É grave a informação segundo a qual um funcionário da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República pretendia elaborar uma lista de prefeitos do PMDB do Rio de Janeiro que aderiram à candidatura presidencial de Aécio Neves (PSDB). Não se pode aceitar que um servidor público trabalhe na coleta de informações com o óbvio objetivo de municiar a campanha da presidente Dilma Rousseff (PT), ainda mais quando se trata de dados sobre dissidentes da coligação governista. O espantoso caso constitui mais um exemplo de como os petistas confundem seu partido com o governo - além de revelar as táticas pouco republicanas do PT contra aqueles que ousam desafiá-lo.
Conforme informou o jornal O Globo (26/6), Cássio Parrode Pires, assessor da Secretaria de Relações Institucionais, enviou um e-mail à assessoria de imprensa do PMDB fluminense solicitando a lista de presença do almoço de lançamento da aliança entre o governador peemedebista Luiz Fernando Pezão, candidato ao governo do Estado, e Aécio.
Conhecido como "Aezão", o movimento de adesão ao tucano por parte do PMDB do Rio representa uma importante dissidência no principal partido da coligação que apoia a reeleição de Dilma e tem, inclusive, o vice na chapa, Michel Temer. Como o Rio é o terceiro maior colégio eleitoral do País, é possível medir o grau de apreensão no comando da campanha petista. Por esse motivo, nos últimos dias, o Planalto vem procurando reduzir o alcance da aliança favorável a Aécio, tentando mobilizar prefeitos do Estado que ainda não aderiram ao "Aezão".
Tal articulação, do ponto de vista político, é legítima. Usar a máquina do Estado para fazer uma lista de dissidentes com propósitos obscuros não é. Lembra o modus operandi de regimes autoritários, que desqualificam, perseguem e criminalizam qualquer forma de oposição.
Com impressionante naturalidade, Pires, o funcionário público que solicitou os nomes dos prefeitos ao PMDB, disse que os dados seriam usados "apenas a título de conhecimento". "Nós temos interesse em saber quais prefeitos do Rio que vão apoiar declaradamente ou que pelo menos estiveram nessa convenção com o intuito de apoiar o Aécio", afirmou ele. E continuou: "É para a gente saber quem está apoiando. A gente faz o controle de todos os pré-candidatos ao governo federal. A gente quer saber quem está do lado do Aécio, do lado da Dilma...".
Essa prática não tem rigorosamente nada a ver com o trabalho da Secretaria de Relações Institucionais, órgão que é responsável pela relação da Presidência da República com o Legislativo e com governadores e prefeitos. As diretrizes gerais da Secretaria no que diz respeito a assuntos federativos, conforme se lê em seu site, são "qualificar as relações com os entes federados", "fortalecer a cooperação federativa" e "operar a concertação federativa". Fazer uma lista de prefeitos do PMDB que decidiram não apoiar a candidatura de Dilma obviamente não se enquadra em nenhum desses objetivos - e, portanto, só pode servir para ajudar a campanha eleitoral petista e constranger aqueles que dela decidiram desembarcar.
Práticas sorrateiras como essa, que visam a prejudicar a oposição, não são novidade na trajetória recente do PT. Na disputa pelo governo de São Paulo em 2006, dois emissários petistas foram flagrados num hotel com R$ 1,75 milhão, dinheirama que serviria para comprar um dossiê com informações que supostamente comprometeriam o então candidato tucano, José Serra. O escândalo atingiu vários petistas, inclusive alguns graúdos, como Ricardo Berzoini, à época presidente nacional do PT e coordenador da campanha à reeleição do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na ocasião, Lula qualificou esses companheiros de "aloprados".
Passados oito anos, Berzoini não só foi "reabilitado", como se tornou ministro de Dilma - justamente na Secretaria de Relações Institucionais. A respeito do contato da Secretaria com o PMDB do Rio para obter informações sobre os prefeitos do partido que decidiram apoiar Aécio, Berzoini disse que só queria "chamá-los para almoçar". Acredite quem quiser.
terça-feira, 1 de julho de 2014
Altíssima taxa de homicídios no DF, com a Polícia Militar mais bem paga do país, deve ir para a conta do governador Agnelo Queiroz
Blog Ricardo Setti - Veja
Taxa de homicídios do DF está muito acima da média brasileira, e superior à de Estados problemáticos como o Rio de Janeiro, Rondônia e Pernambuco. Com PM bem paga e bem equipada, é claramente um problema gerencial (Ilustração: creativereview.co.uk)
A recente divulgação dos dados preliminares da respeitada pesquisa Mapa da Violência , realizada pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, referente ao ano de 2012 consolidado, é em si uma tragédia por haver revelado que a taxa de homicídios no Brasil é a maior desde 1980 — 29 casos para cada 100 mil habitantes, quando a ONU considera “epidêmica” a incidência do crime acima do limite de 10 para cada 100 mil.
