sexta-feira, 5 de junho de 2026

'O poder desembarca em Lisboa', escreve Cristyan Costa

O Gilmarpalooza 2026 reuniu em Lisboa figurões menos interessados nas investigações sobre o escândalo do Banco Master do que na censura das redes sociais


Encerramento do Fórum de Lisboa, com a presença do ministro Alexandre de Moraes e de sua mulher, Viviane Barci — 02/06/2026 - Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

E m novembro de 1807, diante do avanço das tropas de Napoleão, a corte portuguesa — formada por nobres, magistrados e outros súditos de Dom João VI — zarpou rumo ao Brasil para preservar o centro do poder do Império. A esquadra aportou em Salvador em janeiro do ano seguinte, transferindo para o outro lado do Atlântico o coração político do Reino de Portugal. Duzentos e dezoito anos depois, o movimento se repete, mas em sentido inverso. 

Desde 2013, parte da elite política, jurídica e empresarial brasileira comparece ao Fórum de Lisboa, evento idealizado por Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF). Neste junho, o 14° encontro reuniu 2.867 participantes — sendo 432 palestrantes — que se dividiram entre os 70 painéis. Durante três dias, ministros, parlamentares, empresários, banqueiros, advogados e dirigentes de órgãos públicos ocuparam auditórios, restaurantes, hotéis e eventos exclusivos da capital portuguesa — bem longe do escrutínio público. 


“Gilmarpalooza” 

Com o passar dos anos, o congresso que surgiu sob o propósito de discutir temas acadêmicos ganhou um apelido mais conhecido que seu próprio nome. Inspirada no festival de música Lollapalooza, a expressão “Gilmarpalooza” se popularizou na imprensa à medida que os debates começaram a atrair não apenas professores e pesquisadores, mas também a nata dos Três Poderes e, claro, do empresariado. 


Fachada do JNcQUOI Club, em Lisboa, onde ocorreu o evento do Instituto Esfera — 31/5/2026 - Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

Oficialmente, a edição deste ano seria sobre “soberania digital” e “enfrentamento do tecnofeudalismo”. Na prática, porém, os debates se concentraram em temas como regulação das redes sociais, “combate à desinformação”, controle do Estado no entorno da inteligência artificial (IA) e novos mecanismos de governança (e censura) das plataformas digitais. Em diferentes painéis, o tema da regulação apareceu sob variadas roupagens, sempre com críticas à IA e às supostas notícias falsas que poderiam mudar o resultado de qualquer eleição. 

Na abertura do fórum, o ministro Alexandre de Moraes (único integrante do STF presente, além do anfitrião) defendeu essa agenda veementemente ao sustentar que a regulação das redes exige “coordenação internacional”. Moraes chegou a citar o papa Leão XIV ao defender “esforços globais para enfrentar o poder das big techs”. 

A avaliação foi acompanhada por Mendes, que voltou a defender “mecanismos mais robustos de governança digital” e maior capacidade de atuação dos Estados diante das empresas de tecnologia. Mendes elogiou ainda os decretos do presidente Lula que fortalecem a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). Criada apenas para proteger os brasileiros de possíveis vazamentos, além de orientálos caso isso ocorra, a ANPD também poderá fiscalizar os conteúdos publicados nas plataformas digitais. A discussão passou ainda pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Indicada pelo presidente Lula para a Corte sob a bênção de Flávio Dino, a ministra Estela Aranha criticou o que chamou de “colonialismo digital” e defendeu maior protagonismo dos países na definição das regras que regem o ambiente virtual. Estela nem sequer mencionou o aparato de vigilância que já existe no TSE, atualmente, sob o guardachuva da Assessoria Especial de Enfrentamento da Desinformação, órgão responsável por censurar inúmeros perfis nas redes sociais na disputa eleitoral de 2022 — nesse departamento, trabalhou Eduardo Tagliaferro, responsável por revelar o escândalo da “Vaza Toga”. 

