sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Carlo Cauti - 'O Banco Master chegou ao Planalto'

 Uma delação premiada de Vorcaro abalaria a República de uma forma que nunca se viu


Gabriel Galípolo, Daniel Vorcaro e Lula - Foto: Revista Oeste/Reprodução


D aniel Vorcaro se encontrou com Lula de forma sigilosa no dia 4 de dezembro de 2024. A reunião não foi inserida na agenda oficial do presidente. Mas a entrada do banqueiro no Palácio do Planalto aparece nos registros do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e foi divulgada somente após um pedido com base na Lei de Acesso à Informação (LAI). 

Apenas esse episódio justificaria uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Banco Master. Uma reunião secreta entre o presidente da República e o protagonista do maior escândalo bancário da história do Brasil é, por si só, uma indecência. 

Mas o que gera ainda mais ojeriza é que Vorcaro não esteve apenas uma vez no Planalto. Entre 2023 e 2024, ele entrou pelo menos outras quatro vezes na sede da Presidência. Quase certamente foi o banqueiro que mais pisou no Palácio no terceiro mandato de Lula. Até seu pai, Henrique Vorcaro, esteve no Planalto em reunião que não consta nas agendas oficiais divulgadas. Sem sequer ter um cargo no Banco Master. Como todos os escândalos do Brasil, tornou-se um caso de família. 

Em nota, o Palácio do Planalto negou qualquer encontro de Lula ou ministros com Daniel e Henrique Vorcaro nas datas registradas pelo GSI. Basicamente, chamou de mentirosos os responsáveis pela segurança do presidente, que teriam, portanto, forjado a entrada da dupla nos sistemas informáticos governamentais. Surrealismo palaciano. 

Uma reunião ocorrida no final de 2024 no Palácio do Planalto, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o empresário Daniel Vorcaro — dono do Banco Master — não constou na agenda oficial da Presidência, segundo reportagem do Metrópoles. O encontro, realizado no gabinete presidencial, teria durado cerca de uma hora e meia e contou com a presença de figuras do mundo político e financeiro.  

De acordo com o Metrópoles, além de Lula e Vorcaro, participaram da reunião o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega (que teria articulado o encontro), o governador Rui Costa o senador Alexandre Silveira o então indicado à presidência do Banco Central Gabriel Galípolo e o então CEO do banco, Augusto Lima. A ausência do encontro na agenda oficial gerou questionamentos sobre transparência por parte da Presidência.  

A informação sobre a reunião fora da agenda também foi apurada e publicada por outros veículos de economia e política, que confirmaram que o encontro foi realizado em dezembro de 2024 e relataram que Guido Mantega teve papel na articulação da reunião. Esses relatos reforçam a sequência factual trazida inicialmente pelo veículo.  

A omissão do registro na agenda oficial e a participação de nomes ligados ao governo e ao setor financeiro ocorrem em meio a apurações e investigações sobre operações vinculadas ao Banco Master, tema que ganhou destaque na imprensa e motivou alertas e pedidos de apuração por parte de autoridades e do mercado. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, comentou sobre o caso, dizendo que Galípolo “herdou” problemas relacionados ao Master e que a apuração deve ser feita com rigor pelas instituições competentes.  

A assessoria da Presidência, segundo o Metrópoles, não explicou publicamente o motivo da não inclusão do encontro na agenda oficial. Já para analistas e opositores, o registro tardio (ou a ausência de registro) levanta dúvidas sobre transparência e sobre a natureza dos temas tratados na reunião. 📸 MONTAGEM DE FOTOS REAIS NA IA View all 4,790 comments Add a comment...


O senador petista Jaques Wagner e o ex-ministro da Justiça de Lula, Ricardo Lewandowski: conflito de interesses - Foto: Montagem sobre reprodução nas redes sociais/IA

Indicado por Jacques Wagner ao cargo após uma tentativa fracassada de nomeá-lo presidente da Vale, Mantega finalmente começou a receber um salário suntuoso, adequado para resolver seus problemas financeiros. Sua função era apenas uma: abrir as portas dos palácios do poder em Brasília. Cumpriu a missão. 

