domingo, 1 de junho de 2014

Acordo blinda fornecedores da Petrobras na CPI mista. Quer dizer, a bandalheira vai continuar via banqueiros e empreiteiros

 

Débora Álvares - O Estado de S. Paulo
 

Plano costurado entre tucanos, peemedebistas e petistas deixam de lado as empresas, responsáveis por cerca de um terço das doações

Responsáveis por um terço das doações privadas a campanhas eleitorais nas duas últimas eleições, fornecedoras da Petrobrás iniciaram uma operação entre os deputados e senadores que integram a CPI mista instalada na semana passada no Congresso e já receberam sinais de que a investigação dos negócios da estatal deve se concentrar em pessoas, e não nas empresas.
      
Essa espécie de pacto para que não haja avanço sobre os fornecedores foi costurada em recentes reuniões de senadores do PSDB com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), um dos principais defensores dos interesses do Palácio do Planalto na CPI mista.

Nas conversas, todas com respaldo de lideranças petistas e da articulação política do Palácio do Planalto, concluiu-se que agora, neste ano eleitoral, é melhor fazer uma CPI que explore personagens simbólicos, como o ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa, acusado de intermediar negócios da Petrobrás com o doleiro Alberto Youssef, principal alvo da Operação Lava Jato da Polícia Federal.

CPMI
CPI mista da Petrobrás: tradicional ‘follow the money’ será deixado de lado
Ed Ferreira/Estadão




Assim, os parlamentares poderão passar ao largo da técnica do 'follow the money' (siga o dinheiro, em inglês). O propósito é evitar quebras de sigilo generalizadas que exponham os fornecedores-doadores.

Os requerimentos apresentados pela oposição na primeira sessão de funcionamento da CPI mista de quebra de sigilo de construtoras que também são grandes patrocinadoras de campanha, como Camargo Corrêa e OAS, tendem a ficar na gaveta.

A informação do teor das conversas sobre o pacto foi confirmada, sob reserva, por parlamentares tanto da oposição quanto da base. Mas negadas publicamente por todos os envolvidos.

A estratégia já vinha sendo usada na CPI do Senado, instalada no dia 14 de maio e totalmente controlada pelos governistas e boicotada pelos opositores.

Longe de representar irregularidades, as doações registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam o potencial de alcance político e econômico da estatal. Levantamento feito pelo Estado mostra que, dos 32 integrantes titulares da comissão mista, 15 receberam doações de empresas que assinaram contratos com a Petrobrás no período de 2011 a 2014, gestão da presidente Dilma Rousseff. Desses, 13 são da base governista.

Cruzamentos. Como a Petrobrás lida com as maiores empresas do País, não é difícil encontrar um fornecedor que doou dinheiro de campanha eleitoral.

O membro da CPI mista beneficiado com o maior valor é o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), que recebeu R$ 500 mil da Camargo Corrêa, empreiteira que lidera o consórcio responsável por obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, alvo de suspeitas. A empreiteira também contribuiu com R$ 100 mil ao deputado Hugo Napoleão (PSD-PI).

O líder do governo no Congresso e relator da CPI da Petrobrás do Senado, José Pimentel (PT-CE), recebeu R$ 1 milhão da empreiteira, que pagou o mesmo valor à campanha do líder petista no Senado, Humberto Costa (PE). Ele recebeu outros R$ 500 mil da construtora OAS, responsável pela construção de dutos para o emissário do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), obra da Petrobrás.

A Camargo Corrêa também contribuiu para as campanhas dos senadores Ciro Nogueira (PP-PI), com R$ 150 mil, e Vanessa Grazziotin (PC do B-AM), com R$ 500 mil. Ciro ainda conseguiu R$ 100 mil da Votorantim Cimentos, contratada pela estatal para fornecer cimento para poços de petróleo.

Na Câmara, a coincidência passa ainda pelo relator da CPI mista, Marco Maia (PT-RS), que recebeu R$ 40 mil da Gerdau Comércio de Aço, contratada da Petrobrás para fornecer material para a produção para construção de plataformas.

Da oposição, o carioca Rodrigo Maia (DEM) foi beneficiado com R$ 300 mil da UTC Engenharia, que presta serviço à estatal na construção de quatro plataformas no estaleiro Inhaúma, no Rio.


