Uma lobista imparável. Um governo corrupto. Um telefone que sopra ventos de 250 quilômetros por hora no coração do poder
E la surgiu na ribalta brasileira em 2017. Lula havia sido condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá (SP). O ex-metalúrgico que enriquecera ao longo de dois mandatos como presidente da República enfrentava um bloqueio judicial de R$ 10 milhões em seus bens e disponibilidades financeiras. Foi naquele momento que a grande imprensa apresentou, aos brasileiros, o admirável desprendimento de uma bilionária que oferecia a Lula uma doação de R$ 500 mil (R$ 800 mil, a valores de hoje). Nome da benfeitora: Roberta Luchsinger.
\Em tom de fanfarra, a imprensa de Rio e São Paulo se ocupou de iluminar a história por trás daquele gesto de altruísmo. Ali estava, resplandecente, uma neta de banqueiro, descendente e herdeira do financista suíço Peter Paul Arnold Luchsinger, sócio do Banco Credit Suisse. O país embasbacava-se com o perfil de Roberta, que apesar da linhagem e do sobrenome, era brasileiríssima. Um tanto excêntrica, é verdade, mas gente boa. Uma grã-fina de alma nobre e coração sincero estendendo a mão para o ex-retirante que a comovia e inspirava. Tudo lindo. Só que não.
Como revelaria o jornalista Luís Nassif, ainda em agosto de 2017, o noticiário festivo sobre as origens da moça e de sua fortuna se fiava em um colar de falácias. Nem mesmo a tal doação, em dinheiro e em joias, se concretizaria. Aliás, ela não era bem uma socialite, nem nadava em dinheiro.
Mas Roberta Luchsinger caiu nas graças do PT. E, após tentativas fracassadas de se eleger deputada estadual em São Paulo pelo PCdoB, e depois pelo PT, ressurgiu na cena política brasileira com sua verdadeira face, a de uma lobista voraz, operando com a sutileza de uma locomotiva.
É dela o telefone celular que está em poder da Polícia Federal e que conta uma arrepiante história de corrupção iniciada no terceiro mandato de Lula, em 2023. Por mais de sete meses, o conteúdo das revelações foi mantido longe do conhecimento público para não arruinar a campanha de reeleição de Lula, dado o envolvimento acintoso de Fábio, filho mais velho do presidente, com as negociatas articuladas por Roberta dentro do Palácio e dos ministérios da Saúde, da Previdência e do Desenvolvimento Social.
A catimba da cúpula petista da Polícia Federal só não durou mais porque até mesmo a paciência de André Mendonça, ministro zen do STF, tem limite. Relator dos processos relativos ao Banco Master e ao INSS, Mendonça exigiu acesso aos elementos de prova recolhidos pela PF, e de imediato uma torrente de escândalos passou a inundar o cotidiano dos brasileiros.
O mais escabroso, para um governo exercido por um partido sedizente “de esquerda” e “dos Trabalhadores”, é que Roberta e Lulinha aparecem nas mensagens telefônicas como cúmplices do homem que operou o roubo de mais de R$ 6 bilhões de aposentados e pensionistas do INSS.
No balaio de vítimas do “Careca do INSS” e sua gangue de picaretas estão trabalhadores brasileiros apanhados em seu momento mais vulnerável — a velhice, a doença, a pobreza ou tudo isso junto e misturado. Há também portadores de deficiência que foram tungados pelo fraudulento sistema de descontos automáticos montados pela rede de pilantras de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca”, preso na Papuda desde setembro de 2025.
À medida que vêm à tona os luxos inimagináveis desfrutados por uma gangue de picaretas que se sentia em casa dentro do governo, e inclusive na antessala do presidente da República, mais insustentável se torna a legitimidade de Lula para pedir um novo mandato aos brasileiros. Uma mensagem de janeiro de 2024 que a Polícia Federal recuperou no celular de Roberta traz uma informação gravíssima que Lula, pessoalmente, ainda não contestou.
Com a palavra, Roberta: “Fui das poucas pessoas que o Lula chamou e perguntou: escolhe onde vc quer ficar. (…) Eu disse: aonde eu tô. Na minha sociedade com Fábio e Fernando. Tô em cargo nenhum e ando onde quero”. Em tempo: ela se refere a Fernando Bittar, que se apresentou à Justiça como dono do Sítio de Atibaia para tentar, sem sucesso, livrar Lula de mais uma condenação por corrupção e lavagem de dinheiro.
O relato sobre o convite que recebeu para ocupar o cargo que bem quisesse no governo é uma granada que Roberta jogou no colo de Lula. O destinatário da revelação foi o empresário Gustavo Gaspar, o “Gasparzinho”, que nas diligências da PF figura como parceiro de Careca em vários “negócios”, inclusive a tentativa de vender medicamento à base de canabidiol para o SUS.
Seria um blefe de Roberta? Talvez. Mas, se Lula e os petistas puxarem a carta da mitomania para desacreditá-la, estarão incorrendo em altíssimo risco. Em primeiro lugar, a mania de mentir e acreditar nas próprias mentiras está grudada na biografia de Lula, que já foi e voltou incontáveis vezes em temas como aborto ou taxa das blusinhas, além de adotar um zigue-zague estonteante quando confrontado com o que fez ou deixou de fazer, disse ou deixou de dizer.
