Governo, cúpula do STF e Polícia Federal se movimentam para conter o ministro que comanda as investigações sobre o roubo do INSS e a fraude bilionária do Banco Master
Capa da Revista Oeste
Durante uma cerimônia no Quartel-General do Exército, em Brasília, nesta terça-feira, 25, o presidente Lula se esquivou de jornalistas que o interpelaram sobre o avanço das investigações da Polícia Federal (PF) a Lulinha, citado no inquérito que apura a roubalheira aos aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O caso já vem preocupando o petista há mais de um ano. Por volta das 20h de 25 de agosto de 2025, dois ministros de Estado receberam por WhatsApp a informação segundo a qual André Mendonça acabara de ser sorteado relator, no Supremo Tribunal Federal (STF), das investigações do escândalo do INSS. Depois de lerem a mensagem, ambos se entreolharam e, na sequência, levaram a notícia a Lula. O presidente ficou em silêncio.
Àquela altura, o petista mal digerira outra derrota: a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS começara os trabalhos havia cinco dias. Por meses, a esquerda tentou impedir a instalação da comissão. Para piorar, a presidência e a relatoria do colegiado ficaram com a oposição. As notícias já aproximavam o escândalo da família de Lula, a começar por Frei Chico, irmão mais velho de Lula e vicepresidente de um sindicato investigado por descontos indevidos em aposentadorias. O presidente tampouco tinha superado o desgaste causado pela queda de Carlos Lupi, então ministro da Previdência. Dirigente nacional do PDT, Lupi deixara o governo em maio, depois de o escândalo alcançar sua pasta e provocar o afastamento do presidente do INSS, Alessandro Stefanutto. Os dois eram alvo de uma operação da PF, que suspeitava do envolvimento deles com os desvios no INSS.
Ministro André Mendonça |Foto: STF
'Frei Chico', irmão de Lula, é vice-presidente do Sindnapi, que recebeu R$ 77,1 milhões de aposentados | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Ofensiva suprema
A chegada do caso às mãos de Mendonça também incomodou o outro lado da Praça dos Três Poderes, principalmente a ala liderada pelo decano do STF, Gilmar Mendes, que reúne Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Flávio Dino e Cristiano Zanin. Toffoli havia conduzido o caso do INSS, mas deixou a relatoria após sua atuação virar alvo de questionamentos. O temor era que Mendonça acumulasse poder ao comandar uma apuração que alcançasse governo, políticos e empresários. Em um telefonema para Mendes na manhã seguinte, Lula manifestou “profunda insatisfação” com o rumo que as coisas tomaram.
O primeiro avanço contra Mendonça ocorreu na frente parlamentar. Informações reunidas pela CPMI do INSS começavam a aproximar Lulinha do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado pela PF como operador do esquema de desvios na autarquia. O elo entre os dois seria a lobista Roberta Luchsinger, amiga do filho do presidente. Documentos registraram a relação de proximidade que se estabeleceu: Lulinha e Careca viajaram juntos de primeira classe de Guarulhos para Lisboa, em novembro de 2024. Um requerimento da comissão ainda mencionou que Roberta pagou as passagens e uma mesada de aproximadamente R$ 300 mil para o filho de Lula.
Diante dos primeiros indícios de corrupção, Mendonça autorizou medidas destinadas a aprofundar as apurações, entre elas, quebras de sigilo. Meses depois, quando permitiu a prorrogação da CPMI, a ala de Gilmar percebeu que era hora de reagir. O decano pressionou o presidente do STF, Edson Fachin, e ameaçou travar o andamento do Código de Ética do tribunal caso ele não convencesse Mendonça a submeter a liminar ao plenário. Isolado, Fachin cedeu e Mendonça aceitou por acreditar ter maioria. Antes do julgamento, contudo, Gilmar convenceu os colegas a mudar de posição. Em 26 de março de 2026, apenas Fux acompanhou Mendonça. Os ministros Nunes Marques, Fachin, Cristiano Zanin e Cármen Lúcia teriam virado a casaca. Por 8 votos a 2, o STF derrubou a prorrogação e encerrou a CPMI. A ala do decano eliminava, assim, uma de suas principais preocupações no Parlamento.