COLABORARAM MURILO RODRIGUES ALVES e RICARDO BRITO

PIB da China passará o dos EUA em cinco anos

 

Denise Chrispim Marin - O Estado de S. Paulo
 

Apesar das divergências, conexão entre as duas economias continuará elevada

 
 
China quer mudar economia
Vista de Pequim: China é o maior consumidor mundial de energia desde 2009
Denise Chrispim Marin/Estadão

PEQUIM - A China vai superar os Estados Unidos como maior economia do mundo a partir de 2019. Nas estimativas do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês alcançará US$ 22,4 trilhões, medido pela paridade de poder de compra (PPP), e será US$ 300 bilhões maior do que o americano. Cálculo da Moody’s divulgado em maio, e que usa os mesmos critérios, espera que a liderança chinesa ocorra em prazo mais curto, até o fim de 2014.
 
A disputa entre Pequim e Washington na seara econômica, assim como na esfera geopolítica, oculta dependência mútua. Para Otaviano Canuto, conselheiro do Banco Mundial, a ascensão da China ao topo do ranking econômico pouco diz. O PIB per capita, indicador do padrão de vida e do poder de consumo, continuará baixo. Apesar do aumento gradual da renda per capita, cada americano terá quatro vezes mais dinheiro do que um chinês em 2019. “A economia da China não será mais importante do que a dos EUA se não contar com um mercado tão atrativo quanto o americano”, disse.
 
A China, porém, tem inquestionável importância em Washington. Graças a seu volume de reservas, tornou-se o maior comprador de títulos do Tesouro dos EUA. Até outubro, tinha US$ 1,3 trilhão desses papéis. Com isso, permitiu o financiamento do déficit público americano e a política de juros próximos a zero. O comércio bilateral, motivado pela demanda aquecida na América até a crise de 2008, cresceu de US$ 5 bilhões, em 1980, para US$ 536 bilhões, em 2012.

Em 2013, os EUA registraram déficit de US$ 318,4 bilhões no comércio bilateral. No primeiro trimestre deste ano, somaram US$ 69,1 bilhões. Segundo o Congressional Research Service, de Washington, a mudança do eixo da economia chinesa da exportação para o consumo deverá abrandar esse déficit. Como a demanda da China por alimentos vai crescer, os EUA esperam ajuste no câmbio do yuan e redução de tarifas de importação.

Em busca de custos menores de produção, companhias americanas hoje mantêm de US$ 50 bilhões a US$ 70 bilhões na China, sobretudo em setores intensivos em mão de obra. Mas tendem a frear esse fluxo por causa do aumento dos salários e do transporte marítimo. A mão contrária surgiu nos últimos anos. O investimento produtivo chinês nos EUA saltou de US$ 1,9 bilhão, em 2007, para US$ 17,1 bilhões, em 2012.

Energia. Um dos pontos críticos entre Washington e Pequim é a energia. Enquanto os EUA estão relativamente confortáveis graças à exploração de gás e óleo de xisto, a China continua em busca de fontes para alavancar seu crescimento.

O país é o maior consumidor mundial de energia desde 2009, e vai demandar 70% mais energia do que os EUA em 2035. Vem construindo cidades verdes, apostando em fontes renováveis e investindo em grandes projetos, como o parque eólico de Guam e a hidrelétrica de Três Gargantas.

China e EUA assinaram acordo de cooperação técnica para exploração do gás e óleo de xisto em 2013. Os chineses vivem sobre a maior reserva mundial desse recurso, estimada em 1,1 trilhão de pés cúbicos. Como está na zona árida do oeste, a China precisa da tecnologia de extração sem uso de água.

Os EUA estão mais avançados nesses estudos. Na semana passada, porém, a China ignorou as sanções dos EUA e da Europa sobre a Rússia, por causa da crise da Ucrânia-Crimeia, e fechou contrato de US$ 50 bilhões com Moscou para a compra de gás natural.

"Campanha fecha ciclo de 64", por Gaudêncio Torquato

O Estado de São Paulo


Mentiras e versões grassam por toda parte. A campanha eleitoral só pode chegar às ruas em 6 de julho, mas já começou. Basta ver a agenda dos três principais candidatos, em que o destaque é a oratória de palanque, com acusações recíprocas, defesas e promessas. Luiz Inácio poderá voltar e tomar o lugar de Dilma Rousseff como candidato do PT? Ora, ele nega peremptoriamente.
 