Até o México, até há pouco envolvido numa onda de crimes brutal, próxima à guerra civil, com o embate entre cartéis do narcotráfico, de um lado, e a polícia e as Forças Armadas, de outro, apresentou dados melhores que os do Brasil — 22,1 contra os 29, para não falar nos 5,3 por 100 mil dos Estados Unidos.
Se o dado geral do Brasil é péssimo, há casos localizados que beiram o incompreensível. Entre 27 unidades da Federação, chama a atenção o fato de que o Distrito Federal situa-se num horroroso 9º lugar em número de homicídios por 100 mil habitantes, com quase o quádruplo do limite da ONU — 38,9.
Justamente o DF, que tem a Polícia Militar mais bem remunerada do país, a ponto de o salário de início de carreira de um PM ter inicialmente servido de base a uma emenda à Constituição que tramita no Congresso e já foi aprovada pela Câmara dos Deputados em primeiro turno em 2010.
O salário-base de um PM no DF é, desde o dia 19 de fevereiro, de exatos 7.190,98, a partir do decreto publicado no Diário Oficial.
Repito, por extenso: um policial soldado raso da PM receberá por mês sete mil, cento e noventa reais e noventa e oito centavos, excluídos benefícios como auxílio-moradia e auxílio-alimentação.
Um coronel PM passa a receber 21 mil reais, fora benefícios e adicionais por tempo de serviço.
Disparado, o maior salário de PM no Brasil. Há Estados onde policiais militares mal chegam aos 2 mil reais por mês, e coronéis ganhando 7 mil reais.
Um esclarecimento: sou TOTALMENTE FAVORÁVEL a, havendo recursos, remunerar da melhor forma possível as Polícias Militares de todo o país.
Sou também TOTALMENTE FAVORÁVEL a que as Polícias Militares recebam treinamento adequado, equipamento de primeira e — isto é FUNDAMENTAL — avaliações periódicas de desempenho.
PMs do DF, cujo salário de início de carreira é superior a 7 mil reais, exibindo os óculos com câmeras especiais, parte do excelente equipamento da corporação (Foto: PMDF)
É aí que está o problema. Muitíssimo bem equipada, com 1.850 viaturas — na maior parte novas e possantes — 1.600 motos e 3 helicópteros, com PMs dispondo de armas modernas, tablets e até de óculos especiais que gravam ações de que participam, é inteiramente injustificável que exiba esses espantosos índices de homicídios.
Sinal evidente, para analistas do setor, de um sério problema de gestão que bate diretamente no governador Agnelo Queiroz (PT). O governador diz que o contingente da PM do DF precisa ser aumentado.
Pode ser. Mas será este o problema?
Vejamos: com 2,8 milhões de habitantes, o Distrito Federal mantém 15 mil policiais militares em atividade.
O Estado de São Paulo, com 43,6 milhões de habitantes, dispõe um efetivo de 94 mil policiais militares. O índice de homicídios no Estado é o segundo menos pior do país, segundo o Mapa da Violência com 15,1 por 100 mil (o menor índice, de acordo com a mesma fonte, seria o de Santa Catarina, com 12,8). Esses dados de São Paulo não batem com o número oficial do governo do Estado, que é de 11,5 por 100 mil. De todo modo, muitíssimo abaixo do panorama exibido pelo DF.
Se fosse para manter a proporção entre população e efetivos da PM, e seguindo o patamar do DF, São Paulo teria um exército de 233 MIL policiais militares!
Nem é preciso fazer contas para retratar o estado catastrófico da segurança pública no governo do ex-comunista e hoje petista Agnelo Queiroz.
"Tem de querer", por Ilan Goldfajn
O Estado de S.Paulo
Não foi nos últimos seis minutos da virada espetacular da Holanda que o México começou a perder o jogo. Começou quando o treinador mexicano, Miguel Herrera, substituiu o atacante Giovani dos Santos e recuou exageradamente o time. Ele deixou de querer mais e perdeu a vantagem no placar. Acabou perdendo também a chance histórica de classificar o México para as quartas de final da Copa do Mundo.
Na economia deixamos de querer mais já há algum tempo. Os jornais do fim de semana comemoraram os 20 anos do Plano Real. O plano foi um marco, saímos da inflação alta e começamos a enxergar o futuro. Mas, anos depois, faltou dar-lhe sequência. Alguns mecanismos de indexação persistiram, o gasto público nunca parou de crescer e nos contentamos em manter o centro da meta de inflação em 4,5% (para que baixar mais?). O tempo foi passando e fomos recuando. Introduzimos novos mecanismos de indexação, acomodamo-nos no teto da meta de inflação (6,5%) e reintroduzimos controles de preços que nunca funcionaram no combate à inflação (na verdade, só pioraram).
