sexta-feira, 29 de abril de 2022
'Elon Musk e os donos de morro digitais', por Bruna Frascolla
O CEO da Tesla e da SpaceX, CEO Elon Musk.| Foto: ALEXANDER BECHER/ EFE
O Direito não surgiu dentro de um Estado onde todos eram cidadãos. O paterfamilias romano era o árbitro e senhor da sua casa, que compreendia os servos, a mulher e os próprios filhos. Ele era uma espécie de monarca dentro de sua propriedade e, fora dela, um cidadão sujeito à autoridade da República ou do Império. O Brasil herdou algo disso, seja nos costumes ou na legislação.
Onde o poder privado reina, o Estado não bole. E para se ter uma boa ideia de como era o interior brasileiro, tomemos nota de que no Segundo Reinado não havia mapa do Semiárido brasileiro, embora essa seja uma região ocupada por lusófonos desde pelo menos o século XVII. Os mapas foram encomendados por D. Pedro II ao polímata Theodoro Sampaio, e seriam de grande valia à República para debelar Canudos. Se o Estado nem sabia os caminhos das brenhas do Semiárido, tem-se uma ideia do poder que um coronel estava habituado a exercer em sua propriedade privada.
Ao menos até o século XX, entendia-se que modernização implicava o crescimento do Estado sobre esses enclaves privados. Com a universalização da cidadania, são iguais, perante o Estado, o coronel e seu cortador de cana analfabeto. Ambos estão sob a autoridade estatal, e o coronel não é livre para açoitá-lo num tronco ou vendê-lo.
No entanto, a modernização fez com que o exercício do poder privado sobre cidadãos teoricamente livres chegasse às cidades. À figura rural do coronel, somou-se a figura urbana no dono do morro. Mas ainda assim os políticos e os intelectuais dirão que tal estado de coisas não é o ideal. E, por mais que haja uma bandidolatria da parte dos intelectuais, muita tinta já correu para tratar do “Estado paralelo”. A apologia do tráfico é algo envergonhada e disfarçada. O jeito de elevar o tráfico é rebaixar o Estado legítimo, dizendo que é racista etc., sem dizer palavra sobre as barbaridades do tráfico. Quanto ao seu financiamento, tampouco esperem uma campanha pela conscientização do custo humano do uso de drogas ilícitas: mais fácil se preocuparem com baleia do que com favelado. Há campanha para parar de comer carne e salvar animaizinhos, mas parar de usar droga, nem pensar!
Assim sendo, a mobilização de políticos para que entes privados exerçam seu poder discricionário sobre a população deverá ser recebido com muita surpresa. E era exatamente o que os governos vinham fazendo com as Big Techs.
Donos de morro digitais
Vejam bem: o Estado brasileiro não pede para coronéis e donos de morro criarem códigos de conduta privados e aplicarem aos cidadãos brasileiros que adentrem seus territórios. Ninguém diz: “Seu Traficante, Allan dos Santos entrou no seu morro e transitou livremente! Você não tem um código que pune discurso de ódio com micro-ondas? Como você não o executou? Se ele pisar aí mais uma vez e escapar impune, vou mandar a polícia tomar conta do seu morro e acabar com o seu negócio!”. Mas no Judiciário, no Legislativo e na academia, muitos dizem que as Big Techs têm que punir quem faça isso e aquilo.
O Estado Democrático do Brasil tem leis que punem calúnia, injúria e difamação. Não existe nenhuma lei focada nessa coisa vaga chamada de “discurso de ódio”, mas existem limitações legais à liberdade de expressão. Ninguém pode defender a superioridade de uma raça, por exemplo. Tampouco se pode fazer apologia de crimes. Assim, o Estado brasileiro deveria se modernizar para fazer valer suas leis na internet. Como não temos censura prévia, a internet deveria acarretar apenas uma explosão de crimes de calúnia e difamação, que sobrecarregaria o Judiciário. Problema de gestão, não de surgimento de crimes novos.
No entanto, a corporação jornalística vinha nos oferecido um senso comum artificial segundo o qual Mark Zuckerberg (Facebook, Instagram e WhatsApp), Jack Dorsey (Twitter) e Pavel Durov (Telegram) tinham que aplicar em seus respectivos morros digitais um código censor que os progressistas tiraram da cabeça deles e que não foi sancionada por lei nenhuma no Brasil. Agora, com a compra do Twitter por Elon Musk, a coisa parece mudar de figura. A burocrata não-eleita Jen Psaki já veio a público falar de regulação de redes sociais nos Estados Unidos. A União Europeia, idem, através de um tal Thierry Breton, outro burocrata não-eleito.