O presidente da OAB, Beto Simonetti, acrescentou que “a Justiça não cabe em um algoritmo” e reafirmou a manutenção da “supervisão humana nas decisões judiciais”. As falas ilustraram uma característica recorrente do fórum. Embora os painéis abordassem temas distintos, da inteligência artificial às eleições, grande parte das discussões terminava no mesmo ponto: a necessidade de ampliar a supervisão e a censura à internet — tudo isso em pleno ano eleitoral, em um cenário de empate técnico entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Nem todas as apresentações permaneceram restritas ao universo digital. Em um dos debates mais acalorados do encontro, a ministra do Tribunal Superior do Trabalho Morgana Richa — namorada de Gilmar Mendes — e o deputado federal Leo Prates (PDT-BA), relator da proposta, divergiram acerca dos impactos econômicos e sociais do fim da escala 6×1, um tema que não tinha tanta relação com o escopo principal da cerimônia. 

Curiosamente, os painéis mais comentados do fórum foram justamente aqueles que escaparam da pauta dominante da soberania digital. As apresentações de Iván Duque, ex-presidente da Colômbia, Thomas Friedman, jornalista do New York Times, Joel Mokyr, prêmio Nobel de Economia, Magda Chambriard, presidente da Petrobras, e Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, atraíram auditórios relativamente cheios ao tratar de temas como segurança pública, economia, energia e competitividade. 

O encontro ocorreu sob circunstâncias diferentes das edições anteriores. Realizado meses após o tsunami provocado pelo escândalo do Banco Master e em meio ao debate sobre a criação de um Código de Ética para o STF, o fórum registrou uma edição bem menos estrelada. O Gilmarpalooza 2026 contou com menos autoridades de peso do que em anos anteriores, cenário que contrastou com o auge do evento observado na primeira metade da década. Em 2025, por exemplo, cinco juízes do STF prestigiaram a cerimônia.







Agenda extraoficial 

O verdadeiro interesse dos participantes do Gilmarpalooza está longe dos auditórios da Universidade de Lisboa, numa programação paralela que movimenta a capital portuguesa durante os três dias de evento. São nesses encontros, jantares e happy hours que empresários, lobistas, dirigentes partidários, banqueiros, advogados e magistrados discutem seus próprios interesses em conversas ao pé do ouvido.

Já no domingo à noite, parte dos convidados circulava por restaurantes, clubes e recepções privadas. O primeiro grande ato ocorreu no JNcQUOI Club, um dos cartões postais mais famosos da Avenida da Liberdade (uma mistura de Avenida Paulista com Rua Oscar Freire, por causa da extensão e da quantidade de lojas de grife, como Louis Vuitton, Cartier e Prada). Promovido pelo Instituto Esfera — espécie de centro de estudos e articulação entre homens de negócios e poder público —, o jantar reuniu o empresário João Camargo, presidente do grupo, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, Mendes, Morgana, o ministro aposentado Luís Roberto Barroso, o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski e o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, entre outros convidados. 


O vice-presidente do STJ, Luis Felipe Salomão, em happy hour com outros ministros no restaurante

Não muito longe dali, outra parte do establishment saboreava bife de tártaro, arroz de pato confitado com queijo chèvre, acompanhado de vinho do Porto, no prestigiado e tradicional restaurante Sacramento do Chiado. Entre os presentes estavam Lewandowski (que ficou pouco no rega-bofe do Esfera), Moraes, sua mulher, Viviane Barci, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Luis Felipe Salomão (cujo sonho é ganhar uma toga do Supremo e consolidar o triunfo do seu grupo no judiciário fluminense sobre o rival Luiz Fux), e o ministro Benedito Gonçalves, que teve rejeitado o ingresso no TSE. Salomão assumirá o comando do STJ em agosto. 

Entre 2022 e 2024, como corregedor nacional de Justiça, abriu uma série de procedimentos disciplinares contra magistrados críticos de Moraes e do próprio Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Gonçalves, por sua vez, está prestes a ampliar sua influência no Judiciário. Na próxima semana, o plenário do Senado vai analisar sua indicação para a corregedoria do CNJ, a mesma ocupada por Salomão. Gonçalves foi corregedor-geral da Justiça Eleitoral durante as eleições de 2022, relatou ações que resultaram na inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro no ano seguinte e também conduziu a cassação do exdeputado Deltan Dallagnol (Novo-PR). É de Gonçalves a frase “missão dada é missão cumprida”, dirigida a Moraes, que vazou numa sessão do TSE. 

