segunda-feira, 7 de agosto de 2017

"Maduro, o novo estorvo do PT", por Mathias Alencastro

Associated Press
In this photo released by Miraflores Press Office, Venezuela's President Nicolas Maduro shows his ballot after casting a vote for a constitutional assembly in Caracas, Venezuela on Sunday, July 30, 2017. Maduro asked for global acceptance on Sunday as he cast an unusual pre-dawn vote for an all-powerful constitutional assembly that his opponents fear he'll use to replace Venezuelan democracy with a single-party authoritarian system. (Miraflores Press Office via AP) ORG XMIT: XFLL101
O ditador Nicolás Maduro exibe o primeiro voto na eleição para a Assembleia
Constituinte na Venezuela


Folha de São Paulo


A realização de uma Assembleia Constituinte na Venezuela, proposta institucional idealizada por Nicolás Maduro contra um parlamento eleito há pouco mais de um ano e no qual pontifica uma maioria da oposição, lembra o movimento do Congresso brasileiro contra a presidente Dilma Rousseff no ano passado.

Quando o voto direto não levou ao resultado esperado, uma parte da classe política inventou um novo pleito. E porque a Constituição não atendia às suas necessidades, esmiuçaram a Constituição. É possível contestar o impeachment brasileiro e ao mesmo tempo denunciar a Constituinte venezuelana.

À semelhança de países como Angola e Irã, a governabilidade da Venezuela está atrelada ao preço do petróleo. O Petro-Estado tem como características a verticalização de poder, a ausência de capacidade tributária e a enorme vulnerabilidade a choques externos. Essas particularidades foram exacerbadas por Hugo Chávez, que lastreou o seu programa macro-econômico na crença de que o petróleo atingiria 200 dólares. O Petro-Estado, a história ensina, é um barco que afunda por ordem do seu comandante.

A ingerência dos Estados Unidos, a radicalidade da oposição local e até a instabilidade política regional podem ter intensificado a crise deflagrada pelo término do superciclo das commodities. Todavia nenhum desses fatores justifica a ruptura de Maduro com a conquista mais perene da era Chávez: a Constituição de 1999.

Nesse contexto, a atitude do Partido dos Trabalhadores, que reiterou o seu apoio a Maduro, é incompreensível. A associação ao regime venezuelano pode se tornar um estorvo para o partido na sua busca por uma nova dinâmica. Na França, Jean-Luc Mélenchon, que estava perto de chegar ao segundo turno das eleições presidenciais, perdeu pontos decisivos por conta do seu tropismo bolivariano. Na Espanha, o Podemos, coqueluche da esquerda, enfrenta semelhante problema.

Num momento em que o apoio da opinião internacional desempenha um papel fundamental na estratégia de defesa ex-presidente Lula, o posicionamento do PT afasta, em vez de agregar, potenciais aliados. Os grandes jornais, partidos e lideranças políticas da social democracia europeia, que criticaram ou se abstiveram de apoiar o impeachment de Dilma Rousseff, são inequivocamente contra a Constituinte de Nicolás Maduro. Do ponto de vista da relação de forças internacional, o apoio e solidariedade a Maduro pode se revelar um tiro no pé do Lula disparado pelo seu próprio partido.

Existem outros caminhos para preservar as conquistas sociais da chamada "virada à esquerda" da América Latina além da deriva autoritária. Na Bolívia, Evo Morales tem mostrado que é possível conciliar distribuição radical e estabilidade macroeconômica em um país dependente de recursos naturais. 

No Equador, a guinada ao centro do governo Lenin Moreno deu novo fôlego ao movimento de Rafael Correa. Maduro é uma exceção entre os atuais governos progressistas latino-americanos, que o PT quer tratar como regra. Corre o risco de isolar-se com ele.

7.mar.2013/AFP
Acompanhados de Nicolás Maduro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a então presidente Dilma Rousseff prestam última homenagem ao presidente venezuelano Hugo Chávez, durante seu enterro na Academia Militar em Caracas (Venezuela), em 2013
Acompanhados de Nicolás Maduro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a então presidente Dilma Rousseff prestam última homenagem ao presidente venezuelano Hugo Chávez, durante seu enterro na Academia Militar em Caracas, em 2013

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