Em setembro de 2023, o governo Lula anunciou uma medida inesperada: o pagamento de quase R$ 95 bilhões em precatórios por ano. Mesmo com uma PEC que limitava o pagamento para não sobrecarregar as contas públicas, e apesar de o orçamento público estar no vermelho profundo, o Executivo pediu ao Supremo a autorização para pagar essas dívidas tirando-as do Arcabouço Fiscal. O STF prontamente acatou. Uma avalanche de dinheiro entrou nos cofres de quem tinha comprado precatórios. O Banco Master foi um dos mais beneficiados com a medida. 

Na época, até mesmo Ciro Gomes se sentiu obrigado a criticar o Planalto, declarando em várias entrevistas que os precatórios iriam ajudar sempre os “mesmos bancos amigos do governo”. Ninguém fez nada. O pagamento de precatórios deu novo fôlego ao Master, que poderia ter quebrado muito antes caso não o tivesse recebido. Tudo decidido no mesmo palácio muito frequentado pela família Vorcaro. 


Contratações generosas 

Os contratos com Lewandowski e Mantega eram generosos. Mas nada comparável aos R$ 3,6 milhões mensais pagos pelo Master ao escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, em um contrato-monstro de R$ 130 milhões sem sequer um escopo bem definido. Ela, egressa do curso de Direito da Unip e sem nenhuma especialização, atuou em um único processo, movido pelo banco contra um investidor por difamação, e conseguiu perder em duas instâncias. 

O marido, por sua vez, foi mais incisivo e começou a pressionar o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para que encontrasse uma solução para o Master. Em um só dia, ligou seis vezes para o banqueiro central. Se não fosse um caso despudorado de advocacia administrativa, que é crime, seria stalking, que também é. 

Moraes teria se encontrado com Vorcaro na mansão de 1,7 mil metros quadrados e R$ 36 milhões do presidente do Master, para beber vinhos caros e fumar charutos, na mesma noite em que estaria presente no local o presidente do Banco Regional de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa. O encontro, revelado pelo portal Metrópoles, teria ocorrido em um fim de semana do primeiro semestre de 2025, quando o BRB começava o envolvimento na operação de compra do Master. Uma trapalhada grotesca, incompreensível para os especialistas desde o primeiro minuto após o anúncio, e que sequer o presidente do BRB conseguiu explicar nos meses seguintes. Tanto que, em setembro, o Banco Central vetou a aquisição e o Master foi liquidado poucas semanas depois.


O ministro Alexandre de Moraes, do STF, a mulher do magistrado, Viviane Barci, e o presidente Lula I Foto: Ricardo Stuckert/PR 


Mas nesse tempo, o BRB tinha repassado pelo menos R$ 12 bilhões ao Master, comprando carteiras de crédito podres. Um absurdo para um banco com uma receita bruta de cerca de R$ 1 bilhão por trimestre, e depois da liquidação do Master provocou uma crise financeira grave no BRB. A vergonha foi tamanha que o banco não publicou os balanços dos últimos dois trimestres. E tentou recrutar influenciadores digitais do setor financeiro para espalhar informações positivas sobre a gestão bancária. 

Modus operandi já visto no final de 2025, quando outra milícia digital teria sido contratada pelo Master para falar mal do Banco Central e criticar a liquidação. Em um e-mail surreal, a assessoria do BRB chegou a escrever “Nota Fiscal poderá ser emitida após a assinatura do contrato” e “Pagamento em 40 dias”. O banco negou ter conhecimento da ação. 

O ministro Moraes soltou uma nota definindo a matéria do Metrópoles como “falsa e mentirosa” e que “segue um padrão criminoso de ataques desqualificados contra os integrantes do Supremo Tribunal Federal”. 

O Metrópoles não retrocedeu um milímetro e manteve todas as informações. Se isso tivesse acontecido há 24 meses, a Polícia Federal já estaria fazendo busca e apreensão na redação do portal e os repórteres teriam sido incluídos no Inquérito das Fake News por “desordem informacional” e “ameaça ao Estado Democrático de Direito”. 

Nada aconteceu. 

Sinal dos tempos e de um Supremo cada vez mais acuado. Até pelo fato de Moraes ter arquivado em março de 2025, mesmo período em que frequentava a mansão de Vorcaro, o inquérito que investigava o governador do Distrito Federal (DF), Ibaneis Rocha (MDB), por suposta omissão na contenção dos atos de 8 de janeiro de 2023 em Brasília. Ibaneis tinha sido afastado do cargo por 90 dias pelo próprio Moraes no dia seguinte aos protestos. Quase perdeu o cargo por um impeachment liderado por sua vice. E foi o único que viu sua posição arquivada por ausência de elementos probatórios.


