sexta-feira, 15 de maio de 2026

A Escola Austríaca e a direita moderna: Por que a economia importa (Parte II) - Thomas Woods

 

Nota da edição:

O texto a seguir é uma transcrição de uma palestra proferida pelo historiador, pensador e comentarista político Tom Woods, fellow do Mises Institute, na Mises University de 2025. Nela, o autor tece críticas importantes a conservadores e a outros setores da direita que não valorizam o estudo da economia.

O artigo foi dividido em duas partes. Leia a parte I aqui.

Ele também faz parte do e-book recentemente lançado pelo IMB, Ignorar a Economia tem Consequências, onde você pode ler o texto na íntegra.


Soluções milagrosas

Eu espero que pessoas da esquerda política busquem milagres por meio de intervenções econômicas. A abordagem da esquerda americana em relação à economia é a de que desejar algo é suficiente para torná-lo realidade. Queremos que os trabalhadores tenham este ou aquele benefício? Aprovem uma lei. Queremos salários mais altos? Aprovem uma lei. Queremos menos pobreza? Aprovem uma lei. Não há qualquer reflexão sobre possíveis efeitos colaterais dessas intervenções. Parte-se simplesmente do pressuposto de que elas alcançarão seus objetivos declarados, e que nada mais precisa ser considerado. Da mesma forma, não se leva em conta se existem restrições físicas em jogo. Se simplesmente aprovar uma lei ou intervir na economia pudesse gerar riqueza a partir da pobreza, Bangladesh já não teria tentado isso? Sem falar que não haveria motivo para ajuda externa se tudo o que precisassem fazer fosse aprovar uma lei fortalecendo sindicatos ou estabelecendo um salário mínimo. Bem, esse é um mau exemplo, porque não há motivo algum para ajuda externa. Ela é desastrosa, e tudo o que produz é desastre. Mas você entende onde quero chegar.

Quando ouço esse tipo de raciocínio vindo da direita, essa ideia de que existe um botão mágico que bastaria Jerome Powell apertar, mas ele é mesquinho e, por algum motivo, teria um fetiche pelo sofrimento humano e por isso se recusa a apertá-lo, isso soa como a deputada AOC. Não é assim que alguém de direita deveria falar. Esse é o tipo de coisa de que alguém de direita deveria rir. Seria ótimo viver em um mundo em que uma instituição criada pelo governo, como o Fed, tivesse esse botão. Então, por favor, não me façam defender Jerome Powell. Eu não quero. Não estou dizendo que ele seja um sujeito particularmente bom. Estou dizendo que esse não é o ponto. Não há motivo para alguém da direita política simpatizar com a ideia de que a prosperidade americana, assim como a estabilidade da economia dos Estados Unidos, dependa de intervenções monetárias conduzidas por tecnocratas com seu planejamento central. Isso contraria a maneira como um conservador deveria enxergar o mundo. O que deveria ressoar com ele, em vez disso, é a ideia de que existe uma ordem natural das coisas que nenhum intelectual, por mais tomado pela arrogância, é capaz de subverter.

É a esquerda que está constantemente em guerra com a ordem natural. É Alexandria Ocasio-Cortez quem acredita que desejar um resultado e respaldar esse desejo com a força do estado é tudo o que é necessário para alcançá-lo. Lembro às pessoas do movimento MAGA: ela não é brilhante. Não imitem essa visão de mundo. Ela está errada. O conservador, em vez de tentar inutilmente dobrar a ordem natural à sua vontade, reconhece essa ordem e se conforma a ela.

É isso que Richard Weaver, que estava muito mais à direita do que qualquer uma dessas pessoas, tinha em mente quando escreveu em seu ensaio “Conservatism and Libertarianism: The Common Ground” (1960): “Sustento que o conservador é um realista, que acredita que existe uma estrutura da realidade independente de sua própria vontade e de seus desejos. Ele acredita que há uma criação que existia antes dele, que existe agora não por sua mera tolerância e que continuará a existir depois que ele se for. Essa estrutura não consiste apenas no grande mundo físico, mas também em muitas leis, princípios e regras que orientam o comportamento humano. Embora essa realidade seja independente do indivíduo, ela não lhe é hostil. Na verdade, ela pode ser moldada por ele de várias maneiras, mas não pode ser alterada de forma radical e arbitrária. Este é o ponto central. O conservador sustenta que o homem, neste mundo, não pode transformar sua vontade em lei sem levar em conta limites e a natureza fixa das coisas”.

