André Faria: o policial morto no Jacarezinho| Foto: Arquivo pessoal
Dos seis policiais que desceram do Caveirão (o nome popular dado ao veículo blindado que transporta a Polícia Civil Rio de Janeiro durante operações) e entraram na comunidade do Jacarezinho à pé, na manhã do último dia 6 de maio, André Leonardo de Mello Frias, de 48 anos, era o último da fila.
Lotado na Delegacia de Combate às Drogas (Dcod) desde o fim do ano passado, era membro da corporação havia nove anos e, segundo colegas delegados, era muito ativo e dedicado a investigações. Foi o único policial morto durante a Operação Exceptis, que deixou mais 27 mortos e, segundo um levantamento do Instituto Fogo Cruzado, foi a mais letal da história do Rio de Janeiro. André Frias deixa esposa e um enteado de 10 anos, além da mãe que, há três anos, vive acamada por conta de um AVC.
André deu entrada no Hospital Salgado Filho, no Méier, às 6h30 desta quinta-feira, quinze minutos após ser baleado na cabeça enquanto tentava remover uma barricada instalada por traficantes na entrada do Jacarezinho - o que motivou a decisão da equipe de seguir com a operação a pé.
"Nós entramos exatamente às 6h07 e ele estava ao meu lado”, conta o delegado Marcus Amin à Gazeta do Povo. Os bandidos estavam em um abrigo feito de concreto com cinco buracos para fuzis dando rajada na gente. Uma delas acertou o braço de um colega e acabou vitimando fatalmente o André", diz o policial. Segundo os investigadores, a bala teria ricocheteado e acertado o policial, quando o agente ferido no braço e outros dois colegas já estavam abrigados.
Além da aptidão para investigações, André Farias é descrito pelos colegas como um policial que gostava de participar de operações e sabia muito sobre armas de fogo, das quais era colecionador. Em junho de 2017, participou da investigação policial que resultou na apreensão de 60 fuzis vindos de Miami para o Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão, na Zona Norte do Rio. Por esse trabalho, foi indicado pelo então deputado Flávio Bolsonaro para receber uma moção de louvor e congratulações na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
A operação Exceptis
A Operação Exceptis foi deflagrada na última quinta-feira, pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, e resultou na morte de 28 pessoas - sendo uma delas o policial André Frias. As outras 27, segundo a polícia, eram suspeitas de envolvimento com o tráfico - sendo que três deles eram alvos dos 21 mandados de prisão expedidos pela Justiça. Duas pessoas ficaram feridas em um trem da Linha 2 do metrô, na estação de Triagem.
Ocorre que, desde junho do ano passado, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a suspensão de operações em favelas durante a pandemia do vírus chinês. Ações desse tipo só são permitidas após comunicação e justificativa ao Ministério Público. Em entrevista coletiva, o delegado Felipe Curi, chefe do Departamento Geral de Polícia-Especializada, defendeu que a operação estava dentro da legalidade e agiu para combater o tráfico.
“A DPCA estava fazendo investigação há dez meses. O tráfico estava aliciando menores. Durante a investigação, a gente identificou uma série de crimes cometidos, sequestro de composições da SuperVia, execução de pessoas pelo Tribunal do Crime e as famílias sem ter direito de enterrar seus mortos e registrar em delegacia”, disse Curi.
Entretanto, a alta letalidade da operação vem despertando críticas à atuação da polícia. Moradores da comunidade relataram cenas de invasão domiciliar e execuções. Um suspeito teria sido executado na frente de uma menina de 8 anos, dentro do quarto da garota. No metrô, uma pessoa foi ferida por estilhaços de vidro e uma por uma bala de raspão.
Em nota enviada à Gazeta do Povo, o MPRJ confirmou que estava ciente da operação no Jacarezinho.
“A Polícia Civil apontou a extrema violência imposta pela organização criminosa como elemento ensejador da urgência e excepcionalidade para realização da operação, elencando a ‘prática reiterada do tráfico de drogas, inclusive com a prática de homicídios, com constantes violação aos direitos fundamentais de crianças e adolescentes e demais moradores que residem nessas comunidades’ como justificativas para a sua necessidade. Indicou, por fim, a existência de informação de inteligência que indicaria o local de guarda de armas de fogo e drogas”, diz o órgão, que está investigando as circunstâncias das mortes.
“O MPRJ, desde o conhecimento das primeiras notícias referentes à realização da operação que vitimou 27 civis e um policial civil, vem adotando todas as medidas para a verificação dos fundamentos e circunstâncias que envolvem a operação e mortes decorrentes da intervenção policial, de modo a permitir a abertura de investigação independente para apuração dos fatos, com a adoção das medidas de responsabilização aplicáveis”.
Ontem à noite, uma reportagem do portal Metrópoles indicou que documentos sobre a investigação da Polícia Civil que resultaram na operação foram apreendidos com suspeitos de envolvimento com o tráfico; indicando vazamento de informações sobre a ação da PCERJ.
Maria Clara Vieira, Gazeta do Povo