazer a democracia valer novamente. A realidade é de retrocesso. Hoje, lida-se com o PT de Lula — que se sentia “oprimido” no passado — associado ao Supremo Tribunal Federal (STF). O conluio do consórcio de poder entre ambos transformou a mais alta Corte do país em um aparelho de perseguição política para calar a oposição de direita e conservadora.
A emergência das pessoas e do país é outra, que o debate parece não ser capaz de enfrentar. Uma parte da imprensa, veja só, aplaudiu a censura porque era contra concorrentes ou colegas jornalistas de pensamento diferente. A anistia de 1979 seria hoje negada por essa gente. Teriam de reescrever a história do Brasil.
Afinal, os célebres debates de 1989 só aconteceram porque a anistia assinada pelo governo militar permitiu que políticos perseguidos pudessem concorrer e jornalistas exilados fizessem a cobertura, alguns em atividade até hoje.
No Brasil de 2026, o ex-presidente Jair Bolsonaro está inelegível e preso, condenado em um julgamento de exceção dentro do próprio STF, e parte da imprensa ignora todos os abusos processuais. A anistia lá de trás, garantida e comemorada para sequestradores e assassinos, é negada por essa mesma gente à Debora do Baton, a moça que pintou aquela estátua fria e sem graça em frente ao STF. O voto do ministro Luiz Fux na alegada trama golpista, talvez o mais longo da história, exibe com riqueza de detalhes a sequência de ilegalidades que deveria anular todo o processo.
Pedir que os brasileiros ignorem tudo isso e assistam aos debates de primeiro turno entre presidenciáveis como se nada de grave estivesse acontecendo é querer um pouco demais. Um dos ministros que condenou Bolsonaro se dizia vítima. Mesmo assim, votou por condenar seu algoz. Faz sentido?
Dada a realidade, a rejeição ao modelo dos anos 1980 não é só uma questão temporal ou de forma ultrapassada. É entender que o principal não será discutido. O Brasil de hoje, que trabalha e produz, quer retomar o país e refazer a vida democrática que lhe foi tirada. E, diante de um governo impopular e consorciado com um Supremo abusivo, esse eleitor realmente interessado em política, muito similar àquela audiência dos debates dos anos 1980, sabe que o desafio da oposição é um só: apear Lula do poder.
Lula é hoje o atraso contra o qual se lutava na redemocratização, contra a ditadura que não se quer mais diante de sua parceria com a ala arbitrária e abusiva do Supremo Tribunal Federal. O voto de oposição a Lula é contra a indignidade do voto de cabresto, que quer doutrinar milhões de brasileiros enganados por políticas assistencialistas e, por fim, contra a violência e a inflação, que corroem o presente e postergam o futuro do país de todos que, nos dois mandatos que antecederam o atual (Temer e Bolsonaro), souberam que poderia dar certo justamente por se opor às políticas destrutivas do PT e de Lula.
Não por acaso, Flávio Bolsonaro, do PL, o candidato de oposição que aparece apenas um ponto atrás nas pesquisas de segundo turno, disse que não foi ao debate porque “quer debater com quem está destruindo o Brasil e piorando a vida dos brasileiros. Debater com quem acabou com o poder de compra da população, com quem está endividando as famílias, sufocando as empresas, empresários e microempreendedores”. Antes, não ir o um debate de primeiro turno parecia o fim do mundo. Hoje, não mais! Porque o debate que importa ao Brasil, cuja economia e democracia estão sob ataque no governo Lula, é um só: que país queremos a partir de outubro e de que lado cada brasileiro pretende ficar.
Adalberto Piotto - Revista Oeste