Weaver prossegue tratando especificamente das contribuições da economia austríaca: “A praxeologia, em termos breves, é a ciência de como as coisas funcionam em virtude de suas naturezas essenciais. O conservador e o libertário concordam que não é apenas presunção, mas também tolice tentar interferir no funcionamento da praxeologia. Pode-se utilizá-la, sim, do mesmo modo que um seguidor de Bacon utiliza a natureza ao obedecê-la. A grande diferença é que se está reconhecendo o que é objetivo; está-se reconhecendo as leis que regem os assuntos humanos. Como o conservador e o libertário acreditam que essas leis não podem ser simplesmente anuladas pelo estabelecimento de uma utopia, ambos são guardiões do mundo real”. E, nesse mundo real, não existe esse botão mágico que o Fed, ou qualquer outra entidade, poderia apertar para criar prosperidade sem esforço.

Aumento de preços e o banco central

Além disso, alguns segmentos do movimento MAGA parecem não compreender o papel do Fed na elevação dos preços, que é justamente uma de suas preocupações. Por isso, não percebem que estamos lidando com uma questão de política monetária. Falam como se a inflação de preços ao consumidor fosse causada por fatores como preços elevados de energia ou gastos excessivos do governo, e o Fed simplesmente não entra na história. Entendo por que um político falaria assim. Gastos públicos e preços de energia são coisas sobre as quais eles têm algum controle. Já abolir o Fed não tem grande apelo político. A maioria dos americanos, aliás, nem sabe o que ele é, então por que trazer o assunto à tona?

Mas é mais difícil entender por que intelectuais e influenciadores, que não precisam se preocupar com esse tipo de cálculo político, também falam como se os motores da alta dos preços ao consumidor fossem os gastos do governo e os preços de energia, ignorando completamente o Fed. A esta altura, já temos internet há muito tempo. Já tivemos tempo de sobra para descobrir a verdade sobre isso. O Mises Institute, por exemplo, nunca foi exatamente discreto ao divulgar esse conhecimento ao público. Portanto, não há muita desculpa, especialmente para alguém da direita, para não conhecer a verdade e não entender essa inflação contínua e persistente dos preços ao consumidor. Esse fenômeno é causado pelo Fed. Não tem nada a ver com esses outros fatores.

Há uma aparência superficial de plausibilidade na ideia de que preços altos de energia causam um aumento generalizado dos preços. O argumento, claro, é que tudo utiliza energia. Logo, se os preços de energia sobem, isso eleva o preço de tudo. O problema é que isso é uma variante da teoria da inflação de custos. Parece plausível. O problema é que, se não houver um Federal Reserve injetando mais dinheiro na economia, o aumento dos preços de energia deixa as pessoas com menos dinheiro para gastar em todo o resto.

Assim, qualquer aumento nos preços da energia seria compensado por preços mais baixos em outros setores, e no fim das contas tudo se equilibraria. Como é possível manter preços elevados de energia enquanto todo o restante dos gastos permanece igual? Como isso seria possível se não houvesse alguma instituição injetando dinheiro na economia? É aí que está o problema. Da mesma forma, o gasto público por si só não provoca aumento nos preços ao consumidor. Tudo depende de como esse gasto é financiado. Se, mais adiante, o governo expande a oferta monetária para viabilizá-lo, então você verá esse efeito. Mas não é o gasto público em si, como muitos afirmaram.

Se você diz que quer melhorar o bem-estar do americano médio, aquele que foi deixado de lado, e afirma que ambos os partidos negligenciaram essa pessoa, então você mesmo não pode ignorar o Fed, porque o Fed é a fonte de um sofrimento enorme para dezenas de milhões de pessoas. E, para piorar, elas nem sequer sabem que essa é a origem do seu sofrimento. Portanto, posso garantir que tratar a economia como algo estúpido, entediante, “coisa de nerds” ou menos importante do que as questões existenciais que você considera prioritárias só vai agravar exatamente a situação que você está criticando.

Consequências da inflação

As consequências da inflação vão muito além do aumento dos preços ao consumidor. Por exemplo, a inflação desestimula a poupança. Mesmo que o Fed atinja sua meta de inflação de 2% ao ano, isso ainda significa que, ao longo de 20 anos, suas economias perderão cerca de 30% do valor. Como alguém pode poupar assim? Como é possível poupar para o futuro? Pessoas mais tradicionais, os conservadores na sua vida, como seus avós, que sempre recomendaram poupar, agora parecem ingênuas ou até desprezíveis, graças ao Fed.

Nosso colega Guido Hülsmann, autor da excelente biografia de Mises, Mises: The Last Knight of Liberalism (2007), afirma que precisamos considerar as implicações dessa situação para os trabalhadores comuns. A maioria deles nunca recebeu treinamento sobre como investir no mercado de ações. Antes, podiam simplesmente acumular moedas de metais preciosos, que mantinham ou até aumentavam seu valor. Isso era suficiente como forma de poupança. Mas, como vimos pelo dado que mencionei, isso já não é possível. Então, o que essas pessoas precisam fazer agora? Precisam se envolver em operações que não compreendem e colocar seu dinheiro em risco em transações que exigem um conhecimento que elas não têm.

