quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Lenin estava certo, por Henry Hazlitt

 



Nota da edição:

Hoje é comemorado o aniversário da morte de Lenin, líder bolchevique da “Revolução” Russa de 1917. No texto a seguir, publicado em setembro de 1947 como um artigo de opinião para a revista Newsweek, Henry Hazlitt fala sobre uma das (raras) análises sobre o funcionamento do sistema capitalista que Lenin acerta.


Diz-se que Lenin declarou que a melhor maneira de destruir o sistema capitalista era desvalorizar a moeda. Lenin certamente estava certo. O processo mobiliza todas as forças ocultas da lei econômica a favor da destruição e o faz de um modo que nem um homem em um milhão é capaz de diagnosticar.

Nas etapas finais da segunda guerra, todos os governos beligerantes praticaram, por necessidade ou incompetência, aquilo que um bolchevique poderia ter feito de propósito. Mesmo agora, quando a guerra acabou, a maioria deles continua, por fraqueza, com os mesmos maus procedimentos. Mas, além disso, os governos da Europa, sendo muitos deles, neste momento, tão irresponsáveis em seus métodos quanto fracos, procuram direcionar para uma classe conhecida como “lucradores” a indignação popular contra as consequências mais óbvias de seus métodos viciosos.

Esses “lucradores” são, em termos gerais, a classe empreendedora dos capitalistas — isto é, o elemento ativo e construtivo de toda a sociedade capitalista — que, em um período de preços em rápida ascensão, não tem como evitar enriquecer rapidamente, queira isso ou não. Se os preços estão continuamente subindo, todo comerciante que tenha comprado para estoque ou que possua propriedades e instalações inevitavelmente obtém lucros. Ao direcionar o ódio contra essa classe, portanto, os governos europeus estão levando um passo adiante o processo fatal que a mente sutil de Lenin havia concebido conscientemente. Os capitalistas são uma consequência, e não uma causa, do aumento dos preços.

Esta coluna, até este ponto, deveria ter estado entre aspas, com alguns pontos para indicar omissões. O que precede não são minhas palavras, mas as palavras de John Maynard Keynes. Elas apareceram 27 anos atrás em As Consequências Econômicas da Paz (The Economic Consequences of the Peace). Se elas não se aplicam com uma precisão assustadora às condições atuais, é apenas porque as condições atuais são piores. Os governos europeus hoje, longe de se contentarem com denúncias contra o lucro, decretam que, independentemente do quanto tenham desvalorizado suas moedas, os preços em termos dessas moedas não devem subir. O resultado dessa interferência direta no mecanismo de mercado tem sido distorcer e impedir a produção. E desencadear uma crise mundial.

Isso é intensificado pelo controle de preços das próprias moedas de papel. Tornou-se crime para exportadores ou importadores comprar ou vender essas moedas de papel por menos do que suas taxas “oficiais” em termos de outras moedas. Isso levou a um violento desequilíbrio no comércio exterior e impediu que todos os processos normais de autoajuste ocorressem. Os governos europeus estão unidos, porém, em descrever seu problema como uma “escassez de dólares”, implicando assim que ele só pode ser curado por meio de novos e enormes empréstimos da América.

Nosso próprio governo aceita essa explicação de “escassez de dólares”. No entanto, há mais dólares em circulação hoje do que nunca. Entre junho de 1939 e junho deste ano, o total de depósitos à vista e a moeda fora dos bancos aumentaram de US$ 33.360.000.000 para US$ 108.500.000.000. Essa enorme enxurrada de dólares é a causa básica da alta de preços nesse período. Há mais de três vezes mais dinheiro do que antes disputando os bens americanos existentes. Nós também, em suma, desvalorizamos nossa moeda.

Isso vai ainda mais longe quando, com a ajuda de empréstimos governamentais no exterior, enviamos para países estrangeiros US$ 12.000.000.000 por ano em bens e serviços em excesso daqueles que recebemos. Os US$ 12.000.000.000 que distribuímos em salários, remunerações e lucros ao produzir essas exportações excedentes são um acréscimo ao poder de compra monetário que não é contrabalançado por um acréscimo em bens americanos. Somando-se ao aumento básico do poder de compra monetário, essas exportações excedentes têm sido a principal causa do recente aumento adicional nos preços.

Mas os funcionários do governo, em vez de reconhecerem essa inflação como resultado de suas próprias políticas, culpam a classe empresarial. Eles iniciam investigações e processos por “monopólio” que são tentativas mal disfarçadas de atribuir a culpa pelo aumento de preços aos empresários e de reimpor, pela porta dos fundos, o controle de preços por meio da intimidação. Líderes trabalhistas como Walter Reuther exigem a reimposição de controles de preços.


Henry Hazlitt - Mises Brasil