O cerco, então, passou a acontecer em outras áreas. Embora a própria PF tivesse solicitado a quebra dos sigilos de Lulinha, a corporação levou mais de sete meses para entregar o material ao gabinete de Mendonça. O relator cobrou os dados ao menos três vezes. Diligências permaneciam inconclusas, procedimentos deixavam de ser comunicados e a equipe responsável pelo caso sofria alterações sem o conhecimento do ministro. A resistência pôs Mendonça em confronto com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, aliado de Lula e próximo da ala de Mendes. No fim de junho, Mendonça exigiu a entrega dos relatórios de apurações que se arrastavam havia meses. Somente depois das cobranças do ministro e da pressão midiática em cima do caso, as investigações prosseguiram.
Em um dos capítulos mais recentes do confronto, Mendonça determinou que os dados brutos obtidos nas apurações, incluindo os resultados das quebras de sigilo fiscal e telemático, permanecessem sob a custódia de seu gabinete. Também proibiu os delegados de compartilhar as informações com seus superiores hierárquicos e submeteu ao relator eventuais mudanças nas equipes. As ordens buscavam impedir novas alterações sem seu conhecimento e preservar provas que a PF demorara meses para entregar.
No fim de julho, surgiu uma nova tentativa de afastar Mendonça. A PF encaminhou à presidência do STF outra frente de investigação a respeito de Lulinha, sem indicar claramente que o processo deveria ser remetido ao relator do caso do INSS. A omissão abriu caminho para um novo sorteio e para a possibilidade de entregar a apuração a outro ministro.
A manobra fracassou: o próprio sistema do STF sorteou Mendonça novamente. No dia seguinte ao recebimento do processo, ele abriu o inquérito contra Lulinha. Impedida de afastar o relator, a cúpula da PF tentou limitar seus poderes. Rodrigues procurou a Advocacia-Geral da União (AGU) e pediu a apresentação de um recurso para derrubar as determinações do ministro. A AGU, contudo, recusou-se a interferir.
O diretor-geral recorreu, então, à Procuradoria-Geral da República. A PGR solicitou a Mendonça que enviasse a investigação a respeito de Lulinha à primeira instância da Justiça. O juiz do STF, no entanto, deve rejeitar essa solicitação e manter o processo na Corte.
A sequência expôs o tratamento diferente dispensado pela PF e pela PGR
aos ministros do Supremo. Diante de Mendonça, os dois órgãos
contestaram decisões, buscaram limitar os poderes do relator e
defenderam a retirada de parte das investigações de suas mãos. A mesma
resistência não apareceu em inquéritos conduzidos por Moraes, como o
das Fake News, apesar do controle direto exercido pelo ministro acerca
de diligências e equipes policiais.
Segunda trincheira
Quase seis meses após assumir as investigações do INSS, Mendonça abriu uma segunda trincheira no STF. Em 12 de fevereiro de 2026, foi sorteado relator do caso Master, em razão de Dias Toffoli deixar o comando da investigação sob suspeitas de proximidade com o empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do antigo banco.
Naquele momento, Rodrigues entregou ao presidente do Supremo, Edson Fachin, um relatório de cerca de 200 páginas que descrevia em minúcias os negócios e as relações entre Toffoli e Vorcaro. O STF arquivou o documento. O desgaste, contudo, tornou insustentável a permanência de Toffoli à frente da investigação. O ministro deixou a relatoria, mas continuou no tribunal sem responder aos questionamentos reunidos pela própria PF.
O episódio também revelou outro contraste na atuação da corporação. As relações de Moraes com Vorcaro haviam sido divulgadas pela imprensa, mas Rodrigues não produziu contra ele um relatório semelhante. Nos últimos meses, vieram a público sucessivos relatos de vazamento de informações sigilosas do STF. As únicas investigações que produziram consequências, porém, foram aquelas relacionadas a Moraes.
Sob o comando de Mendonça, a Operação Compliance Zero avançou sobre a fraude bilionária do Master, as operações com o Banco de Brasília e a participação de agentes públicos. O ministro autorizou prisões e outras medidas cautelares contra Vorcaro, familiares do banqueiro e personagens apontados como integrantes do esquema. A reação da ala do decano não tardou. No INSS, o grupo conseguira encerrar a CPMI.