Elon Musk foi claro e sucinto em seu tuíte a respeito do assunto: “Por ‘liberdade de expressão’ entendo simplesmente o que condiz com a lei. Sou contra a censura que vai além da lei. Se as pessoas quiserem menos liberdade de expressão, vão pedir ao governo que passem leis com esse efeito. Portanto, ir além da lei é ir contra a vontade do povo.” Na mosca.
Preocupação com a salvaguarda de dogmas
Eu posso encontrar com facilidade no Twitter violações à liberdade de expressão que deveriam preocupar as autoridades brasileiras. Uma delas foi coberta pela Gazeta: a propaganda explícita do Comando Vermelho. Logo após a matéria, as contas foram apagadas. Mas voltou a haver um monte de contas do Comando Vermelho e ninguém reclama. Isso não tira o sono dos ministros do Supremo, nem de jornalistas esclarecidos. Perigoso mesmo é Allan dos Santos.
Na verdade, o curioso é que todo mundo sabe qual é a lei de censura não escrita. Isso ficou bem claro no primeiro dia após a compra do Twitter: uma chuva de tuítes com a expressão “testando” violava a censura. Tuitavam que homem é homem e mulher é mulher, ou que ivermectina é bom. Resumidamente, ficou muito claro que os dogmas do identitarismo e da “seita da vacina” (para usar a expressão de Guilherme Fiuza) se converteram numa ortodoxia capaz de punir hereges.
Os CEOs eram donos de morros digitais que agiam a mando de governantes. Governantes estes que traíram os seus povos e adoraram ter censores intermediários. Vamos ver agora se a União Europeia e os Estados Unidos dispõem de randolfes para dar um jeito na situação.
Guerra de bilionários
Assim como um cidadão esclarecido dos anos 40, nós não temos como saber agora o que está acontecendo no mundo. Dada a informação disponível, podemos considerar que o vago corpo doutrinário ESG está afinado com o corpo censório abolido no Twitter. O ESG, sigla de Governança Ambiental e Social, reúne identitarismo e ambientalismo neomaltusiano. Por mera observação, vemos também que todo identitário é da seita da vacina (embora nem todo fiel da vacina seja identitário), de modo que ambas as coisas devem estar conectadas. E sabemos ainda que Bill Gates e Klaus Schwab são os principais difusores do ESG mundo afora.
O ESG é feito para regular empresas e pessoas a partir de rankings identitários de “inclusão” e de créditos de carbono. São critérios que não estão claros para ninguém – exceto, talvez, para Bill Gates. Elon Musk tem postado contra ele no Twitter, e até vazou uma conversa privada entre ambos, com ele cobrando de Bill Gates satisfação por investir na queda da Tesla. Ao que parece, a Tesla, de Musk, apesar de produzir carros elétricos (que são propagandeados como “energia verde”) teria uma nota ESG baixa, e por isso Bill Gates se preparava para a desvalorização da empresa. Musk também usou o Twitter para chamar o ESG de “demônio encarnado”. No mais descobrimos também que ele é contra o neomaltusianismo de Bill Gates, já que lastima a queda da natalidade na pandemia e acha que a humanidade tem que evoluir para ficar de luto pelos não-nascidos.
Aí vem briga de cachorro grande, e é provável que só daqui a alguns anos entendamos o que está se passando agora.
Gazeta do :povo
Ao lado de Lula, o mais depravado ladrão da história do Brasil, Alckmin ouve hino socialista que prega a implantação do comunismo no Brasil
Escória exalta o comunismo e quer o Brasil sob controle da ditadura do proletariado - Foto: Reprodução
O pré-candidato a vice-presidente da república Geraldo Alckmin (PSB) ouviu, ao lado de Lula (PT), a execução do hino da Internacional Socialista em congresso do PSB realizado na noite desta quinta-feira (27) em Brasília. O ex-governador não cantou, mas aplaudiu ao fim da música. Antes da Internacional, os participantes haviam cantado um trecho do Hino Nacional Brasileiro.