Em segundo lugar, se fingir que não conhece Roberta e, principalmente, se ousar desmenti-la sobre o convite para integrar o governo, Lula se arrisca a provocar os brios e mexer com os sentimentos de uma aliada que se sente miseravelmente descartada. Segundo Veja publicou, emissários de Roberta já deixaram claro que, se for abandonada, ela não aceitará cair sozinha.
Em uma delação, o primeiro a cair com Roberta é Lulinha, a se levar em conta as mensagens que ela tentou inutilmente apagar do seu celular: “Eles sabem que eu sou o Fábio. Fábio e eu somos uma coisa só. A gente é mesmo irmão“.
Há uma troca de mensagens entre Roberta e Lulinha em que o filho do presidente praticamente se incrimina. Foi em janeiro de 2024. Roberta planejava uma viagem à Europa, em mais um capítulo da série em que espertalhões se esbaldam à custa de brasileiros feitos de otários. Não era só lazer. Ela queria tratar de abertura de contas bancárias na Suíça. Orçamento de ricaço: R$ 100 mil por cabeça.
Lulinha, até ele, achou que aquilo podia ser demais. Beliscou o freio. — Roberta, a gente tá se arriscando. Não precisa… É só esperar uns poucos meses e podemos fazer isso sem medo de nada.
Esfuziante, como sempre, Roberta não deu a mínima atenção e seguiu argumentando em favor da realização da viagem. Dinheiro não era problema.
— Então, meu amor — balbuciou Lulinha, sem firmeza —, eu não tenho dindim nem origem pra isso. Não dá preu gastar esse tanto agora… Qualquer m. não tem explicação nenhuma.
A m. já aconteceu. Pior: está acontecendo. A sequência eletrizante de novidades lembra novelas que marcaram época no tempo em que a TV aberta hipnotizava multidões às 8h da noite. Já se sabe das maquinações comprometedoras que Roberta, Lulinha e “Fefê” (Fernando Bittar) urdiam em um grupo de WhatsApp intitulado “Musaranhos”, nome de um bichinho que parece um rato de focinho alongado, com faro aguçadíssimo e necessidade de caçar e comer o tempo todo para se manter vivo. Roberta, a “musa” do grupo, era um pouco assim, insaciável.
Em mensagem para Gustavo Gaspar, assessor de Weverton Rocha (PDTMA), vice-líder do governo no Senado, ela deixou claro o que esperava de 2024, quando o tráfico de influência do grupo andava a todo vapor: “Eu quero 100 milhões esse ano. Pra mim.” Convicta de estar absolutamente a salvo de qualquer investigação, atreveu-se a ironizar a própria ambição. “Sou modesta.”
Roberta está agarrada a Lulinha, e ele a ela, ambos no centro de um furacão que abala o coração do poder com ventos de 250 quilômetros por hora. A porta do gabinete de Lula já foi arrancada a partir da demissão de “Marcola”, o assessor que operava o telefone presidencial, fazia agendas e abria portas para o lobby de Roberta e Lulinha, mediante recebimento de valores, joias e até obra de arte, cujo destinatário final pode ser ele, ou alguém a quem servisse como intermediário.
\O furacão Roberta mandou tudo para os ares da curiosidade pública: malas de dinheiro, armário com maços de cédulas… Nada ficou no lugar, nesta mixórdia de ilicitudes que compõem o mais estupendo bazar de corrupção palaciana já visto no Brasil.
Diferentemente do que alegam petistas, há negócio fechado, contrato assinado e dinheiro no bolso em pelo menos um caso — a empresa de tecnologia 3Structure, que vendeu serviços para o Ministério do Desenvolvimento Social em valores que, acumulados, ultrapassam R$ 60 milhões. Em síntese, o negócio se consumou graças à atuação da RL Consultoria, iniciais de Roberta Luchsinger. Há, portanto, “materialidade” na traficância dos Musaranhos. “Emite a NF pro Cleber”, teclou Lulinha. “Já fiz”, responde Roberta. “Boaaaaa”, exultou Lulinha.
Cleber Ribas, dono da 3Structure, se diz amigo de Lulinha. Há pelo menos uma viagem que os dois fizeram juntos, com passagens pagas por Cleber.
Tudo está no Supremo Tribunal Federal, hoje uma Corte política aliada de Lula e que passa vergonha no mundo inteiro por ter destruído a Lava Jato, maior operação de combate à corrupção de que se tem notícia. A atuação solitária do ministro André Mendonça, que formalmente é o condutor das investigações sobre Lulinha, Roberta, Careca e cúmplices, não parece capaz de fazer o simples — aplicar a lei.
Enfrenta um titânico consórcio de poder que está determinado a abafar os ventos de 250 quilômetros por hora produzidos pelo furacão Roberta. Portanto, convém levar a sério a predição que ela fez para Lulinha, em mensagem que tentou deletar de seu telefone: “A gente tá em outro nível. Nosso futuro é a Suíça“. A gente, quem? Ou melhor: quem mais, além dela e do interlocutor, Lulinha?
Em 2023, em evento que celebrava a posse de Cristiano Zanin no STF, Roberta postou em sua rede social uma foto em que afetava poder e influência ao lado de Gilmar Mendes e de Alexandre de Moraes. A legenda que ela colocou na foto com dois adversários de André Mendonça na Corte é cheia de significado e de pontos de exclamação:
“Muito bem acompanhada!!!“
Eugênio Esber - Revista Oerste