A propaganda governamental - dos governos federal e estaduais - é proibida de veicular mensagens de cunho eleitoreiro, porém o que se vê são mensagens de feitos de governantes versando sobre temas de impacto, em evidente sinalização de propaganda eleitoral. Sob a exuberante arquitetura de 12 arenas locupletadas - a partir de 12 deste mês -, que abrigarão o maior espetáculo esportivo do planeta, a Copa do Mundo, a ser vista por 4,5 bilhões de pessoas em 212 países, ares de medo e interrogação se espraiam pelo território, a indicar um dos pleitos mais contundentes de nossa história política.
 
Por que a eleição deste ano assume posição de destaque na série histórica das disputas? Pelo fato de o Brasil se aproximar, velozmente, de uma encruzilhada, tendo de decidir se continuará a seguir em frente, à direita ou à esquerda. As direções, neste caso, dizem menos respeito às linhas do arco ideológico e mais às de busca de alternativas, do tipo redefinição de estratégias de desenvolvimento, correção e ajustes macroeconômicos, realização de reformas (política, fiscal-tributária, previdenciária, educacional), adequação do papel e do tamanho do Estado a uma nova ordem social e política e ações em áreas sensíveis, como direitos humanos, comunicação, sustentabilidade, infraestrutura, servidores públicos, etc.
 
A par das mudanças clamadas pela sociedade e confirmadas por pesquisas, que se imporão a qualquer vitorioso(a) no pleito, trata-se, ainda, de abrir horizontes na radiografia hegemônica do poder, dando chance a novos atores, avançando sobre a desgastada polarização PT-PSDB e oxigenando os pulmões da velha política.
 
A campanha deste ano agrega forte diferencial pelo fato de reunir três perfis competitivos, representando grupos partidários de expressão, cada qual, a seu modo, procurando interpretar as demandas de uma comunidade mais exigente, ativa e participativa. Nunca se ouviu tanto o eco das ruas como neste momento. O clima continua sob os efeitos (hoje mais débeis) da torrente escandalosa que pegou os costados do PT.
 
A Ação Penal 470 deixa ver nuvens sombrias sobre o partido que está no comando do poder e se apresentava como a vestal da República. Ainda a pontuar diferenças, o pleito contará, pela primeira vez, com uma classe média majoritária, que perfaz 53% da população, mesmo segmentada em três compartimentos (A, B e C).
 
Por último, o destaque de que a contenda fecha o ciclo de 1964. Expliquemos: os pesados anos de chumbo redefiniram os rumos da política, fazendo nascer partidos, formando grupos, multiplicando alas e dando margem à diástole que propiciou a abertura dos horizontes democráticos. Os atores alçaram ao patamar contemporâneo sob o empuxo de um discurso que teve como eixo o combate ao passado sombrio.
 
Fernando Henrique, José Serra, Luiz Inácio e Dilma, entre outros, fazem a ponte entre o ontem e o hoje, eles que padeceram sob o tacão da ditadura militar. Vozes do passado ainda se ouvem. Mas é forte o clamor para que o País descortine uma nova era, dando vez ao grupo pós-64.
 
Por isso mesmo a batalha se cerca de inusitado preparo com o uso antecipado de ferramentas, incluindo intensa propaganda política, manipulação das massas, alianças sem eira nem beira, lógica/ilógica dos discursos.
 
O medo torna-se arma de guerra. É um recurso extremo, de efeito devastador. Como pregava Hitler, “é apenas na aplicação permanentemente uniforme da violência que consiste a primeira das condições de sucesso”. Implicava a “violação psíquica das massas pela propaganda emotiva baseada no medo”.
 
Serge Tchakotine, em A Mistificação das Massas pela Propaganda Política, explica que Hitler usou a estratégia do medo para ativar os dois primeiros instintos humanos: o impulso combativo (o medo e a luta pela sobrevivência, contra incertezas, obstáculos, inimigos, etc.) e o impulso nutritivo (alimento, bolso com dinheiro para suprir o estômago). Para ganhar as massas, ensinava Goebbels, “é preciso contar com sua fraqueza e bestialidade, baixar o nível intelectual da propaganda, simplificar as ideias complicadas”.
 
Mas os tempos são outros. O dito hitlerista “quanto maior a mentira, maior a chance de todos nela acreditarem” não engabela como no passado, apesar da possibilidade de ainda enrolar incautos e incultos. Entre nós, a estratégia do medo bate nos fundões sob os braços do assistencialismo.
 