Alckmin filiou-se ao PSB em março deste ano para poder ser candidato a vice-presidente na chapa encabeçada pelo ex-presidente petista. No palco, o ex-governador de São Paulo não pareceu constrangido em ouvir a canção, que critica ricos e poderosos e fala de trabalhadores que tomam o poder e dividem a riqueza entre si. Ao final do evento, Alckmin foi questionado por jornalistas se ficou à vontade em ouvir uma canção associada a governos comunistas e socialistas. Ele disse que sim, justificando que “a social-democracia também teve origem na luta social, trabalhista”.
A cena inusitada do ex-tucano também repercutiu nas redes sociais. O ex-ministro Osmar Terra (MDB) usou seu perfil no Twitter para compartilhar o vídeo. “O que eu ainda não verei neste mundo?”, comentou na postagem. Já o deputado Gil Diniz (PL) postou o vídeo dizendo que Lula e Alckmin cantam o Hino da Internacional Socialista e “exaltam regimes onde impera a miséria, a falta de liberdade e ausência de religiões”.
Vídeo:
https://rota2014.blogspot.com/2022/04/em-evento-lula-e-alckmin-cantam-e.html?spref=tw
Gazeta do Povo
'O Pacaembu inicia o reencontro com a cidade', Bruno Freitas
Estádio do Pacaembu | Foto: Thiago Leite/Shutterstock
O estádio octogenário reabre ao público com arena de shows provisória no meio do campo. A retomada dos jogos de futebol deve acontecer em 2024
No lugar em que um dia Pelé e Rivelino brilharam, a vez agora é de Gal Costa e padre Fábio de Melo. O Pacaembu reabre suas portas ao público neste sábado, 30 de abril, depois de dois anos, com um show da veterana da MPB. Quem for ver a cantora baiana certamente vai reparar nas arquibancadas parcialmente destruídas do velho Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho.
As obras ainda estão em andamento, mas o visual já mudou bastante. O setor conhecido como Tobogã, por exemplo, já não está mais atrás de um dos gols, no local onde vai nascer um prédio multiuso. Assim, aos poucos, o Pacaembu começa a voltar aos paulistanos.
A última vez que a bola rolou no estádio foi em 29 de fevereiro de 2020, no zero a zero entre Santos e Palmeiras. Agora, com o antigo gramado asfaltado provisoriamente para abrigar o Pavilhão Pacaembu, começa uma agenda de shows até o segundo semestre de 2023, com direito a almoço de Dia das Mães com Fábio de Melo. A intenção é aproveitar o espaço até que as obras do complexo sejam totalmente concluídas.

Cedido à concessionária Allegra Pacaembu por 35 anos, o ícone arquitetônico em art déco se prepara para retornar com uma proposta “mais democrática”, na palavra dos atuais administradores. A vocação futebolística vai dividir espaço com outras ações para movimentar a identidade do complexo, em iniciativas que incluem negócios, cultura e até videogames.
“Estamos numa expectativa muito grande e confiantes de que será um retorno marcante para a cidade”, diz Eduardo Barella, CEO da Allegra Pacaembu. “Queremos que os paulistanos entendam o nosso propósito, que é resgatar os pilares de cultura e lazer, originários do Pacaembu, de quando ele foi idealizado, ainda na década de 1940”.
Agora o Pacaembu, que completou 82 anos em 27 de abril, promete se inserir de volta na vida dos paulistanos como espaço de experiências múltiplas. Os fãs de futebol mais tradicionais ainda esperam para ver como tudo vai ficar.

“É claro que sabemos da importância do futebol para o complexo e isso jamais vai se perder, mas queremos que o Pacaembu esteja ainda mais aberto a novas possibilidades”, afirma o gestor do estádio. “Será um grande marco poder realizar um show após 16 anos no Pacaembu”.
A concessão
A ideia de cessão do Pacaembu à iniciativa privada por um período fechado nasceu na administração do ex-prefeito João Doria. Desde o início, o projeto contava com restrições. Como o veto a shows de grande porte, em razão do ativismo da associação de moradores do bairro. A manutenção de um espaço para esportes amadores, incluindo uma piscina pública, também foi garantida.
Formado pela empresa de engenharia Progen e pelo fundo de investimentos Savona, o Allegra Pacaembu venceu o processo de concessão e responde pela gestão do complexo desde 25 de janeiro de 2020. A concessionária prevê investir mais de R$ 400 milhões em toda a estrutura, mas teve o cronograma de ações afetado pela crise de covid-19. O estádio, inclusive, abrigou um hospital de campanha no auge da pandemia em São Paulo.
