Indignado com Trump, Lula enforca delator de Tiradentes
Foto: Montagem Revista Oeste
A vítima da semana foi a Inconfidência Mineira. “Por menos que isso, Joaquim Silvério dos Reis, que delatou Tiradentes, foi enforcado”, desandou o único presidente da República que nunca deu as caras num grupo escolar. Só acertou parte do nome de Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria Grutes. Nascido na cidade portuguesa de Monte Real, era dono de minas de ouro e coronel do Regimento de Cavalaria quando decidiu trair o movimento que fingia apoiar e revelou a autoridades portuguesas que a conspiração tinha como líder Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
O enforcamento de Silvério dos Reis só aconteceu na cabeça baldia de Lula. Como sabe até o último da classe da mais bisonha escola do país, Tiradentes é que foi enforcado e esquartejado. (E não em Ouro Preto, como Lula se refere à antiga Vila Rica, mas no Rio de Janeiro. As partes do corpo foram expostas ao longo do caminho que levava à então capital da capitania de Minas Gerais.) Protagonista da primeira delação premiada ocorrida no Brasil, Silvério foi contemplado pela Fazenda Real com o perdão da enorme dívida que havia contraído, além de outros favores. Descansou algum tempo em Lisboa, voltou ao Brasil, enriqueceu de novo e ocupou cargos públicos até morrer em São Luís do Maranhão em 1819. O presidente da República deveria saber que delatores não são punidos no país que de algum tempo para cá deixou de castigar também os criminosos delatados.
Lula teve tempo de sobra para aprender a ler e escrever, para assimilar informações básicas sobre história e geografia — para tornar-se, enfim, menos ignorante. Aos 80 anos, não tem emprego regular desde 1977, quando abandonou o ofício de torneiro mecânico para viver de discurseira. Se sobrou tempo, faltou vontade. “Ler é pior que exercício em esteira”, confessou quando já estava a caminho da Presidência da República. “Nunca estudei por preguiça”, admitiu no vídeo que registra um trecho da conversa com o diretor de teatro Flávio Rangel. A formação cultural indigente, portanto, não pode ser debitada na conta da infância pobre. É coisa de preguiçoso.
Sem ter folheado uma única biografia, sem pedir informações a súditos menos iletrados, o único deus da seita petista ama compararse a estadistas que desconhece ou apresentar-se como a reencarnação de figuras históricas de que mal ouviu falar. O macumbeiro vigarista nem precisa de terreiro para incorporar mortos ilustres. Bastam-lhe um palanque, um microfone, a plateia amestrada e, ultimamente, um chapéu panamá. Na lista dos preferidos aparecem Nelson Mandela, Mahatma Gandhi, Juscelino Kubitschek, Getúlio Vargas e Jesus Cristo. Além de Tiradentes, que desde o primeiro mandato presidencial anima as apresentações do pai de santo que gerou um Lulinha sem chances de canonização.
Perseguidos e castigados pelos portugueses que governavam a colônia, descendentes do Herói da Inconfidência mereciam sossego. Mas têm de suportar, em pleno século 21, as comparações destrambelhadas que Lula recita. Começaram em 2005, quando o presidente foi acuado pelo escândalo do Mensalão. Sem álibis convincentes a apresentar, Lula jurou que soube da roubalheira tarde demais. Fora traído por alguém ainda não identificado. “Isso faz parte da história da Humanidade”, começou o palavrório amalucado, reproduzido sem correções: “A gente poderia pegar a reunião dos Inconfidentes. Um traiu Tiradentes. Nem por isso Tiradentes deixou de ver acontecer a Independência pela qual ele foi esquartejado, sua carne salgada, pendurada nos postes”.
Em 2017, surpreendido pelos avanços da Operação Lava Jato, Lula voltou a 1792 para buscar consolo em Minas Gerais: “O herói não foi o cara que enforcou o Tiradentes. O enforcado é que virou o herói”. Em 2022, resgatado da prisão e devolvido ao Palácio do Planalto pelos companheiros do Supremo Tribunal Federal, declarou no meio de outra discurseira que Tiradentes foi crucificado. Luiz Inácio Lula da Silva não permite que Joaquim José da Silva Xavier descanse em paz.
Tiradentes amava a liberdade e a democracia, não parou de trabalhar com vinte e poucos anos de idade, jamais foi acusado de corrupto e nunca foi beberrão. Capturado pelos algozes, enfrentou o calvário com altivez. Corajosamente, reiterou o que pensava, responsabilizou-se pelo que fizera, não tentou salvar-se com acusações aos parceiros de conspiração. Foi condenado à morte por lutar pela independência do Brasil colonial. O chefão do PT foi condenado à prisão por lavagem de dinheiro e corrupção passiva. O obsceno código dos colonizadores instalou Tiradentes no cadafalso. Lula virou presidiário por ter atropelado o Código Penal. A única semelhança entre os dois é o Silva do sobrenome.
Augusto Nunes - Revista Oeste