Com o time recuado, começamos a duvidar da sua qualidade. A inflação ainda é alta... deve ser algum problema estrutural. Os juros sobem e a inflação permanece alta... deve ser a falta de eficácia da política monetária. Afinal, vivemos um paradoxo: a inflação hoje é alta e a atividade fraca (como pode haver inflação numa economia fraca?).
De fato, a inflação ronda o teto da meta, de 6,5%, apesar do controle de preços administrados, cuja inflação é de apenas 4,1%. No mês de junho a inflação dos últimos 12 meses atinge 6,5% e deve ficar acima do teto da banda até dezembro. Para os próximos anos as expectativas são de inflação ainda alta. A inflação esperada calculada a partir dos títulos indexados encontra-se em 5,9% para os próximos anos. A pesquisa Focus mostra que as expectativas para 2015 estão em 6,1%.
E a atividade vai na direção contrária. O sinal é inequívoco. Um conjunto amplo de indicadores coincidentes para o segundo trimestre - incluindo, entre outros, indicadores para a produção industrial, setor de serviços, demanda por crédito e confiança de empresários e consumidores - aponta para uma retração da atividade econômica (projetamos queda de 0,2%). Assim, no primeiro semestre a economia deve ter estagnado. Os índices de confiança de empresários e consumidores atingiram os menores níveis desde a crise financeira internacional.
O Banco Central baixou a projeção de crescimento para 1,6% em 2014 no último Relatório de Inflação. Mas com o resultado mais fraco do produto interno bruto (PIB) no primeiro trimestre, bem como essa perspectiva para o segundo trimestre e a análise dos fundamentos econômicos, vai ser difícil a economia conseguir crescer acima de 1% em 2014. É necessária uma recuperação vigorosa no segundo semestre para alcançar essas projeção (uma queda da atividade de 0,2% no segundo trimestre requer uma recuperação de 0,5% por trimestre para a economia ainda crescer 1% neste ano).
A verdade é que não há paradoxo. A princípio, qualquer fenômeno que venha a reduzir a oferta tende a diminuir a produção enquanto eleva os preços. Uma queda da produtividade da economia leva a atividade fraca e inflação alta. O mesmo ocorre quando há uma queda dos termos de troca (preços de exportação sobre importações). Ambos parecem ter afetado a economia brasileira nos últimos anos.
Mas mesmo sem choques de oferta seria difícil espantar-se com a resistência da inflação. A subida recente de juros ocorreu após uma forte queda nos últimos anos, uma parte é apenas correção de rumos. E, quando vista em conjunto, a política econômica não tem contribuído plenamente para a queda da inflação.
O problema é que apenas um jogador ficou na frente: o Banco Central. O combate à inflação é um jogo de equipe. O aumento de gastos e a queda do superávit primário do governo, associados a incentivos ao consumo privado, têm prolongado o descompasso entre a demanda e a oferta no País.
Nos últimos anos, o superávit primário caiu de 3% a 4% do PIB para 1% a 2%. Em maio o déficit primário atingiu R$ 11 bilhões - 2,5% do PIB - e o acumulado em 12 meses, 1,5%. Estimamos que o superávit recorrente - aquele que é sustentável - atingiu apenas 0,5% do PIB. Neste ano, com a queda da arrecadação devida à atividade mais fraca, será muito difícil atingir a meta fiscal de 1,9%.
O uso de controles de preços para combater a inflação tem sido um verdadeiro gol contra. Controles mantêm acesa a perspectiva de reajustes de preços administrados no futuro. Não se acredita na queda futura da inflação, apesar da atividade fraca. Com expectativas de inflação em alta, é mais difícil reduzir a inflação corrente (quem quer abdicar de reajuste com perspectiva de inflação em alta?).
Mas o jogo não está perdido. Longe disso. Estamos distantes das ameaças hiperinflacionárias de décadas atrás. E a sociedade fica incomodada com as altas de inflação que reduzem o seu poder de compra, atuando como um verdadeiro imposto regressivo.
Para a frente, apesar de teoricamente possível, não acredito na persistência prolongada da inflação alta, com queda da atividade. Os preços livres vão acabar cedendo e afetando a inflação. Mas a política econômica tem de atuar em conjunto com um objetivo bem definido. E é importante atuar nas expectativas para reduzir o custo da desinflação. Para isso é necessário desembaraçar a questão dos preços administrados, a fim de evitar manter as altas expectativas de inflação. Afinal, tem de querer para avançar.