Quando concluído, o novo Pacaembu terá a capacidade reduzida, de 40 mil para 25 mil espectadores. No subsolo, o complexo vai contar com um centro de eventos de 8 mil metros quadrados. Embaixo de um dos setores de arquibancada, vai existir uma arena de esportes eletrônicos, no qual cem pessoas poderão jogar de forma simultânea.
As obras de reforma começaram em 29 de junho de 2021, atrasadas em mais de um ano por causa da crise do coronavírus. A concessionária não pode mexer na estrutura externa do estádio, tombada pelo patrimônio histórico. A Praça Charles Miller, em frente da entrada principal, está excluída da concessão, assim como o Museu do Futebol, cuja gestão pertence ao Estado de São Paulo.
Hotel no lugar do Tobogã
O Pacaembu de 1940 nasceu com a Concha Acústica atrás de um dos gols, área destinada a apresentações. O espaço deu lugar à imensa estrutura de arquibancada batizada de Tobogã, em 1969. Hoje, no lugar, o estádio em sua versão moderna vai ganhar uma nova atração.
Em uma renovação que divide opiniões entre velhos frequentadores do estádio, no lugar do já demolido Tobogã será erguido um edifício multifuncional de nove andares, sendo quatro deles subterrâneos. Em três de seus pavimentos vai funcionar um hotel, em parceria com o grupo Universal Music e a empresa de investimentos Dakia U-Ventures.
O espaço vai contar ainda com um estacionamento no subsolo, além de um centro de medicina esportiva e de uma galeria de arte. O complexo também terá cafés, lojas e escritórios.
E o futebol?
Tombado pelo patrimônio histórico em 1998, o Pacaembu ainda tem seu aproveitamento esportivo em suspense. Por muito tempo, o estádio na zona oeste, bem próximo à Avenida Paulista, era uma opção para todos os times da cidade, além do Santos, que fez do local a sua segunda casa a partir dos tempos de Pelé.
Mas, hoje, com Corinthians e Palmeiras desfrutando de novas arenas, não se sabe se algum time e sua torcida vão frequentar o estádio. Mesmo que de vez em quando, quando a casa principal estiver incapacitada de receber jogos.
O São Paulo, com o Morumbi pronto desde 1970, tem sido o frequentador menos assíduo do Pacaembu nas últimas décadas. Já o Santos cogitou recentemente usar o estádio de novo como casa alternativa, contemplando sua torcida na capital. No entanto, o clube tem avançado no projeto por uma arena própria na Baixada Santista, a nova Vila Belmiro, orçada em R$ 400 milhões. Então, num primeiro momento, o Paulo Machado de Carvalho deve abrigar jogos esporádicos, apesar de a concessionária prometer valorizar a vocação futebolística do local.
“Queremos que a final da Copa São Paulo de Futebol seja realizada no Estádio do Pacaembu, no dia 25 de janeiro de 2024″, garante Eduardo Barella, da Allegra Pacaembu. “Este deve ser o nosso marco inaugural. Esse foi o principal público do Pacaembu durante muitos anos. Os torcedores são um público apaixonado e que se preocupa com o que está sendo feito no complexo como um todo. Queremos continuar recebendo o público do futebol, para que ele tenha uma nova experiência com muito mais conforto e segurança.”
Curiosidades históricas
O Pacaembu foi inaugurado em 27 de abril de 1940, com a presença de Getúlio Vargas, então presidente da República. Na época, com capacidade para 60 mil pessoas, era o maior estádio do país — este status durou dez anos, até a construção do Maracanã, no Rio de Janeiro.
