A caminhada improvisada de 250 quilômetros até Brasília colocou na estrada milhares de brasileiros que saíram da apatia e perderam o medo de lutar pela liberdade
C
omo levar novamente o povo para as ruas? A ideia de
organizar uma ampla manifestação popular surgiu pela
primeira vez em julho do ano passado, quando o deputado
federal Nikolas Ferreira refletia sobre a escalada do
autoritarismo judiciário no país. Naquele momento, dois anos e meio
depois dos protestos de 8 de janeiro de 2023, o debate público parecia
travado, as mobilizações de rua haviam perdido eficácia e os
brasileiros davam sinais de apatia e esgotamento político.
Mas foi só poucos dias atrás que a proposta de uma marcha até
Brasília ganhou forma. Não haveria palanque, caminhão de som nem
aparato profissional de mobilização. Tampouco haveria custos, verbas
partidárias ou negociações com autoridades para viabilizar o evento.
Nikolas decidiu simplesmente ir. E, em 19 de janeiro, ele foi.
Vestindo camiseta branca, calça jeans clara e tênis preto, Nikolas
pisou na BR-040 junto com o nascer do sol. Aquele foi o primeiro
passo da jornada de 250 quilômetros que o levou da cidade de
Paracatu, no noroeste de Minas Gerais, até a Praça do Cruzeiro,
mirante de onde se avistam o Congresso Nacional, o Palácio do
Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF).
Começou quase sozinho, ao lado de poucos assessores e sem grandes
preparativos. Aos poucos, moradores das cidades cortadas pela rodovia passaram a se juntar ao cortejo. Depois, vieram caravanas
improvisadas e gente sozinha. Políticos de partidos de oposição
também decidiram aderir ao grupo — alguns logo no início, outros
apenas nos quilômetros finais.
Em 25 de janeiro, um domingo, quando chegou ao destino, Nikolas
estava acompanhado de cerca de 50 mil pessoas de todas as partes do
Brasil. O foco do protesto, que acabou se consolidando como uma das
maiores mobilizações populares da história recente do país, foi o
pedido de liberdade para o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso e
condenado pela suposta tentativa de golpe nas eleições de 2022.
.
Dr. Simon Goddek
@goddek · Seguir
Remember the scene where Forrest Gump starts
running and thousands of people end up following
him?
The future Brazilian president @nikolas_dm did
something similar.
He started a protest by walking alone all the way to
Brasília: against the left, corruption, communism,
and Mostrar mais
Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro participaram da Caminhada pela Liberdade e Justiça, liderada pelo deputado Nikolas
Ferreira - Foto: Reuters/Mateus Bonom
O percurso revelou desafios pouco captados nos registros editados das
redes sociais. Nos primeiros dias, o desgaste físico se impôs
rapidamente. Vestidos com roupas comuns, inadequadas para longas
caminhadas, muitos participantes ajustaram o passo à medida que o
corpo dava sinais de exaustão. Com o avanço da marcha, surgiram
dificuldades de organização. Crianças e idosos tentavam acompanhar
o grupo; apoiadores buscavam aproximação constante. Em alguns
trechos, foi necessário interromper a caminhada para improvisar
cordões humanos e evitar acidentes na rodovia. Houve dias de chuva,
frio e cansaço acumulado. Oeste acompanhou a manifestação in loco
(clique neste link para saber os detalhes).
Ao longo da caminhada, Nikolas passou a receber manifestações
públicas de apoio das principais lideranças conservadoras. A exprimeira-dama Michelle Bolsonaro, por exemplo, divulgou vídeos para
elogiar a iniciativa e Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo,
destacou o simbolismo do ato. Em Minas Gerais, o governador Romeu
Zema endossou publicamente a marcha até Brasília. Já o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, gravou
vídeos para parabenizar a mobilização, enquanto o ex-vereador Carlos
Bolsonaro, pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, participou da
marcha. A caminhada cessou ao menos temporariamente as rusgas
entre os representantes da direita e os uniu em torno de um objetivo
comum.