No happy hour, Moraes, que há quase um mês mantém suspensa a Lei da Dosimetria aprovada pelo Congresso Nacional, passou boa parte da noite conversando com Motta, presidente da Casa que aprovou o projeto de redução das penas dos presos do 8 de janeiro. Enquanto isso, Viviane observava atentamente a movimentação ao redor da mesa. Desde dezembro de 2025, ela ainda não explicou o contrato de R$ 129 milhões entre seu escritório de advocacia e o agora falido Banco Master. No dia seguinte, durante a participação de Motta no fórum, o parlamentar defendeu a necessidade de regular a IA e anunciou para junho deste ano a votação de um “grande projeto de lei” nesse sentido. 

A programação paralela prosseguiu na segunda-feira com novos encontros reservados. Um deles ocorreu no Jockey Club de Lisboa, no horário do almoço, no intervalo de um dos painéis. Entre os participantes estava Gonet, que comeu um lombo de bacalhau à brasa, enquanto degustava um vinho branco rodeado de acadêmicos e advogados com casos no STF. 

Na tarde do dia seguinte, Barroso, o ministro do TSE Floriano de Azevedo Marques e outras autoridades compareceram a um convescote no Solar dos Presuntos, reduto tradicional de estudantes de Direito da capital portuguesa e um dos “points” famosos da elite brasileira. O evento mais luxuoso daquele dia, contudo, ocorreu no SUD Lisboa, às margens do Rio Tejo. Patrocinada pelo BTG Pactual, a recepção reuniu empresários, magistrados, advogados e políticos em um ambiente marcado pela ostentação. 

Aston Martins, Ferraris e Mercedes-Benz chegavam sucessivamente ao local enquanto convidados circulavam entre vestidos de gala, ternos sob medida e algumas das figuras mais influentes da vida pública nacional. Entre os presentes, o deputado federal Orlando Silva (PcdoB-SP), conhecido por usar o cartão corporativo para comprar uma tapioca enquanto era ministro do Esporte de Lula, o pastor Everaldo, vice-presidente do Podemos, e alguns cadáveres vivos da política nacional, como o expresidente da Câmara Rodrigo Maia (PSDB-RJ).

A agenda paralela se encerrou com mais dois encontros tradicionais do circuito lisboeta: a recepção organizada pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, realizada em um palacete do grupo Tivoli. O evento reuniu autoridades, empresários e integrantes da comunidade jurídica em mais uma noite de confraternização. Por fim, mais de cem advogados se reuniram no disputado terraço do JNcQUOI Club (com a presença de Gonet e seu filho) para discutir a política brasileira e até mesmo palpites a respeito da eleição deste ano no Brasil. Membros da Advocacia-Geral da União, que compareceram com dinheiro público, chegaram a comentar que “precisavam aproveitar bastante o evento, porque só se vive uma vez”.


O ministro Alexandre de Moraes, do STF, no restaurante Sacramento do Chiado, onde passou boa parte do jantar conversando com Hugo Motta — 31/05/2026 - Foto: Cristyan Costa/Revista Oeste

No happy hour, Moraes, que há quase um mês mantém suspensa a Lei da Dosimetria aprovada pelo Congresso Nacional, passou boa parte da noite conversando com Motta, presidente da Casa que aprovou o projeto de redução das penas dos presos do 8 de janeiro. Enquanto isso, Viviane observava atentamente a movimentação ao redor da mesa. Desde dezembro de 2025, ela ainda não explicou o contrato de R$ 129 milhões entre seu escritório de advocacia e o agora falido Banco Master. No dia seguinte, durante a participação de Motta no fórum, o parlamentar defendeu a necessidade de regular a IA e anunciou para junho deste ano a votação de um “grande projeto de lei” nesse sentido. 