Abaixo, algumas curiosidades sobre o antigo estádio paulistano:
- em tupi-guarani, Pacaembu significa ‘terras alagadas’. A região ganhou esse nome porque ficava junto a um ribeirão, cujas margens serviam de descanso para os índios;
- o Palestra Itália (antigo nome do Palmeiras) inaugurou o estádio em 28 de abril de 1940, com uma vitória de 6 a 2 sobre o Coritiba;
- o maior público do Pacaembu foi registrado em 24 de maio de 1942, quando 70.281 pessoas acompanharam a estreia do craque Leônidas da Silva, do São Paulo, no empate com o Corinthians;
- a maior goleada do estádio aconteceu em 1945, na vitória do São Paulo sobre o Jabaquara por 12 a 1;
- o estádio recebeu jogos da Copa do Mundo de 1950, como o empate entre Brasil e Suíça na primeira fase;
- o Pacaembu ganhou o nome de Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho em 1961, em homenagem ao dirigente esportivo que comandou a delegação brasileira na Copa de 1958;
- o estádio abrigou as despedidas de dois ídolos do futebol brasileiro, curiosamente ambos nascidos no Rio de Janeiro: Romário, em 2005, e Ronaldo, em 2011;
- o Pacaembu recebeu uma missa campal comandada pelo papa Bento 16, em 2007;
- alguns ídolos da música se apresentaram no estádio: Paul McCartney, Luciano Pavarotti, Tina Turner, The Rolling Stones, Iron Maiden, AC/DC, entre outros;
- o estádio abriga o Museu do Futebol desde 2008, com entrada pela Praça Charles Miller;
- um hospital de campanha de 6.300 metros quadrados funcionou dentro do Pacaembu por 84 dias em 2020, em meio ao combate ao coronavírus na cidade, recebendo cerca de 1,5 mil pacientes.

Fachada do Estádio do Pacaembu, inaugurado em 1940, em São Paulo | Foto: Bruno Freitas/Revista Oeste Fachada do Estádio do Pacaembu, inaugurado em 1940, em São Paulo | Foto: Bruno Freitas/Revista Oeste
Revista Oeste
'Vinhos de todos os tipos, para todos os gostos', por Bruno Meyer
Foto: Yulia Mikula/Shutterstock
Aimportadora de vinhos Cellar e a marca Lovin surpreenderam até mesmo seus gestores pela velocidade com que captaram investimentos nas últimas semanas. Fundada há 25 anos, mas com uma nova gestão desde 2019, que multiplicou em dez vezes o volume em vendas, a Cellar levantou R$ 15 milhões de um grupo de dez investidores-anjo, como Antonio Salvador, ex-vice-presidente do Grupo Pão de Açúcar, e Marcelo Tavano, ex-executivo da Microsoft. Dias depois, a Lovin — uma startup que vende vinhos em lata no valor de R$ 19,90 — captou R$ 2,5 milhões em apenas nove horas por meio da plataforma de crowdfunding Captable. Essa é a segunda captação: a primeira ocorreu no ano passado, quando, pela mesma plataforma, a startup conseguiu R$ 2 milhões.

A bola da vez
As duas recentes rodadas de investimentos mostram a força de um mercado aquecido no país: os vinhos — dos mais simples, vendidos até em latas, aos mais caros e sofisticados. “O Brasil é a bola da vez”, resume Rodrigo Malizia, ex-diretor comercial dos bancos Modal e Pan Americano, que, hoje CEO da Cellar, comanda uma equipe de 50 profissionais. A frase de Malizia não é achismo, mas uma reprodução do que escuta nas vinícolas a partir das inúmeras viagens que o executivo faz para a Europa em busca de novos rótulos. Até mesmo a guerra na Ucrânia impacta o Brasil: com a saída da Rússia, diversos produtores passaram a escoar a produção para outros países. Malizia inclusive fechou recentemente com um produtor alemão por esse motivo. “Os produtores estão de olho e querem estar no Brasil”, diz.

60 litros por ano
Motivo é o que não falta para os europeus quererem desembarcar por aqui: o brasileiro nunca consumiu tanto vinho como nos dois últimos anos de pandemia. Em média, foram 2,78 litros de vinho por ano, o que representa um aumento de 30%. Pode parecer um crescimento robusto (e é), mas é ínfimo se comparado com um país europeu, como Portugal, onde a população bebe, em média, 60 litros por ano, ou 5 litros por mês. “O mercado de vinhos no país está apenas no começo”, diz Malizia. A falta de acesso a vinhos de qualidade há uma década e o envelhecimento da população são outros motivos que explicam a efervescência do setor. “Sempre tem gente bebendo mais vinhos em lugares com pessoas mais velhas”, diz Malizia. Até por uma questão de poder aquisitivo. Os vinhos que a Cellar vende, por exemplo, estavam na faixa de R$ 300 a R$ 6 mil, geralmente os mais caros vindo da região francesa da Borgonha. O máximo já vendido foi no valor de R$ 25 mil — o Musigny, do Frederic Mugnier, da mesma região. Com os R$ 15 milhões em caixa, a Cellar quer agora investir em mais divulgação e tecnologia e baratear os vinhos. Baratear, em termos: os vinhos mais baratos saem por R$ 130. A cada mês, a empresa vende 14 mil garrafas no país.