Essa capacidade de mobilização se traduz em cenas recorrentes no
cotidiano do Congresso. O gabinete de Nikolas, no sétimo andar do
Anexo IV da Câmara, é ponto de passagem para candidatos de
diferentes regiões do país. Há relatos de filas que ultrapassam quatro
horas apenas para a gravação de um vídeo curto ou para uma
fotografia ao lado do parlamentar. Quando a agenda de votações o
mantém no plenário, os interessados o acompanham pelos
corredores. O roteiro é sempre o mesmo: Nikolas olha para a câmera
do celular, menciona o nome do candidato, pede voto e segue para o
próximo. Em eventos públicos, a dinâmica se repete em escala
ampliada. Em uma única passagem por Belo Horizonte, o parlamentar
gravou mais de 200 vídeos de apoio em um mesmo dia. Mas não são só
apoiadores anônimos que se beneficiam dessa popularidade:
deputados como Luciano Zucco e Filipe Barros, ambos com trajetória
consolidada na política, relatam ter usado a influência de Nikolas para
gravar dezenas de mensagens de apoio. O parlamentar virou ativo de
campanha dentro do Partido Liberal (PL).
Em nome do pai
Nascido em Belo Horizonte, em 1996, Nikolas cresceu na região da
Cabana do Pai Tomaz, uma das maiores favelas da capital mineira. O
bairro, marcado pela forte presença de igrejas evangélicas, funciona
como espaço de convivência comunitária, onde atividades religiosas e
familiares estruturam a vida social. Nesse contexto, o pai de Nikolas,
pastor Edésio de Oliveira, teve papel central na formação religiosa e
moral do filho. A rotina era marcada por cultos e leituras bíblicas.
Hoje, Nikolas costuma dizer que a formação familiar o forjou para a
vida real. Sob orientação do pai, aprendeu a falar em público, a
sustentar argumentos e a confrontar ideias distintas.
Antes de se dedicar integralmente à vida religiosa, Edésio, que vem de
uma família de 12 irmãos, construiu trajetória no setor industrial.
Começou a carreira como of ice-boy em empresas ligadas ao grupo Fiat
e, posteriormente, passou a atuar na New Holland, fabricante de
tratores. Ao longo dos anos, ascendeu a funções técnicas e de gestão.
Chegou a começar a graduação em engenharia mecânica e, mais tarde,
prestou vestibular para psicologia, ao mesmo tempo em que mantinha
atuação como obreiro na Assembleia de Deus. Em 2008, Edésio
assumiu um setor da New Holland com escritório instalado na França.
A mudança levou a família a viver nos arredores de Paris por cerca de
um ano. Nesse período, Nikolas e a irmã mais velha estudaram em colégio bilíngue, com ensino em francês e inglês. A experiência no
exterior terminou quando Edésio decidiu retornar ao Brasil para
atender ao que descreve como um chamado pessoal: dedicar-se
integralmente à Comunidade Evangélica Graça e Paz, igreja que havia
fundado anos antes. A família retornou para a mesma casa onde
morava em Cabana do Pai Tomaz.
A educação formal de Nikolas ocorreu em escolas particulares, com
bolsas de estudo. Mais tarde, cursou Direito na Pontifícia Universidade
Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Ali, a vida mudou. O episódio que
o projetou nacionalmente ocorreu em 2013, quando tinha 17 anos.
Incomodado com uma prova de sociologia que abordava identidade de
gênero, o então universitário escreveu um texto crítico no Facebook.
Encerrou a publicação com uma frase do escritor Nelson Rodrigues:
“Sou reacionário, sim. Reajo contra tudo que não presta”.
O texto
viralizou, foi reproduzido por sites conservadores e chamou atenção
do movimento Escola Sem Partido e de integrantes da família
Bolsonaro. Ainda na PUC-MG, Nikolas participou ativamente de
eventos acadêmicos e debates públicos. Em uma dessas ocasiões,
pediu a palavra em um encontro universitário que contava com a
presença do teólogo comunista Leonardo Boff, criticou os
participantes e acabou retirado do local.
Sob influência do filósofo Olavo de Carvalho, Nikolas decidiu ampliar o
repertório intelectual e passou a ler autores associados à esquerda,
como Karl Marx e Antonio Gramsci. A ideia era compreender o que
interpretava como a presença de um projeto ideológico na educação,
na cultura e na produção artística. Esse percurso intelectual
contribuiu para o desenvolvimento de uma visão crítica sobre a
atuação da mídia, do entretenimento e das instituições educacionais.
Durante a passagem pela universidade, Nikolas era descrito por
colegas e professores como um aluno participativo, que questionava
conteúdos em sala de aula sem recorrer a confrontos pessoais. Em
debates sobre temas científicos e filosóficos, como a teoria da
evolução, expunha discordâncias a partir de convicções religiosas.
Fora da sala de aula, mantinha rotina discreta. Frequentava encontros
com amigos, mas evitava consumo de álcool e dizia ter o desejo de se
casar antes de iniciar a vida sexual, posicionamento que apresentava
como coerente com a educação recebida em casa.