No Master, adotou uma estratégia mais sofisticada: registrar desde já argumentos jurídicos que poderão ser usados pelas defesas para anular a investigação no futuro. A ofensiva tornou-se pública em 16 de junho, durante uma sessão da 2ª Turma. Embora o colegiado tenha mantido a prisão do pai e de um primo de Vorcaro, Mendes comparou repetidamente a Compliance Zero à Lava Jato e afirmou enxergar “desconcertantes semelhanças” entre as duas operações.
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, preso em nova operação da Polícia Federal - Foto: Reprodução/Redes sociais
Mendonça reagiu. “Não estamos aqui a julgar a Lava Jato”, afirmou. “Estamos aqui a julgar a maior fraude financeira da história do nosso país.” O relator também demarcou a diferença entre sua conduta e os métodos criticados em outras operações: “Não prendo para obter delação”. Mendes não precisava derrubar imediatamente as decisões do relator. Em julgamentos sucessivos, acompanhou parte das medidas, mas registrou ressalvas sobre prisões preventivas, vazamentos, diligências e fundamentos jurídicos. Cada crítica acrescentava um argumento ao arsenal que as defesas poderão usar em habeas corpus, recursos e pedidos para invalidar provas. Investigadores que acompanham o caso enxergaram nos votos do decano um roteiro de futuras nulidades.
O método lembrava o percurso que levou ao desmonte da Lava Jato: primeiro, questionam-se procedimentos específicos; depois, as críticas convertem-se em teses gerais; por fim, essas teses são usadas para invalidar provas e derrubar processos inteiros. Um ex-ministro do STF confirmou reservadamente o risco. Na avaliação dele, as manifestações de Mendes deixaram de representar divergências pontuais e passaram a oferecer fundamentos para futuras contestações das defesas. Ciente da armadilha, Mendonça procura fechar cada uma dessas saídas.
O ministro trata acordos de colaboração com cautela, evita que a investigação dependa exclusivamente da palavra de delatores e exige da PF a delimitação das diligências. Cada medida cautelar deve estar vinculada a fatos determinados. O rigor busca afastar acusações de investigação genérica e impedir que falhas processuais sejam usadas para salvar os responsáveis pela fraude. Mendonça também vigia os vazamentos de informações sigilosas. Para o relator, não basta descobrir como o esquema funcionou: é necessário produzir provas capazes de sobreviver aos recursos que certamente chegarão ao Supremo.
Na 2ª Turma, Fux tornou-se o principal aliado dessa resistência e passou a divergir das posições defendidas por Mendes. Com Toffoli impedido, Nunes Marques completa o muro de contenção, embora menos previsível — como mostrou ao mudar de posição no julgamento que acabou com a CPMI.
Esse muro, contudo, protege Mendonça apenas nos embates imediatos. A ofensiva da ala do decano tem alcance mais longo: cercar a investigação de teses de nulidade que possam chegar ao plenário e, no futuro, invalidar diligências, provas e condenações. Mendonça resiste para evitar que a fraude bilionária do Master tenha o mesmo destino da Lava Jato. Resistência A tentativa de romper o muro de proteção erguido por Mendonça não ficou restrita aos processos.
Nesta semana, Oeste revelou que Mendes e Dino pressionaram pessoas e instituições próximas ao ministro para isolá-lo dentro e fora do STF. Em uma das investidas, Dino advertiu um empresário do setor de saúde de que Mendonça poderia atuar contra ele e contra o segmento. Em outra frente, Gilmar pressionou um empresário da área de comunicação a romper relações com o relator e a deixar de aproximá-lo de representantes de setores influentes.
O recado era inequívoco: quem permanecesse ao lado de Mendonça também poderia pagar um preço. A disputa ultrapassa os casos do INSS e do Master porque a composição do Supremo mudará profundamente nos próximos anos. As aposentadorias compulsórias de Fux, Cármen, Mendes e Fachin abrirão quatro vagas até 2033. As escolhas dos futuros ministros poderão alterar completamente o equilíbrio entre as alas do tribunal e definir se Mendonça continuará isolado ou ganhará aliados. Diante do cerco, o ministro tenta resistir.
No INSS, luta para impedir que atrasos, omissões e manobras enterrem as investigações; no Master, protege as provas das nulidades preparadas para o futuro. Se recuar, a derrota não será apenas sua. Será o triunfo daqueles que apostam no isolamento, no desgaste e nas chicanas para escapar da Justiça.
Cristyan Costa - Revista Oeste