ECONOMISTA-CHEFE E SÓCIO DO ITAÚ UNIBANCO
Não foi nos últimos seis minutos da virada espetacular da Holanda que o México começou a perder o jogo. Começou quando o treinador mexicano, Miguel Herrera, substituiu o atacante Giovani dos Santos e recuou exageradamente o time. Ele deixou de querer mais e perdeu a vantagem no placar. Acabou perdendo também a chance histórica de classificar o México para as quartas de final da Copa do Mundo.
Na economia deixamos de querer mais já há algum tempo. Os jornais do fim de semana comemoraram os 20 anos do Plano Real. O plano foi um marco, saímos da inflação alta e começamos a enxergar o futuro. Mas, anos depois, faltou dar-lhe sequência. Alguns mecanismos de indexação persistiram, o gasto público nunca parou de crescer e nos contentamos em manter o centro da meta de inflação em 4,5% (para que baixar mais?). O tempo foi passando e fomos recuando. Introduzimos novos mecanismos de indexação, acomodamo-nos no teto da meta de inflação (6,5%) e reintroduzimos controles de preços que nunca funcionaram no combate à inflação (na verdade, só pioraram).
Com o time recuado, começamos a duvidar da sua qualidade. A inflação ainda é alta... deve ser algum problema estrutural. Os juros sobem e a inflação permanece alta... deve ser a falta de eficácia da política monetária. Afinal, vivemos um paradoxo: a inflação hoje é alta e a atividade fraca (como pode haver inflação numa economia fraca?).
De fato, a inflação ronda o teto da meta, de 6,5%, apesar do controle de preços administrados, cuja inflação é de apenas 4,1%. No mês de junho a inflação dos últimos 12 meses atinge 6,5% e deve ficar acima do teto da banda até dezembro. Para os próximos anos as expectativas são de inflação ainda alta. A inflação esperada calculada a partir dos títulos indexados encontra-se em 5,9% para os próximos anos. A pesquisa Focus mostra que as expectativas para 2015 estão em 6,1%.
E a atividade vai na direção contrária. O sinal é inequívoco. Um conjunto amplo de indicadores coincidentes para o segundo trimestre - incluindo, entre outros, indicadores para a produção industrial, setor de serviços, demanda por crédito e confiança de empresários e consumidores - aponta para uma retração da atividade econômica (projetamos queda de 0,2%). Assim, no primeiro semestre a economia deve ter estagnado. Os índices de confiança de empresários e consumidores atingiram os menores níveis desde a crise financeira internacional.
O Banco Central baixou a projeção de crescimento para 1,6% em 2014 no último Relatório de Inflação. Mas com o resultado mais fraco do produto interno bruto (PIB) no primeiro trimestre, bem como essa perspectiva para o segundo trimestre e a análise dos fundamentos econômicos, vai ser difícil a economia conseguir crescer acima de 1% em 2014. É necessária uma recuperação vigorosa no segundo semestre para alcançar essas projeção (uma queda da atividade de 0,2% no segundo trimestre requer uma recuperação de 0,5% por trimestre para a economia ainda crescer 1% neste ano).
A verdade é que não há paradoxo. A princípio, qualquer fenômeno que venha a reduzir a oferta tende a diminuir a produção enquanto eleva os preços. Uma queda da produtividade da economia leva a atividade fraca e inflação alta. O mesmo ocorre quando há uma queda dos termos de troca (preços de exportação sobre importações). Ambos parecem ter afetado a economia brasileira nos últimos anos.
Mas mesmo sem choques de oferta seria difícil espantar-se com a resistência da inflação. A subida recente de juros ocorreu após uma forte queda nos últimos anos, uma parte é apenas correção de rumos. E, quando vista em conjunto, a política econômica não tem contribuído plenamente para a queda da inflação.
O problema é que apenas um jogador ficou na frente: o Banco Central. O combate à inflação é um jogo de equipe. O aumento de gastos e a queda do superávit primário do governo, associados a incentivos ao consumo privado, têm prolongado o descompasso entre a demanda e a oferta no País.
Nos últimos anos, o superávit primário caiu de 3% a 4% do PIB para 1% a 2%. Em maio o déficit primário atingiu R$ 11 bilhões - 2,5% do PIB - e o acumulado em 12 meses, 1,5%. Estimamos que o superávit recorrente - aquele que é sustentável - atingiu apenas 0,5% do PIB. Neste ano, com a queda da arrecadação devida à atividade mais fraca, será muito difícil atingir a meta fiscal de 1,9%.
