Jornal americano já publicou propaganda soviética em 1937e 1971, e o comunismo comemorou; agora, resta saber se o Hamas vai comemorar a mais recente reportagem sobre supostos abusos de Israel contra presos palestinos
Muita gente vai torcer o nariz para Netanyahu. Processar um jornal cheira a autoritarismo, a silenciamento, a intolerância à crítica. Por um lado, trata-se de uma reação compreensível. Por outro, talvez ela seja precipitada, porque, a despeito do que se pense do primeiroministro de Israel, o fato é que o New York Times tem antecedentes no hábito de recepcionar propaganda ideológica oriunda de poderes totalitários. E eles são documentados.
O mais antigo desses antecedentes remonta aos anos 1930, quando o correspondebte usou as páginas do Times para encobrir o Holodomor — o genocídio por fome imposto por Stalin à Ucrânia, que matou entre três e sete milhões de pessoas. Enquanto camponeses ucranianos morriam às dezenas de milhares por semana, Duranty escrevia que os relatos de fome eram “grandemente exagerados” e que “não havia fome” na URSS — uma mentira que o regime soviético cultivava com esmero e que o Times estampava com a autoridade de seu nome. O prêmio Pulitzer concedido a Duranty nunca foi formalmente revogado, apesar das campanhas nesse sentido. É uma mancha que o jornal carrega até hoje.
Quatro décadas depois, a história se repetiria — desta vez não com um correspondente cúmplice, mas com uma operação orquestrada desde fora, da URSS, em plena Guerra Fria. A responsável pela operação foi a Novosti, nominalmente a agência russa de notícias, mas que, para todos os efeitos práticos, sempre foi um braço da KGB — com credencial de imprensa, oficiais de inteligência distribuídos pelo corpo editorial, atuação em 110 países e um presidente com status de ministro de Estado. O episódio é relatado pela escritora russa Izabella Tabarovsky, especialista em antissemitismo.
o começo dos anos 1970, o presidente da Novosti era Ivan Udaltsov. Em 27 de janeiro de 1971, ele enviou um memorando ao Comitê Central do Partido Comunista da URSS relatando as conquistas recentes da agência em sua campanha para “combater a propaganda sionista” no exterior. O texto é uma peça notável — não apenas pelo que revela sobre os métodos soviéticos, mas pela desfaçatez com que esses métodos eram documentados internamente. Udaltsov estava orgulhoso do que descrevia.
Entre as realizações que relatava com satisfação ao Comitê Central, uma se destacava: a publicação, no New York Times, do artigo de um colaborador da Novosti chamado Spartak Beglov. Para seu crédito, os editores do jornal nova-iorquino até trocaram o título original — “Os Führers e os Camisas-Pardas do Neorracismo”, que explorava a suposta “afinidade espiritual entre o sionismo e o fascismo” — pelo mais neutro “Uma Visão Soviética sobre os Judeus”. E flanquearam o texto com colunas de dois líderes do movimento pelos judeus soviéticos. Mas publicaram.
O artigo de Beglov era uma operação de dois andares.
No primeiro andar, ficava a isca: a condenação de Meir Kahane e da Liga de Defesa Judaica, grupo político radical que aterrorizava representações soviéticas nos EUA. Era uma posição com a qual a maioria dos judeus americanos concordaria sem hesitar — e os propagandistas soviéticos sabiam disso muito bem.
No segundo andar, bem escondido, ficava o anzol: a equiparação sistemática entre sionismo e nazismo, e a caracterização de todo judeu americano identificado com Israel como “fanático sionista” e quinta-colunista contra a paz mundial. Udaltsov registrou a conquista com evidente satisfação. O veneno havia chegado ao destino. Isso não transforma o Times de 2026 em veículo da KGB. A Guerra Fria acabou, a Novosti deixou de existir.
Mas revela algo sobre a permeabilidade histórica do jornal a narrativas que, embaladas em linguagem humanista — direitos humanos, vítimas, testemunhos —, encontram passagem sem que os filtros editoriais disparem. Em 1931, a isca era a admiração pelos “avanços” do socialismo soviético. Em 1971, era a condenação de Kahane. Em 2026, é o sofrimento palestino — causa legítima, que não precisa de fabricações para se sustentar.
O problema não é a pauta.
É a metodologia: fontes não verificadas, ligadas a redes afiliadas ao Hamas, e uma publicação estrategicamente cronometrada para coincidir — e obscurecer — um relatório independente israelense sobre a violência sexual cometida pelo Hamas no 7 de outubro. Netanyahu pode ter seus próprios motivos para processar o Times. Motivos que nem sempre coincidem com a busca desinteressada pela verdade. Mas a desconfiança dele em relação ao jornal não nasce do nada.
\Nasce de uma história. E essa história, quem se der ao trabalho de pesquisar, está bem documentada — em memorandos arquivados, em artigos acadêmicos sobre a campanha antissionista soviética, em registros que nem Stalin nem a KGB tiveram o cuidado de destruir.
O Times publicou propaganda soviética em 1931. Publicou de novo em 1971. Nas duas ocasiões, talvez o tenha feito de boa fé. Mas publicou. E quem se beneficiou — Stalin primeiro, Udaltsov depois — comemorou. Será dessa vez o Hamas a comemorar?