Acontece que a estratégia do terror foi banalizada, já não finca raízes profundas. A população, mesmo a das margens, parece vacinada contra a artilharia psicológica adotada em guerras eleitorais. Será difícil convencer comunidades de que um programa como o Bolsa Família, por exemplo, será extinto. Tornou-se política de Estado. E é pouco provável que temas abstratos - privatização da Petrobrás, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica - sejam palatáveis aos sentidos das massas.
 
Os governantes, é oportuno lembrar, têm a vantagem do “poder da caneta” - liberar verbas, aprovar projetos, nomear pessoas - para dar crédito às promessas. Mesmo assim, a credibilidade do discurso palanqueiro perde força.
 
Infere-se, portanto, que as firulas nos campos eleitorais não derrubam jogadores, como certos “técnicos” do marketing eleitoral imaginam. A esperança, essa, sim, é o xis da questão. O Brasil esperançoso é o do crescimento, da harmonia, da segurança, do trabalho. Que candidato veste melhor esse figurino? Quem fará as mudanças que todos clamam? Abraham Lincoln dizia que “demagogia é a capacidade de vestir ideias menores com as palavras maiores”. Quem tem coragem de arriscar?

"O desmazelo fiscal", por Fernando Henrique Cardoso

O Estado de São Paulo

Alguns analistas repetem o refrão: vistos em conjunto, os governos Itamar Franco/Fernando Henrique e Lula/Dilma serão percebidos no futuro como uma continuidade. Houve a estabilização da economia, as políticas sociais foram ativadas e a democracia, mantida.
 
Sim e não, digo eu. É certo que no primeiro mandato de Lula as políticas macroeconômicas foram sustentadas pelo chamado “tripé” (Lei de Responsabilidade Fiscal, metas para a inflação e câmbio flutuante) e que a crise de 2008 foi razoavelmente bem manejada. Mas depois o governo lulista sentiu-se à vontade para levar adiante o sonho de alguns de seus membros.
 
A então poderosa ministra-chefe da Casa Civil se opôs desde logo aos economistas, inclusive do governo, que propunham limitar a expansão do gasto público ao crescimento do produto interno bruto (PIB).
 
Na área fiscal, só fizemos piorar. Ao mesmo tempo, pouco se fez para sanear a máquina pública, infiltrada por militantes e operadores financeiros, e estancar a generalização do dá cá (apoio ao governo e votos), toma lá (nomeações para ministérios, empresas públicas e áreas administrativas).
 
O governo alardeia estar cumprindo as metas de superávit primário, quer dizer, o resultado das contas públicas antes do pagamento dos juros da dívida. Cumprir essas metas é essencial para assegurar a queda da dívida como proporção do PIB. Desde 2009 o governo vem se valendo de expedientes para “cumpri-las”, às vezes mediante fabricação de receitas por contabilidade criativa, como em 2012, ora com uso de receitas extraordinárias, como em 2014, quase sempre com o adiamento de despesas que vão engordando os chamados restos a pagar.
 
Afirma o governo que o superávit de 2014 será igual do ano anterior. Será? Custa-me a crer, pois o superávit de 2013 computou o resultado do leilão da concessão de exploração de petróleo no poço de Libra (R$ 15 bilhões) e a antecipação incentivada à Receita de R$ 22 bilhões devidos por empresas. Somados, esses recursos geraram R$ 37 bilhões. Ou 0,8% do PIB, quase a metade do superávit primário do ano passado (1,9%). De onde virão as receitas extraordinárias em 2014? Fará o governo leilões do pré-sal usando a “amaldiçoada” lei anterior que não exige capitalização da Petrobrás e antecipa maiores recursos ao Tesouro? Seria a suprema ironia.
 
A única certeza é a de que a expansão do gasto público é crescente: em janeiro deste ano (mês no qual, em geral, as despesas caem com relação a dezembro do ano anterior) houve uma expansão de R$ 4 bilhões. Ou seja, o que não foi pago em dezembro de 2013 será pago no ano em curso. Se tivesse sido pago, o superávit de 2013 teria sido de apenas 1%, dos quais 0,8% proveniente de receitas extraordinárias!
 
A tendência à expansão do gasto vem de longe. E acentuou-se no governo de Dilma. Em 2013 a despesa atingiu 19% do PIB (era de 11% em 1990). O crescimento do gasto como proporção do PIB nestes últimos três anos foi mais de duas vezes superior ao observado em meu segundo governo, quando se instituiu o regime de metas de inflação e responsabilidade fiscal, com metas de superávit primário e controle do gasto público.
 