O governador Ibaneis Rocha convidou Nelson Souza para presidir o BRB - Foto: Reprodução/ Redes sociais

Poucos dias depois do arquivamento da investigação, o BRB, banco público do Distrito Federal, comunicou a compra do Master. O presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi nomeado por Ibaneis. E o governo do DF fez de tudo para agilizar essa compra, enviando a toque de caixa a autorização para a Assembleia Legislativa, que a aprovou em quatro dias, sem sequer ter recebido os relatórios fiscal e de riscos. Coincidências. 

Em depoimento à Polícia Federal, Vorcaro admitiu que falou com Ibaneis sobre a compra do Master pelo BRB. Os dois se encontraram pelo menos quatro vezes nos últimos dois anos. Algumas delas, na mansão de Vorcaro. 


Descalabro Toffoli 

Se isso tudo pode parecer espúrio, representa apenas a parte visível da encrenca. O que é realmente escabroso são os irmãos e um primo do ministro do STF Dias Toffoli se tornando sócios de fundos do Master em um hotel de luxo no Paraná. Pessoas que nunca administraram uma pensão estudantil de terceira categoria, que viviam e continuam vivendo apertos financeiros, e que inesperadamente se tornam proprietários do Tayayá Resort, em Ribeirão Claro. Um dos irmãos, inclusive, é padre. Que com certeza não fez voto de pobreza. Suas participações foram adquiridas por valores milionários pelo fundo Arleen, gerenciado pelo Master e controlado por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. 

Toffoli era um assíduo frequentador do resort e é apontado como o real proprietário por funcionários do local. Mesmo assim, não teve qualquer problema em se tornar juiz do caso Master no Supremo, decretar sigilo absoluto, suspender qualquer operação policial por mais de 15 dias e mandar até mesmo recolher e lacrar as provas já obtidas pelos investigadores e enviá-las para Brasília.

Em 2025, a propriedade do Tayayá Resort passou antes para Alberto Leite, amigo de Toffoli, que chegou a acompanhá-lo na final de Champions League em Londres em 2024, e em seguida foi vendida para Paulo Humberto Barbosa, advogado da JBS. Toffoli nunca parou de se hospedar no local.


Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli - Montagem: Revista Oeste/Shutterstock/Reprodução 


Fala, Vorcaro! 

As ligações obscuras entre o presidente do Master e Brasília não se limitam ao Executivo e ao Judiciário. O Legislativo também está envolvido até os cabelos. Exemplos são as “emendas Master” apresentadas por expoentes do centrão para favorecer descaradamente o banco. Uma delas foi a do senador Ciro Nogueira (PP-PI), que, em agosto de 2024, tentou na malandragem alterar a PEC que garante autonomia financeira ao Banco Central e enfiar uma emenda que aumentava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Não colou. 

Outra tentativa, em setembro de 2025, foi a de amedrontar os diretores do Banco Central. Os deputados Claudio Cajado (PP-BA) e Doutor Luizinho (PP-RJ) concediam ao Congresso a prerrogativa de demitir diretores do Banco Central se sua atuação fosse considerada “incompatível com os interesses nacionais”. 

Sem sequer detalhar critérios técnicos para isso. A proposta contou com o apoio de 300 parlamentares e foi apresentada no mesmo mês em que o Banco Central rejeitou a compra do Master pelo BRB. Não passou por pouco. Além de todas essas informações sobre as ligações entre Vorcaro e Brasília, há muito mais elementos dentro do telefone do banqueiro, apreendido pela PF, e na própria cabeça dele. Os promotores estariam tentando negociar um acordo de delação premiada e abrir o telefone para reconstruir essa teia de relacionamentos e, eventualmente, apurar se havia ilícitos por lá. Por enquanto, sem sucesso. 

Vorcaro se entrincheira em um silêncio cúmplice. 

Mas se ele voltar para a cadeia e perceber que está sozinho nessa guerra, que perdeu o banco para sempre, que seu patrimônio pessoal está sob sério risco, dificilmente vai se segurar. Uma delação premiada do banqueiro abalaria a República de uma forma que nunca se viu. Uma bomba nuclear pronta para explodir nas eleições de 2026. Pelo bem do Brasil, fala, Vorcaro!


Carlo Cauti - Revista Oeste