A programação paralela prosseguiu na segunda-feira com novos encontros reservados. Um deles ocorreu no Jockey Club de Lisboa, no horário do almoço, no intervalo de um dos painéis. Entre os participantes estava Gonet, que comeu um lombo de bacalhau à brasa, enquanto degustava um vinho branco rodeado de acadêmicos e advogados com casos no STF. 

Na tarde do dia seguinte, Barroso, o ministro do TSE Floriano de Azevedo Marques e outras autoridades compareceram a um convescote no Solar dos Presuntos, reduto tradicional de estudantes de Direito da capital portuguesa e um dos “points” famosos da elite  brasileira. O evento mais luxuoso daquele dia, contudo, ocorreu no SUD Lisboa, às margens do Rio Tejo. Patrocinada pelo BTG Pactual, a recepção reuniu empresários, magistrados, advogados e políticos em um ambiente marcado pela ostentação. Aston Martins, Ferraris e Mercedes-Benz chegavam sucessivamente ao local enquanto convidados circulavam entre vestidos de gala, ternos sob medida e algumas das figuras mais influentes da vida pública nacional. 

Entre os presentes, o deputado federal Orlando Silva (PcdoB-SP), conhecido por usar o cartão corporativo para comprar uma tapioca enquanto era ministro do Esporte de Lula, o pastor Everaldo, vice-presidente do Podemos, e alguns cadáveres vivos da política nacional, como o expresidente da Câmara Rodrigo Maia (PSDB-RJ).

A agenda paralela se encerrou com mais dois encontros tradicionais do circuito lisboeta: a recepção organizada pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, realizada em um palacete do grupo Tivoli. O evento reuniu autoridades, empresários e integrantes da comunidade jurídica em mais uma noite de confraternização. Por fim, mais de cem advogados se reuniram no disputado terraço do JNcQUOI Club (com a presença de Gonet e seu filho) para discutir a política brasileira e até mesmo palpites a respeito da eleição deste ano no Brasil. Membros da Advocacia-Geral da União, que compareceram com dinheiro público, chegaram a comentar que “precisavam aproveitar bastante o evento, porque só se vive uma vez”. 

Distantes da realidade O grande ausente do Fórum de Lisboa foi justamente aquele que mais ajudou a definir sua edição de 2026. O escândalo do Banco Master não apareceu nos painéis principais. Não ocupou mesas de debate. Não foi tema das palestras mais concorridas. Ainda assim, pairava sobre praticamente todos os ambientes do Gilmarpalooza, dos auditórios da Universidade de Lisboa aos jantares reservados. A ausência talvez seja compreensível. O caso colocou sob escrutínio justamente o tipo de relação que ajudou a transformar o Fórum de Lisboa em um dos encontros mais influentes do país: a convivência permanente entre magistrados, empresários, políticos, banqueiros, escritórios de advocacia e agentes públicos. 

Durante anos, os organizadores e frequentadores do Gilmarpalooza insistiram que não havia nada de extraordinário nessa proximidade. O Master, todavia, mudou a forma como parte da sociedade passou a enxergar esse universo. Ainda assim, pouca coisa parece ter mudado. As recepções continuaram acontecendo. Os brindes continuaram sendo erguidos. Os mesmos personagens continuaram dividindo mesas, salões e contatos. Como se nada tivesse acontecido. 

Talvez a imagem que melhor sintetize a edição de 2026 tenha surgido justamente no encerramento do evento. Sentados lado a lado, Mendes, Gonet e Salomão assistiram à plateia aplaudir Moraes depois de o PGR elogiar a atuação do ministro nos processos relacionados ao 8 de janeiro. O Master não foi mencionado uma única vez. 

Essa foi a principal lição deixada pelo Gilmarpalooza 2026. Não a discussão sobre soberania digital. Nem os debates sobre IA. Nem as teses que trataram da regulação das redes sociais. A verdadeira mensagem veio dos bastidores. Ela sugere que uma parcela da elite brasileira continua convencida de que não precisa dar explicações. E que os brasileiros assistirão a tudo isso, ano após ano, como se fossem um bando de idiotas.

Cristyan Costa - Revista Oeste