O governo atual alega que a dívida líquida não cresceu nesse período. E que a dívida bruta, embora tenha aumentado, estaria sob controle. É fato que, como proporção do PIB, a dívida líquida não cresceu e que a bruta, em comparação com a de alguns países desenvolvidos, aparentemente não nos deveria preocupar. Seria verdade não fosse pelo “detalhe” de que o custo da nossa dívida é muito maior. Basta um exemplo: no ano passado, com uma dívida bruta de 66% (segundo o FMI), ou um pouco menos de 60% (segundo o governo), o Brasil gastou 5,2% do PIB com juros da dívida; já a arruinada Grécia, com uma dívida bruta de mais de 170% do PIB, gastou 4%!
 
O não crescimento da dívida líquida se deve em boa medida, mais uma vez, a um truque fiscal. Ele consiste em fazer o Tesouro tomar dinheiro emprestado no mercado, mais de R$ 300 bilhões desde 2009, e repassar o dinheiro ao BNDES. Na contabilidade da dívida líquida, uma operação anula a outra, pois a dívida contraída com o setor privado pelo Tesouro se transforma em crédito do mesmo Tesouro contra o BNDES, que é 100% controlado pelo governo.
 
Acontece que os juros que incidem sobre a dívida contraída com o mercado são muito mais altos do que os juros cobrados pelos empréstimos do BNDES, para não falar no risco de parte desses empréstimos não ser paga jamais. O Tesouro deveria compensar o BNDES por essa benevolência, mas não o vem fazendo: ao final de 2013 já eram R$ 17 bilhões devidos pelo Tesouro ao BNDES para equalizar a diferença nas taxas de juros.
 
Os empréstimos do Tesouro ao BNDES não são um caso isolado. Dados do economista Mansueto Almeida mostram que o volume de empréstimos do Tesouro a bancos públicos aumentou cerca de 20 vezes desde 2007, passando de 0,5% para mais de 9% do PIB! Vamos, de truque em truque, em marcha firme para a produção do que no passado chamávamos de “esqueletos”, ou dívidas não reconhecidas.
 
Tudo isso foi feito com a justificativa de que era necessário para estimular a economia. Porém, em lugar de mais investimento e mais crescimento, colhemos apenas mais inflação e maior fragilidade fiscal.
 
Como o lulopetismo sabe que é difícil enganar sempre, tenta agora desacreditar os adversários.
 
Alardeia que diante desse quadro, se o PSDB e as oposições ganharem, vão tratar os consumidores e o povo a pão e água. Puro desvario. O controle sobre o desarranjo fiscal e a inflação não precisa recair sobre o povo. As bolsas consomem apenas 0,5% do PIB. Fizemos a estabilização da moeda, controlamos gastos do governo e, ao mesmo tempo, aumentamos o salário mínimo, realizamos a reforma agrária, universalizamos o ensino fundamental, fortalecemos o SUS e introduzimos programas de combate à pobreza.
 
Está na hora de pôr ordem na casa e o governo nas mãos de quem sabe governar.

"O pelo e o vício", editorial do Estadão

O PT perde o pelo, mas não perde o vício. Como se já não houvesse motivos de sobra para a insatisfação popular difusa e generalizada que se manifesta diariamente, e quase nunca pacificamente, nas ruas, o comando do partido volta a insistir em recolocar na agenda política uma questão já consensualmente resolvida pela sociedade brasileira, mas que tem alto potencial de incandescência emocional: a revogação da Lei da Anistia.

Reunida na segunda-feira em Brasília, a Executiva Nacional do partido definiu as diretrizes do programa de governo petista. E incluiu entre elas a reivindicação da punição dos crimes praticados por agentes do Estado - e apenas estes - durante a ditadura militar, sob o argumento de que isso ajudaria a "impedir a continuidade dessas práticas nas Forças Armadas e de Segurança, na Justiça e no sistema prisional, na criminalização dos movimentos sociais e na discriminação contra camadas populares".

O acento palanqueiro-populista desse argumento escancara a principal característica de uma retórica que apela irresponsavelmente à cizânia, à divisão da sociedade brasileira entre "nós" e "eles", os bons e os maus, e que inclui entre estes últimos aqueles que "criminalizam" os movimentos sociais e "discriminam" as "camadas populares". Ou seja, todos os malvados que cometem o crime de não ser petistas.