O vinho no país do boteco…
No período em que viveu no Vale do Silício, após uma temporada como executivo da XP, o gaúcho Eduardo Glitz tem uma recordação das entradas nos supermercados da Califórnia: cada um tinha um imenso corredor com latas de vinhos. A percepção virou um negócio brasileiro em julho de 2020, a partir de uma sociedade entre sete amigos, mesmo que no início houvesse sérias dúvidas da adesão à novidade num país tropical. “O brasileiro tem uma cultura menos formal, e o vinho é um produto formal”, diz Glitz. “Precisa de harmonização. Se tomar de qualquer jeito, podem dar risada, e até pouco tempo atrás era uma bebida high level, vista como nobre.” E foi com esse conceito que nasceu a Lovin: descomplicar o vinho no país do boteco e da latinha de cerveja.
…sem complicar
No início, os maiores varejistas do país achavam que a ideia do vinho na latinha poderia até valer a pena, mas por um preço abaixo de R$ 10. Glitz e os sócios bateram o pé. “Se colocar produto vagabundo, não queremos fazer”, lembra. A solução foi montar um site e direcionar as vendas inteiramente on-line. As plataformas digitais engrossaram e novos produtos foram lançados. Com a base de dados conquistada no e-commerce, descobriu-se um publico majoritário e fiel: 95% dos clientes da empresa são do sexo feminino. Um palpite? “A mulher, em geral, não quer tomar cerveja, porque estufa e dá barriga”, diz Glitz. “A lata é descomplicada, tem glamour, há muitas que postam no Instagram e é uma dose individual, não precisa abrir uma garrafa inteira de vinho.” A Lovin vende 120 mil latas por ano e hoje comercializa no varejo para redes como Natural da Terra, Sam’s Club, Mambo e St. Marché. Outras redes estão em negociação. Os vinhos são nacionais, das vinícolas Perini e São João, ambas da serra gaúcha. Os carros-chefes são os espumantes brut e o rosé frisante, o que confirma que a mulher costuma gostar de bebidas mais doces. Com os novos R$ 2,5 milhões em caixa, a meta é dobrar de tamanho neste ano. Glitz mostrou que o país do boteco também pode ser o da latinha do rosé.

O calote cubano
O presidente do BNDES, Gustavo Montezano, lançou uma pergunta nesta semana para uma plateia restrita em São Paulo, em um jantar organizado pelo grupo Esfera Brasil, com nomes como Claudio Lottenberg, do Hospital Albert Einstein, Fábio Galindo, da Aegea Saneamento, e João Camargo, da 89 Investimentos.
— Como você explica para o cidadão brasileiro um calote de Cuba de US$ 1,5 bilhão?
O tema era o inconcebível empréstimo para Cuba levantar o Porto de Mariel.
A plateia ficou sem resposta.
Vale quanto pesa?
Mesmo que Elon Musk ajeite a casa e aumente os lucros do Twitter a partir de 2023, muitos analistas do mercado financeiro creem que o empresário pagou mais do que a empresa vale. O estrategista Michael Viriato, da Casa do Investidor, faz um bom paralelo com o megainvestidor norte-americano Warren Buffett: “Musk pode estar caindo na mesma armadilha em que muitos investidores caem: se empolgar mais do que deveria”. Buffett comprou a Kraft Heinz em 2015 e, quatro anos depois, confessou em entrevista que pagou demais pela empresa.
33 vezes mais
Na segunda-feira, depois de duas semanas de especulação e reviravoltas, Musk acertou a compra da rede social por US$ 44 bilhões. Para efeitos de comparação, o Twitter lucrou US$ 169 milhões em 2021, enquanto a fabricante de carros elétricos Tesla lucrou US$ 5,5 bilhões — ou 33 vezes mais. Na última semana, em apenas 24 horas, a Tesla perdeu US$ 97 bilhões em valor de mercado. Os investidores da companhia têm receio de que o chefão diversifique demais os negócios e não priorize sua mina de ouro, a Tesla.
