domingo, 25 de fevereiro de 2018

Possível reeleição de Maduro, celerado comparsa do Lula, deve acelerar emigração de venezuelanos


Em movimento. Venezuelanos se aglomeram na fronteira com a Colômbia: analistas temem que a imigração aumente ainda mais após as eleições de abril, quando Nicolás Maduro poderá se reeleger - CARLOS EDUARDO RAMIREZ / REUTERS


Janaína Figueiredo, O Globo


BUENOS AIRES - A decisão do governo Nicolás Maduro de antecipar as eleições presidenciais de dezembro para abril aprofundou a crise política e social em que a Venezuela está mergulhada e colocou os governos do continente em estado de alerta. Dentro do país, cresce a sensação de que uma eventual saída do chavismo será traumática. Há dúvidas sobre se a oposição, dividida, conseguirá consolidar o que chamou de Frente Ampla Nacional, integrada, além dos partidos políticos, por sindicatos, Igreja Católica e universidades. Externamente, governos da região dividem esforços entre condenar e isolar o governo e lidar com o expressivo êxodo de venezuelanos, que, segundo analistas, deverá crescer ainda mais depois das presidenciais. Sem a participação dos principais partidos da oposição, foi criado o cenário para a reeleição de Maduro, embora sua rejeição chegue hoje a 80%.


“The Wall Street Journal” comparou a crise humanitária venezuelana com o drama sírio. Na opinião do senador eleito chileno José Miguel Insulza, ex-secretário-geral da Organização de Estados Americanos (OEA), trata-se de um exagero, mas que poderá tornar-se real.
— Não vejo saída a não ser esperar que o próprio colapso, principalmente econômico, obrigue Maduro a sair — disse Insulza ao GLOBO.

Para ele, o chefe de Estado está cercado e não admite deixar a Presidência porque suas duas únicas opções são “poder ou prisão”.

Venezuelanos cruzam ponte entre San Antonio del Tachira, na Venezuela, e o norte de Santander, na Colômbia - GEORGE CASTELLANOS / AFP

O Chile é um destino cada vez mais procurado pelos venezuelanos, e Insulza acredita que o presidente eleito Sebastián Piñera, que retornará ao Executivo em 11 de março, poderia aplicar uma política migratória mais rigorosa do que a da atual chefe de Estado, Michelle Bachelet, indo na contramão de países como Peru e Argentina.

Embora a Venezuela tenha sido suspensa do Mercosul no ano passado, seus cidadãos continuam sendo beneficiados pelas regras internas do bloco. A Argentina, que no ano passado concedeu residência a 31 mil venezuelanos, anunciou recentemente sua decisão de reconhecer diplomas de universidades da Venezuela. Nos últimos cinco anos, o número de venezuelanos que pediu para instalar-se no país cresceu 1.600%. Já o Peru — onde vivem 100 mil venezuelanos — ampliou os prazos para conceder a chamada “permissão temporária de permanência”.

— A solidariedade dos vizinhos é importante, mas este problema deve ser resolvido pelos venezuelanos. Sou contra qualquer tipo de golpe ou intervenção estrangeira, mas reconheço que, se o governo Maduro continuar assim, esse tipo de alternativa ganhará força — apontou Xabier Coscojuela, chefe de redação do jornal venezuelano“Tal Cual”.

O impasse político agravou-se ainda mais com o pedido feito pelo Palácio de Miraflores de que as eleições legislativas, previstas para 2020, também sejam antecipadas para este ano. A Assembleia Nacional tem maioria opositora desde a eleição de 2015, mas foi tolhida pela eleição da Assembleia Constituinte convocada por Maduro no ano passado.

Não há estatísticas oficiais, mas a Universidade Central da Venezuela (UCV) estima que, desde a chegada ao poder de Hugo Chávez, em 1999, 3 milhões deixaram a Venezuela, de um total de 31,5 milhões de habitantes. Deste total, estima-se que metade deixou o país depois de 2015. Uma pesquisa da Consultores 21 calculou, no mesmo período, um êxodo de 4 milhões de venezuelanos, com 56% deles rumando para outros países da América do Sul. Só na Colômbia, já são mais de 500 mil, uma bomba relógio que o presidente Juan Manuel Santos deixará para o vencedor das presidenciais do primeiro semestre deste ano.

A situação na fronteira é explosiva, e levou o governo Santos a redobrar os controles. O caso colombiano é complexo e representa riscos para a segurança nacional, já que existe participação confirmada de cidadãos venezuelanos em ações do Exército de Liberação Nacional (ELN), envolvido no conturbado processo de paz local.

— O ELN é uma guerrilha guevarista e castrista. Em seus últimos atentados urbanos, apareceram pessoas que tinham entrado no país pela Venezuela, algo similar ao que acontece na Europa com os terroristas de grupos como o Estado Islâmico — afirmou Mauricio Vargas, colunista do jornal “El Tiempo”.

Policiais choram em funeral de colegas mortos em atentado contra delegacia em Barranquilla - JOSE TORRES / AFP

O panorama sombrio para a oposição, somado à possibilidade de reeleição do presidente, deverá acelerar ainda mais a sangria nas fronteiras venezuelanas. Para Coscojuela, a opção da Mesa de Unidade Democrática (MUD) de não participar das presidenciais foi um erro, e não ficou claro o que significa o termo “abstenção ativa”, usado pelos oposicionistas.

— Uma campanha eleitoral obriga a gerar uma mobilização, lança um candidato que percorre o país, injeta ação no movimento político. Sem campanha, o que será feito? — perguntou o chefe de redação do “Tal Cual”.

A diáspora venezuelana foi estudada pela Consultores 21, cujo diretor, Nicolás Toledo, também teme um aumento do êxodo nos próximos meses.

— Esta Frente Ampla Nacional só pode dar certo se for realmente ampla, se houver unidade. Se já nascer fraturada, estará condenada ao fracasso. É preciso voltar às bases e falar dos problemas do povo.

Presidente Nicolás Maduro e sua mulher, Cilia Flores, posam para fotos em evento com apoiadores em Caracas, na Venezuela - HANDOUT / REUTERS