O uso de controles de preços para combater a inflação tem sido um verdadeiro gol contra. Controles mantêm acesa a perspectiva de reajustes de preços administrados no futuro. Não se acredita na queda futura da inflação, apesar da atividade fraca. Com expectativas de inflação em alta, é mais difícil reduzir a inflação corrente (quem quer abdicar de reajuste com perspectiva de inflação em alta?).
Mas o jogo não está perdido. Longe disso. Estamos distantes das ameaças hiperinflacionárias de décadas atrás. E a sociedade fica incomodada com as altas de inflação que reduzem o seu poder de compra, atuando como um verdadeiro imposto regressivo.
Para a frente, apesar de teoricamente possível, não acredito na persistência prolongada da inflação alta, com queda da atividade. Os preços livres vão acabar cedendo e afetando a inflação. Mas a política econômica tem de atuar em conjunto com um objetivo bem definido. E é importante atuar nas expectativas para reduzir o custo da desinflação. Para isso é necessário desembaraçar a questão dos preços administrados, a fim de evitar manter as altas expectativas de inflação. Afinal, tem de querer para avançar.
ECONOMISTA-CHEFE E SÓCIO DO ITAÚ UNIBANCO
" Um semestre pior para o setor de construção civil", editorial do Estadão
No primeiro semestre, dois dos principais levantamentos sobre a construção civil, feitos pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), mostraram que o setor reduziu o ritmo de atividade, deixou de contratar pessoal e passou a encarar o futuro com pessimismo. De fato, não se deveria esperar que a construção civil fosse um caso isolado num cenário de desaceleração generalizada. Mas, como o setor tem peso relevante (de cerca de 30%) na taxa de investimento, ou seja, na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), seu desaquecimento terá reflexos negativos no Produto Interno Bruto (PIB).
No primeiro trimestre, segundo o IBGE, o PIB da construção civil caiu 0,9% - e as projeções do Relatório de Inflação do Banco Central (BC), divulgado quinta-feira, são de um declínio de 2,2% em 2014 e de 1,5% em 2015. Nos dois casos, um comportamento pior que o da economia. As perspectivas do BC estão em sincronia com as pesquisas da CNI e da FGV.
Em maio, a utilização da capacidade da indústria da construção foi de apenas 70%, segundo a Sondagem Indústria da Construção, da CNI.
Tanto os índices de nível de atividade como o de atividade em relação à usual e de número de empregados foram inferiores a 50% - o nível que separa a faixa positiva da negativa. As expectativas das grandes empresas ainda são positivas, mas muito próximas do patamar de 50%, enquanto as pequenas e médias empresas estão mais pessimistas. Na melhor das hipóteses, as empresas manterão o quadro de funcionários.
Em junho, segundo a Sondagem da Construção, da FGV, feita com 698 empresas, o Índice de Confiança da Construção caiu pelo quarto mês consecutivo: de -3,3%, em abril, para -9,8%. Pioraram as expectativas de 10 segmentos da construção, dos 11 analisados. Os destaques negativos foram a preparação de terreno - ou seja, a atividade que marca o início de uma construção - e as obras de acabamento, o que sugere problemas de caixa.
No mês passado, a situação atual dos negócios foi vista como ruim por 16,5% dos entrevistados, ante 14,7%, em junho de 2013. Cresceu também o porcentual dos entrevistados que esperam redução da demanda nos próximos três meses e uma tendência pior de negócios no segundo semestre.
A construção civil emprega 3,5 milhões de pessoas, calcula o Sinduscon-SP. E isso mostra o efeito econômico e social da piora do setor.
No primeiro trimestre, segundo o IBGE, o PIB da construção civil caiu 0,9% - e as projeções do Relatório de Inflação do Banco Central (BC), divulgado quinta-feira, são de um declínio de 2,2% em 2014 e de 1,5% em 2015. Nos dois casos, um comportamento pior que o da economia. As perspectivas do BC estão em sincronia com as pesquisas da CNI e da FGV.
Em maio, a utilização da capacidade da indústria da construção foi de apenas 70%, segundo a Sondagem Indústria da Construção, da CNI.
Tanto os índices de nível de atividade como o de atividade em relação à usual e de número de empregados foram inferiores a 50% - o nível que separa a faixa positiva da negativa. As expectativas das grandes empresas ainda são positivas, mas muito próximas do patamar de 50%, enquanto as pequenas e médias empresas estão mais pessimistas. Na melhor das hipóteses, as empresas manterão o quadro de funcionários.
Em junho, segundo a Sondagem da Construção, da FGV, feita com 698 empresas, o Índice de Confiança da Construção caiu pelo quarto mês consecutivo: de -3,3%, em abril, para -9,8%. Pioraram as expectativas de 10 segmentos da construção, dos 11 analisados. Os destaques negativos foram a preparação de terreno - ou seja, a atividade que marca o início de uma construção - e as obras de acabamento, o que sugere problemas de caixa.