Leia também “Uma aposta no agronegócio, outra nos negativados”
Revista Oeste
'Microchips e batatas chipes', por Donald J. Boudreaux
Foto: Shutterstock
Reconhecer que a dependência econômica entre todos os países de livre-comércio é mútua deveria pelo menos diminuir o mito de que é fácil repatriar as chamadas “cadeias de fornecimento”
Nós, norte-americanos, estaríamos em situação melhor economicamente se o governo conseguisse aplicar uma “política industrial” para que produzíssemos mais microchips e menos batatinhas chips? Para muitas pessoas, essa pergunta parece boba porque a resposta devia ser óbvia.
Mas a resposta não é nada óbvia.
Não resta muita dúvida de que o governo dos Estados Unidos poderia usar tarifas, cotas de importação e exportação e subsídios para redirecionar mais recursos para a produção doméstica de microchips. E poderia até garantir que uma quantidade desproporcionalmente grande desses recursos redirecionados viesse da indústria de petiscos e salgadinhos. (Estou ignorando o fato de que, na verdade, é provável que uma quantidade desproporcionalmente grande de recursos direcionado de modo artificial para a produção de microchips não seja extraída da indústria dos petiscos e salgadinhos, mas de outras indústrias de alta tecnologia.) No entanto, é muito improvável que garantir que os norte-americanos produzam menos batatinhas chips e mais microchips traga benefícios econômicos líquidos para os norte-americanos.
Produção não é consumo. Usar tarifas, cotas e subsídios para garantir uma produção doméstica de menos batatinhas e mais microchips não garante que os norte-americanos vão conseguir usar mais microchips. Se o custo de produção doméstica desses microchips adicionais fosse mais alto que o custo já acarretado na importação da mesma quantidade de microchips — e que, sem tarifas, cotas e subsídios, ainda seriam cobrados para importar esses dispositivos —, esses microchips de produção doméstica se tornariam menos acessíveis para nós. Então como esse resultado pode ser considerado vantajoso para a nossa economia?
Sacrificar grandes quantidades de produtos X e serviços Y para adquirir uma dada quantidade do produto Z é o próprio significado de tornar o produto Z menos acessível. O fato de que nós produzimos mais Z não significa, portanto, que podemos adquirir e usar mais Z. Essa realidade é inescapável, quer “Z” sejam batatas chips ou microchips.
Se você duvida de mim, pergunte a si mesmo se os automóveis seriam mais acessíveis se você mesmo os produzisse, em vez de comprá-los de empresas como a Toyota ou a General Motors. Os automóveis seriam muito ou pouco acessíveis se você produzisse seus próprios carros?
Comércio é troca
Se o objetivo é aumentar o acesso dos norte-americanos aos microchips — aumentar nossa capacidade de adquirir e usar esses dispositivos de alta tecnologia —, deveríamos comprá-los da maneira menos custosa. E se estrangeiros estiverem dispostos a vendê-los por preços menores que os custos que teríamos para produzi-los internamente, então o nosso acesso aos microchips vai aumentar se os importarmos em vez de produzi-los.
“Errado!” Já ouço protestos ansiosos. “Ao importar microchips, nos colocamos à mercê dos estrangeiros, que, no futuro, podem restringir nosso acesso a esse importante produto.”
É possível. Mas essa possibilidade não é tão gritante quanto parece ser de início. O comércio não é um processo de doação unilateral. Comércio é troca. Ao exportar microchips, os estrangeiros se colocam à nossa mercê, os norte-americanos, que no futuro podemos restringir seu acesso a quaisquer produtos importantes que eles comprem de nós com os dólares que ganham com a venda dos microchips. Nós, norte-americanos, exportamos muito petróleo, produtos farmacêuticos, máquinas industriais, produtos agrícolas e ensino superior — ou seja, nós, norte-americanos, produzimos e exportamos muitos produtos e serviços importantes com os quais os estrangeiros contam. A perda do acesso a essas exportações norte-americanas enfraqueceria a economia deles. Temos razões suficientes para acreditar que os estrangeiros vão impedir nosso acesso aos microchips, considerando que isso, por sua vez, impediria o acesso deles a produtos como petróleo e medicamentos?