Mesmo aqueles que possuem esse conhecimento e dispõem de tempo para lidar com investimentos ainda podem ser prejudicados pelos efeitos mais amplos da inflação.

As pessoas acabam gastando mais tempo do que gastariam normalmente pesquisando e escolhendo ativos que acreditam que vão superar a inflação, desviando sua energia mental para questões financeiras mais do que fariam em outras circunstâncias. Isso é um efeito cultural. Além disso, podem optar por priorizar carreiras que pagam melhor em vez de carreiras que consideram pessoalmente gratificantes, porque a inflação não lhes dá escolha. Isso também é um efeito cultural.

A cultura não é algo separado da economia, não é o caso de “pessoas inteligentes falam sobre isto, enquanto sabichões falam sobre aquilo”. Essa divisão é completamente equivocada. As pessoas podem aceitar empregos longe de casa, que exigem longos deslocamentos, apenas para buscar pequenos ganhos adicionais de renda, justamente porque estão pressionadas pela inflação. Esse foco no dinheiro em detrimento da satisfação pessoal alimenta o materialismo, enfraquece os laços familiares e reduz o vínculo com a comunidade, à medida que as pressões financeiras passam a dominar as decisões e a moldar os valores sociais.

O mercado imobiliário

Outro problema enfrentado pelos americanos, especialmente aqueles na faixa dos 20 e 30 anos, que preocupa o universo MAGA, é o aumento dos preços dos imóveis. Diz-se que o sistema falhou com os jovens. Ninguém consegue comprar uma casa. A implicação parece ser: “Viram, seus economistas ingênuos? O capitalismo de mercado não funciona afinal. Não deveríamos continuar acreditando nessa superstição desacreditada. Precisamos tomar algum tipo de ação coletiva aqui”. Nem sempre fica claro o que exatamente isso significa. Mas será que posso sugerir que esses economistas tão criticados também têm algo a dizer sobre esse problema?

Vale observar, aliás, que os críticos do mercado têm dificuldade em manter coerência quando falam sobre preços de imóveis. Seria de se esperar que pessoas que passaram anos reclamando da falta de moradia acessível ficassem satisfeitas em 2008, quando os preços das casas caíram drasticamente. “Vejam, os preços estão caindo”. Mas não ficaram satisfeitas. Por isso, eu não levo totalmente a sério alguns desses críticos. Os preços caíram em 2008, e eles reagiram como se fosse uma catástrofe, como se algo terrível tivesse acontecido simplesmente porque os preços estavam diminuindo. Entraram em modo de urgência para descobrir como tornar as casas caras novamente. E, de fato, fizeram exatamente isso.

Se essas pessoas estão falando sério sobre o aumento dos preços das casas e realmente gostariam de ver uma solução para o problema, não faria mal, mais uma vez, ao menos ouvir o que a economia tem a dizer. Descobririam que podemos reduzir os preços dos imóveis pela metade simplesmente desregulamentando o setor habitacional. Cortar essas regulações inúteis também criaria, pasmem, uma grande quantidade de empregos muito bons na construção e na indústria, algo com que eles também dizem se preocupar.

Os preços das casas, novamente, são mais uma área em que economia e cultura estão interligadas na vida social. Preços de imóveis são mais do que números. Eles influenciam quando, e até mesmo se, os jovens vão se casar e formar famílias. Tenho certeza de que muitos desses tradicionalistas se preocupam com isso. Portanto, se conseguirmos, por meio da análise econômica, encontrar formas de reduzir esses preços, teremos mais um exemplo de porque esses economistas tão criticados deveriam ser ouvidos de vez em quando, e de porque é tolice descartar a economia como se fosse uma obsessão abstrata com uma linha em um gráfico.

A pessoa que você deveria ler sobre isso é Bryan Caplan. Claro, ele não está certo sobre tudo, mas quando acerta, acerta muito. Bryan Caplan já participou do meu programa várias vezes, temos concordâncias e divergências, e escreveu um livro chamado Build, Baby, Build: The Science and Ethics of Housing Regulation (2024). Se você pensa: “Nunca leria esse livro porque parece muito técnico”, saiba que ele o escreveu no formato de um romance com ilustrações, porque percebe que as pessoas não leem. (“E se eu desenhar figuras? Talvez assim você preste atenção”). A leitura é muito rápida. Ele argumenta que uma desregulamentação completa do setor habitacional poderia reduzir os preços das casas em impressionantes 50%, mesmo ajustando pela inflação. Ele também observa que essas ideias são, curiosamente, compartilhadas ao longo de todo o espectro ideológico. Há muitas pessoas à esquerda dizendo: “Sim, concordamos com isso. Essas regulações são absurdas, não fazem sentido, são anti-humanas, e deveríamos eliminá-las”. Ou seja, existe um amplo consenso intelectual sobre o tema. E, ainda assim, nada é feito. Se temos uma maneira de reduzir os preços das casas pela metade, se pessoas informadas de diferentes posições ideológicas concordam com isso, e mesmo assim não fazemos nada, então simplesmente não estamos tratando o problema com seriedade.