No mês passado, a situação atual dos negócios foi vista como ruim por 16,5% dos entrevistados, ante 14,7%, em junho de 2013. Cresceu também o porcentual dos entrevistados que esperam redução da demanda nos próximos três meses e uma tendência pior de negócios no segundo semestre.
A construção civil emprega 3,5 milhões de pessoas, calcula o Sinduscon-SP. E isso mostra o efeito econômico e social da piora do setor.
"Desastre nas contas públicas", editorial do Estadão
A situação desastrosa das contas públicas agravou-se em maio com um déficit primário de R$ 11,05 bilhões, o pior resultado para o mês e o segundo pior de toda a série oficial, superado somente pelo rombo de R$ 20 bilhões em dezembro de 2008, no começo da crise global. Só um otimismo extraordinário permite apostar, neste momento, no resultado prometido para o ano, um superávit primário de R$ 99 bilhões para todo o setor público - União, Estados, municípios e companhias estatais. O resultado de cinco meses ficou em R$ 31,48 bilhões, 32,62% menor que o de igual período de 2013. Será preciso multiplicar o acumulado de janeiro a maio por pouco mais que três para alcançar a meta fixada para 2014. O superávit primário é destinado ao pagamento de juros da dívida pública, mais precisamente, de uma parte dos juros, porque uma fatia dos compromissos é sempre rolada.
O resultado obtido em 12 meses, um saldo primário de R$ 76,06 bilhões, ficou em 1,52% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para o período, muito longe, portanto, da meta de 1,9% programada para o ano. Em geral, os números do primeiro semestre são os mais favoráveis e garantem alguma gordura para ser consumida nos meses seguintes, quando os governos tendem a aumentar as despesas tanto de custeio quanto de investimento. Neste ano, o conjunto do setor público foi incapaz de juntar essa reserva e com isso ficará mais difícil produzir o resultado final.
Ainda assim, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC), Túlio Maciel, tentou, ao apresentar os dados fiscais, mostrar algum otimismo quanto ao alcance da meta. É preciso, argumentou, levar em conta o ingresso, nos próximos meses, de receitas de concessões, de dividendos e de prestações do Refis, o programa de refinanciamento de débitos tributários.
Esse aparente otimismo é sustentado, portanto, pela expectativa de receitas especiais, fora do conjunto da arrecadação recorrente. Dividendos, bônus de concessões e prestações do Refis foram amplamente usados em 2013 para engordar o resultado fiscal e continuam em uso neste ano. Até maio, as concessões de infraestrutura renderam R$ 1,23 bilhão, 13,7% menor que um ano antes, mas os dividendos, R$ 9,01 bilhões, foram 230% maiores que os dos primeiros cinco meses de 2013. Os dois tipos de ingressos deverão aumentar no segundo semestre, segundo as previsões de Maciel, mas, além disso, R$ 2 bilhões da Petrobrás já estão garantidos, em troca da cessão de mais quatro áreas do pré-sal. Esse contrato, sem licitação, foi anunciado na semana passada.
Pela programação oficial, caberá ao governo central - Tesouro, BC e Previdência - produzir R$ 80,8 bilhões de superávit primário. O resto ficará, em princípio, por conta dos governos de Estados e municípios e também das empresas estatais. De janeiro a maio o governo central produziu um saldo primário de R$ 18,10 bilhões; os governos regionais, de R$ 13,56 bilhões; e as estatais, um déficit de R$ 182 milhões. Mas o governo federal assumiu o compromisso, no começo do ano, de garantir o resultado total, se as administrações subnacionais e as companhias controladas pelo setor público deixarem de cumprir integralmente a sua parte.
Com a economia em passo de tartaruga, a receita de impostos deverá continuar abaixo das previsões. Ao apresentar os números do governo central, na sexta-feira, o secretário adjunto da Receita Federal, Luiz Fernando Teixeira Nunes, admitiu reduzir de 3% para 2% a projeção de aumento real da arrecadação. Em cinco meses, o governo federal arrecadou R$ 487,21 bilhões. Descontada a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o valor foi apenas 0,31% maior que o de um ano antes.
Como as despesas continuarão crescendo mais que a arrecadação até o fim do ano, o governo mais uma vez terá de recorrer a arranjos contábeis para tornar mais apresentável o resultado final. Seria extremamente irrealista esperar, num ano de eleições, alguma demonstração de austeridade. Além disso, o governo manterá pelo menos parte dos incentivos fiscais a setores selecionados da indústria.