Um dos “produtos” que os estrangeiros desejam adquirir dos norte-americanos em troca das exportações que enviam para cá é o dólar norte-americano
Em resposta, não adianta dizer (corretamente) que os fornecedores estrangeiros de microchips podem adquirir petróleo, produtos farmacêuticos e máquinas industriais de países que não são os Estados Unidos. Em primeiro lugar, hoje os estrangeiros adquirem esses produtos e serviços dos Estados Unidos porque nós, norte-americanos, somos os fornecedores de baixo custo desses produtos e serviços especificamente. Assim, deduz-se que, se os Estados Unidos deixarem de exportar esses produtos e serviços para a China, por exemplo, eles poderão ser adquiridos pela China em outros países que não os Estados Unidos a custos mais altos do que os custos de adquiri-los nos Estados Unidos.
Em segundo lugar, e mais importante, assim como os estrangeiros poderiam importar, por exemplo, menos medicamentos dos Estados Unidos e compensar a diferença importando mais medicamentos de outros países, os Estados Unidos poderiam importar menos microchips da China e compensar a diferença importando mais microchips de outros países. O que é verdade para outros países é verdade para os Estados Unidos, e vice-versa — quase (veja abaixo).
A moeda de reserva global
“Estrangeiros” não é uma única entidade. Não existe um país chamado “Estrangeiro”. Hoje microchips são produzidos em Taiwan, no Japão, na Coreia do Sul, na Alemanha e na Holanda, entre outros lugares. E, como em muitos países os microchips são produzidos por mais de uma empresa, o número de fabricantes que produzem microchips é maior até do que o de países onde essas pequenas maravilhas são fabricadas. Então, para que usuários de microchips nos Estados Unidos sejam feitos reféns por empresas estrangeiras de qualquer maneira economicamente significativa, diversas empresas diferentes localizadas em diversos países diferentes precisariam fazer uma conspiração bem-sucedida para suspender os microchips para os norte-americanos. É possível, mas também é bem pouco plausível.
No penúltimo parágrafo, o “vice-versa” veio acompanhado de “quase”. De fato, existe uma coisa que torna os Estados Unidos únicos hoje em dia: o dólar norte-americano é a moeda de reserva global.
Um dos “produtos” que os estrangeiros desejam adquirir dos norte-americanos em troca das exportações que enviam para cá é o dólar norte-americano. Assim como para toda e qualquer moeda, somente um avarento patético iria querer adquirir dólares como fins em si mesmos. Os dólares norte-americanos têm alta demanda porque podem ser facilmente trocados em quase todo lugar na terra por petróleo, produtos farmacêuticos, pinheiros, porcos, pretzels e todos os outros produtos vendáveis, a maioria dos quais está precificada nos mercados internacionais pelo dólar. Como nenhuma outra moeda hoje é tão ampla e facilmente aceita no globo quanto o dólar norte-americano, as pessoas do mundo todo têm uma demanda especialmente alta por ele.
Então, digamos, enquanto os chineses podem substituir, e com pouco esforço, o petróleo fornecido pelos Estados Unidos pelo petróleo fornecido pela Venezuela ou pela Arábia Saudita, a China não consegue substituir com tanta facilidade o dólar norte-americano pelo bolívar ou pelo rial. A recusa da China em vender microchips para os norte-americanos implicaria que, para obter dólares e manter um comércio global, os chineses precisariam aumentar as exportações para países além dos Estados Unidos. Mas aumentar as exportações para outros países também significaria que a China teria de baixar os preços cobrados por suas exportações. A conclusão é que Pequim não pode ordenar que a China reduza as exportações para os Estados Unidos sem causar danos econômicos ao povo chinês.
Claro, os cabos de guerra em Pequim, e os mandarins covardes abaixo deles, podem de fato estar dispostos a pagar esse preço para prejudicar os Estados Unidos (especialmente enquanto esse preço é espalhado pela população de mais de 1 bilhão de chineses). Mas reconhecer que a dependência econômica que todos os países de livre-comércio passaram a ter nos mercados internacionais é sempre uma dependência mútua deveria pelo menos diminuir o mito de que é fácil repatriar as chamadas “cadeias de fornecimento” para usar políticas industriais para garantir uma maior produção doméstica de “bens-chave”, e que deveríamos reduzir nossa produção de mercadorias como batatas chips para aumentar a produção de mercadorias como microchips.
Donald J. Boudreaux é formado em Direito pela Universidade da Virgínia e doutor em economia pela Universidade Auburn. Ele é membro sênior do Instituto Americano de Pesquisa em Economia e do Programa F.A. Hayek para Estudos Avançados em Filosofia, Política e Economia do Mercatus Center, da Universidade George Mason
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