O principal custo está em obter autorização para construir, o que, por sua vez, envolve lidar com leis de zoneamento, códigos de construção e toda a burocracia. Elimine isso, e a oferta de moradia aumenta. Há leis de zoneamento que exigem casas unifamiliares. Elas limitam moradias multifamiliares e empreendimentos de alta densidade, como arranha-céus, mesmo em áreas de alta demanda. Regras de tamanho mínimo de lote impedem a subdivisão de terrenos para a construção de mais unidades. As regulações dificultam a construção de edifícios altos, embora essa seja justamente uma forma da tecnologia tornar possível oferecer moradia acessível e espaçosa nos lugares onde as pessoas querem viver. Vale mencionar também que uma parcela significativa das terras nos Estados Unidos, especialmente no Oeste, pertence aos governos federal e estaduais e é mantida fora do mercado, o que também reduz a disponibilidade de terrenos para construção.

Em uma escala bem menor, há fatores fáceis de ignorar: as regulações frequentemente exigem um número excessivo de vagas de estacionamento. Chegam a exigir duas ou três vagas por unidade habitacional, como se todos os dias fossem a Black Friday. Mas não temos uma Black Friday todos os dias, então por que desperdiçar tanto espaço? Isso representa desperdício de recursos e uma má alocação de terrenos que poderiam ser usados para moradia.

Conclusão

Em suma, é equivocado sugerir que, de um lado, temos pensadores profundos refletindo sobre questões de grande importância, enquanto, de outro, existem essas pessoas confusas e superficiais que, por algum motivo, se preocupam com um campo trivial como a economia.

Se você ignora a economia, que, no fundo, é apenas uma forma de compreender como o mundo funciona, não conseguirá atingir os objetivos que acredita estarem distantes dela. Entendo que pode parecer satisfatório se colocar acima das supostas preocupações mundanas e materialistas dos economistas. Por que esses calculistas não percebem que nossas preocupações são muito mais profundas do que as deles e que ignoram os problemas existenciais que enfrentamos hoje?

Isso me lembra o meu livro A Igreja e o mercado, porque nele falei bastante sobre o que podemos fazer para melhorar o bem-estar dos trabalhadores. Eu estava respondendo a todas aquelas acusações: “Vocês, economistas, são materialistas, só pensam em lucros e dinheiro. Precisamos ajudar o trabalhador”. Então eu perguntava: “Tudo bem, o que vocês querem para o trabalhador?” E a resposta era: mais dinheiro. Ou seja, exatamente aquilo de que acabaram de me acusar, como se fosse materialismo. Então, no fim das contas, é isso mesmo que eles querem. Depois de toda aquela pompa sobre “pensamos em coisas mais elevadas”, o que realmente querem é dar mais dinheiro às pessoas. Ótimo, porque nisso nós somos bons. Sabemos como fazer isso. Temos uma enorme quantidade de livros sobre o assunto.

O movimento MAGA nos diz , e acredito que falem com sinceridade, que se preocupa com o bem-estar da família, com jovens que nem chegam a formar famílias, com o fato de que os preços das casas estão fora do alcance deles, com um sentimento generalizado de desesperança e desânimo, e com a percepção de que uma vida próspera e satisfatória parece fora do alcance de muitos. Não afirmo que uma única disciplina acadêmica tenha todas as respostas ou possa resolver todos os problemas. A economia não resolve tudo, e nem pretende fazê-lo. Mas é justamente com as ferramentas dos economistas, dos bons economistas, quero dizer, não dos porta-vozes do establishment em que muitos se transformaram, que os problemas apontados pelos tradicionalistas podem, ao menos, ser amenizados. É com o aconselhamento de economistas austríacos que o movimento MAGA pode evitar cair nos tipos de erro que parecem gerar prosperidade, mas que apenas preparam o terreno para recessões e, assim, intensificam exatamente os problemas que dizem querer resolver. Portanto, depois de todas as críticas equivocadas e injustas que receberam, aqueles que têm algo indispensável e importante a dizer sobre os problemas que nos afligem são, na verdade, justamente os desprezados, os rejeitados: os economistas.

Thomas Woods - Mises Brasil