O resultado obtido em 12 meses, um saldo primário de R$ 76,06 bilhões, ficou em 1,52% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para o período, muito longe, portanto, da meta de 1,9% programada para o ano. Em geral, os números do primeiro semestre são os mais favoráveis e garantem alguma gordura para ser consumida nos meses seguintes, quando os governos tendem a aumentar as despesas tanto de custeio quanto de investimento. Neste ano, o conjunto do setor público foi incapaz de juntar essa reserva e com isso ficará mais difícil produzir o resultado final.
Ainda assim, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC), Túlio Maciel, tentou, ao apresentar os dados fiscais, mostrar algum otimismo quanto ao alcance da meta. É preciso, argumentou, levar em conta o ingresso, nos próximos meses, de receitas de concessões, de dividendos e de prestações do Refis, o programa de refinanciamento de débitos tributários.
Esse aparente otimismo é sustentado, portanto, pela expectativa de receitas especiais, fora do conjunto da arrecadação recorrente. Dividendos, bônus de concessões e prestações do Refis foram amplamente usados em 2013 para engordar o resultado fiscal e continuam em uso neste ano. Até maio, as concessões de infraestrutura renderam R$ 1,23 bilhão, 13,7% menor que um ano antes, mas os dividendos, R$ 9,01 bilhões, foram 230% maiores que os dos primeiros cinco meses de 2013. Os dois tipos de ingressos deverão aumentar no segundo semestre, segundo as previsões de Maciel, mas, além disso, R$ 2 bilhões da Petrobrás já estão garantidos, em troca da cessão de mais quatro áreas do pré-sal. Esse contrato, sem licitação, foi anunciado na semana passada.
Pela programação oficial, caberá ao governo central - Tesouro, BC e Previdência - produzir R$ 80,8 bilhões de superávit primário. O resto ficará, em princípio, por conta dos governos de Estados e municípios e também das empresas estatais. De janeiro a maio o governo central produziu um saldo primário de R$ 18,10 bilhões; os governos regionais, de R$ 13,56 bilhões; e as estatais, um déficit de R$ 182 milhões. Mas o governo federal assumiu o compromisso, no começo do ano, de garantir o resultado total, se as administrações subnacionais e as companhias controladas pelo setor público deixarem de cumprir integralmente a sua parte.
Com a economia em passo de tartaruga, a receita de impostos deverá continuar abaixo das previsões. Ao apresentar os números do governo central, na sexta-feira, o secretário adjunto da Receita Federal, Luiz Fernando Teixeira Nunes, admitiu reduzir de 3% para 2% a projeção de aumento real da arrecadação. Em cinco meses, o governo federal arrecadou R$ 487,21 bilhões. Descontada a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o valor foi apenas 0,31% maior que o de um ano antes.
Como as despesas continuarão crescendo mais que a arrecadação até o fim do ano, o governo mais uma vez terá de recorrer a arranjos contábeis para tornar mais apresentável o resultado final. Seria extremamente irrealista esperar, num ano de eleições, alguma demonstração de austeridade. Além disso, o governo manterá pelo menos parte dos incentivos fiscais a setores selecionados da indústria.
Vendas de carros recuam 7,3% e Brasil tem pior semestre desde 2010. Crise de Dilma não tem fim
Vendas caem 7,3% no semestre
Joel Leite - Uol Carros
Governo Dilma já socorreu a indústria e expectativa é reverter o quadro nos próximos meses
Com um mês de junho fraco, principalmente por causa dos feriados provocados pelos jogos da Copa (veja matéria) o mercado de carros e comerciais leves teve o pior primeiro semestre dos últimos três anos.
Foram vendidas de janeiro a junho 1.583.066 unidades, contra 1.707.633 no mesmo período do ano passado, o que indica uma queda de 7,3%.
O desempenho do primeiro semestre só foi melhor que o resultado do mesmo período de 2010, quando foram vendidos 1.393.677 carros e comerciais leves.
Embora a queda de vendas no semestre seja pior do que as estimativas traçadas no início do ano, as vendas de junho surpreenderam positivamente. Considerando que o mês teve um feriado nacional e três dias “meia boca”, com os jogos do Brasil na Copa, as vendas de 250.490 unidades no mês podem ser consideras boas. A média diária, considerando os dias de jogos como “úteis”, foi de 12.552 unidades.
Além disso, a expectativa é de melhora do desempenho do setor no segundo semestre. Como sempre acontece, o governo já anunciou socorro à indústria automobilística, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, mantendo a redução do IPI até dezembro (veja como fica o imposto). Luiz Moan, presidente da Anfavea, ao receber ontem a boa notícia de Mantega, acha que a medida pode reverter a tendência de vendas. Situação semelhante aconteceu em 2012, quando o primeiro semestre teve queda de vendas (veja quadro de vendas no primeiro semestre desde 2007 ) e com a ajuda do governo o segundo foi de recuperação, com mo ano fechando com crescimento.
O presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo, Flávio Rocha, também presente na reunião de ontem com Guido Mantega, disse que a expectativa é positiva para o segundo semestre, acha que após o encerramento da Copa o mercado vai voltar a crescer. Especialmente porque a realização do evento sem problemas e superando a expectativa deverá trazer de volta a confiança ao consumidor.
"Campanha na cadeia", por José Casado
O Globo
Por trás das grades, os mensaleiros Dirceu,Valdemar e Jefferson mobilizam partidos e negociam alianças para ampliar seus espaços de poder em Brasília e nos estados
A partir desta semana, a monotonia entre corredores e celas será substituída por viagens diárias para trabalho em escritórios. São presidiários — “reeducandos” no vetusto linguajar de um dos juízes que os condenou por corrupção.
Por trás das grades, os mensaleiros Dirceu,Valdemar e Jefferson mobilizam partidos e negociam alianças para ampliar seus espaços de poder em Brasília e nos estados
A partir desta semana, a monotonia entre corredores e celas será substituída por viagens diárias para trabalho em escritórios. São presidiários — “reeducandos” no vetusto linguajar de um dos juízes que os condenou por corrupção.
Têm mais de 40 anos no ativismo político. Foram liberados para serviços burocráticos à luz do dia, embora nunca tenham deixado de trabalhar na penumbra dos presídios: profissionais da política, tentam ampliar espaços de poder na eleição que acontece em 90 dias.
Mesmo com movimentos limitados à margem do frenesi da campanha, eles passaram os últimos seis meses empenhados em mostrar que não há muro de penitenciária capaz de impedi-los de participar do jogo eleitoral. À distância, José Dirceu (PT), Roberto Jefferson (PTB) e Valdemar Costa Neto (PR) entraram na disputa pelos governos federal e estaduais.
— Quem comanda é o Lula e os que estão presos — atestou Jorge Picciani, presidente do PMDB no Rio, ao explicar às repórteres Juliana Castro e Maiá Menezes a origem da aliança no estado de Dilma Rousseff e Lindbergh Faria (PT) com Anthony Garotinho (PR).
Ex-aliado de Lula e Dirceu, Picciani aprendeu a identificar as digitais de ambos na cena política fluminense. Testemunhou, por exemplo, como eles decapitaram sucessivamente as candidaturas dos petistas Vladimir Palmeira, Benedita da Silva e Alessandro Molon ao governo e à prefeitura da capital, em acordos com os ex-governadores Garotinho e Sérgio Cabral.
Desta vez, a ofensiva de Lula e Dirceu no Rio importunou tanto o PMDB de Picciani e Cabral quanto o PTB de Roberto Jefferson.
Dirceu, da prisão, destacou três escudeiros (Washington Quaquá, Marcelo Sereno e Alberto Cantalice) para avançar com o PT no interior, no rastro do ex-governador Garotinho. Lula, com Dilma, atuou para submeter o candidato do PRB, Marcelo Crivella, à liderança de Garotinho.
A reação veio na coligação do PMDB local com o PSDB de Aécio Neves e o DEM de Cesar Maia. Resultado: no Rio, Dilma deve ser excluída dos dez minutos de propaganda estadual do PMDB — manobra que pode acabar estendida a estados onde peemedebistas rejeitam o PT como aliado.
Foram a ambição e o fascínio pelo poder que levaram José Dirceu e Roberto Jefferson à luta e à cadeia. Em 2002 uniram-se em torno de Lula, e expuseram a política brasileira como um mercado, no qual a moeda de troca são cargos nos ministérios, empresas e fundos de pensão estatais — estratégicos pelo potencial de negócios, pela capacidade de privilegiar aliados e de atrapalhar adversários.
O personalismo derivou em embate pessoal, que continua. Do presídio Ary Franco, no Rio, Jefferson discretamente orientou seu PTB a migrar para a oposição. Com um toque de requinte, o partido programou o anúncio da aliança com Aécio para o dia da sagração da candidatura de Dilma à reeleição.
Da cela na Papuda, Valdemar Costa Neto exibiu-se como “o chefe” do PR na Esplanada dos Três Poderes. Mobilizou soldados e fez a presidente devolver o orçamento dos Transportes a um de seus mais fiéis pajens. Dilma cedeu. Levou em troca um minuto e quinze segundos extras de tempo para a sua propaganda em rede nacional. Em seguida, imolou-se em chamas de autopiedade: “A vida é muito mais complexa do que parece.”
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