A ascensão política
Nos anos seguintes, Nikolas aproximou-se de movimentos
conservadores em Minas Gerais e ajudou a organizar encontros com
jovens lideranças políticas. O coletivo Direita Minas, do qual era
integrante, participou das manifestações pelo impeachment da expresidente Dilma Rousseff, em 2016.
Antes de disputar cargos eletivos, Nikolas atuou como assessor
parlamentar do deputado federal Junio Amaral, que havia conhecido
nos anos de militância política.
A experiência durou dois anos, de
2018 a 2020. Depois, seguiu voo solo e elegeu-se vereador em Belo
Horizonte. No mandato, obteve visibilidade por meio de discursos
incisivos, confrontos em plenário e projetos ligados a pautas culturais.
Mais tarde, em 2022, tornou-se deputado federal com votação recorde,
a maior do país naquele pleito. Em Brasília, manteve a estratégia que o havia projetado: comunicação direta, temas de forte apelo popular e
presença constante nas redes sociais.
Nikolas Ferreira ao lado de Bruno Engler, atualmente deputado estadual por Minas Gerais, e do ex-deputado estadual paulista Douglas
Garcia - Foto: Arquivo Pessoal
Nikolas consolidou-se como um dos políticos com maior alcance
digital. Seus perfis somam milhões de seguidores e alto engajamento,
principalmente entre jovens e evangélicos: Instagram (20 milhões),
TikTok (8,5 milhões), X (5,5 milhões), Facebook (3,3 milhões) e
YouTube (2,5 milhões). A leitura estratégica das redes acompanha sua
atuação institucional. São vídeos curtos, com linguagem simples e
timing ajustado ao noticiário.
Em janeiro de 2025, por exemplo, diante
da iminência do monitoramento do Pix pelo governo Lula, o deputado
divulgou um vídeo em todas as plataformas para denunciar a nova
cruzada petista contra os pobres. Foram 200 milhões de
visualizações em 24 horas — audiência superior à verificada em
publicações do marqueteiro Sidônio Palmeira, chefe da Secretaria de
Comunicação Social (Secom); de todos os telejornais do Grupo Globo
somados, incluindo as transmissões da TV fechada e do streaming; e
até mesmo as postagens da cantora Anitta.
A caminhada até Brasília
também se encaixa nesse método. Nikolas apostou em uma
manifestação contínua, capaz de gerar narrativa diária e manter
atenção constante dentro e fora do ambiente virtual. Não por acaso, a
manifestação uniu diferentes segmentos da direita em torno de um
mesmo propósito, ainda que temporariamente. Influenciadores,
parlamentares e líderes religiosos compartilharam imagens da
marcha.
Fora da internet, Nikolas é um brasileiro comum. Torcedor declarado
do Cruzeiro Esporte Clube, acompanha futebol com entusiasmo. Na
música, tem preferência pelos astros norte-americanos Michael
Jackson e Whitney Houston. Casado com a modelo Lívia Bergamim
Orletti, Nikolas é pai de duas meninas. Apesar da intensa atividade no
universo digital, evita expor a vida privada.
Paralelamente à atuação política, Nikolas investiu na produção
editorial. É autor de O cristão e a política: descubra como vencer a guerra
cultural, obra em que defende a participação ativa de cristãos na vida
pública e sustenta que disputas políticas contemporâneas passam
sobretudo por valores morais e culturais. Mais recentemente, lançou
Criando filhos para o amanhã, escrito em parceria com os pais, Edésio
de Oliveira e Ruth Ferreira, no qual aborda temas ligados à educação
familiar, à formação moral e à transmissão de princípios religiosos às
novas gerações. Nikolas também investiu na produção editorial
destinada às famílias e às crianças.
Em parceria com a deputada estadual catarinense Ana Campagnolo, lançou os livros infantis Ele é
Ele e Ela é Ela, publicados pela Editora Vida. As obras foram concebidas
como material de apoio para pais e educadores interessados em
abordar temas ligados à identidade e à formação moral a partir de
valores cristãos.
Aos 29 anos, Nikolas deve se reeleger como deputado federal nas
eleições de outubro. Em razão da idade, está impedido de disputar
uma vaga no Senado. A escalada será possível apenas em 2034,
quando terá mais de 35 anos. Se depender das lideranças do PL,
contudo, o voo será ainda mais alto. O partido quer elegê-lo presidente
da República.