Essa retórica eleitoral lulo-petista encarna um espírito diametralmente oposto ao da conciliação nacional que permitiu, 35 anos atrás, a transição pacífica do regime ditatorial para o democrático que viria a possibilitar, quase um quarto de século depois, a eleição de um ex-metalúrgico à Presidência da República.

O retorno dos militares ao quartel e a consequente devolução à sociedade civil de, entre outros direitos, o de escolher nas urnas seus governantes, foi uma conquista das forças políticas que, em nome dessa sociedade, se reuniram numa frente ampla que, ao cabo de duas décadas de resistência, teve a capacidade de negociar com os então detentores do poder uma transição pacífica para a democracia.

Foi uma luta facilitada, é claro, pela evidência de que o regime militar, cada vez mais repudiado pela consciência democrática do povo brasileiro, cedo ou tarde acabaria se rendendo ao desfecho de um processo de "distensão lenta e gradual" iniciado, sob pressão popular, já no governo do general Ernesto Geisel.

Esse processo só não se desenvolveu mais ampla e rapidamente porque algumas lideranças da frente ampla resistiram o quanto puderam a uma negociação da qual foi peça decisiva a Lei da Anistia, proposta ao Congresso no segundo semestre de 1979 pelo último presidente-general.

E não foi por mera coincidência que essas lideranças que não desejavam a conciliação, mas o confronto, Lula à frente, se tornaram pouco tempo depois as fundadoras do Partido dos Trabalhadores.

Já seria lamentável se essa renovada disposição do PT de tentar retomar a discussão da Lei da Anistia, no ambiente pouco sereno e racional dos palanques, apenas denunciasse o apego oportunista ao velho vício do confronto maniqueísta que é a marca registrada de Lula.

A tentativa é, porém, mais um atentado ao espírito democrático da sociedade brasileira, que o PT não hesita em sabotar em benefício de sua obsessão de permanecer no poder a qualquer custo.

De acordo com o secretário-geral do PT, deputado Geraldo Magela (DF), a revogação da Lei da Anistia é necessária porque "o Brasil precisa se reencontrar com a verdade histórica". Uma verdade que está sendo diligente e eficientemente perseguida pela Comissão Nacional da Verdade e também por aquelas de âmbito estadual ou municipal. Mas o PT não se satisfaz com a verdade. Quer castigar aqueles que não foram punidos porque a sociedade brasileira decidiu anistiá-los num pacto que permitiu a reconquista pacífica do regime democrático.

Para o PT, anistia não vale para todos. Só vale para os que cometeram crimes na luta contra a ditadura.

Dilma 'trambique' inaugura obra inacabada no Aeroporto Internacional do Galeão

 

Felipe Werneck - O Estado de S. Paulo
 

Reforma dos terminais 1 e 2 custou R$ 354,75 milhões, mas ainda não está concluída e não ficará pronta para a Copa


A presidente Dilma Rousseff (PT) participou na manhã deste domingo, 1º, da inauguração oficial da nova área de embarque internacional do terminal 2 do Aeroporto Internacional do Galeão, na Ilha do Governador, zona norte do Rio de Janeiro. A reforma dos terminais 1 e 2 do Galeão custou R$ 354,75 milhões, segundo a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), mas está inacabada e não ficará pronta para a Copa do Mundo.
      
A assessoria da Presidência impediu o acesso de repórteres - apenas cinegrafistas e fotógrafos puderam entrar no local e acompanhar a "visita inaugural".


As obras no Galeão começaram em 2008, mas a reforma atrasou. A nova área de embarque internacional inaugurada pela presidente é parte da ampliação do terminal 2 e está em funcionamento desde janeiro. No entanto, as obras no terminal 1 e no novo setor de desembarque internacional do terminal 2 continuam inacabadas e não ficarão prontas até a Copa. Vários trechos do Galeão estão cercados por tapumes.

O ex-governador do Rio Sérgio Cabral Filho (PMDB) chegou ao aeroporto acompanhado do prefeito Eduardo Paes (PMDB) para participar da cerimônia.

Dilma ainda participará nesta manhã da inauguração do BRT Transcarioca em Madureira, na zona norte, e da entrega de 564 apartamentos no Complexo de Manguinhos, também na zona norte.
Dilma inaugura obra inacabada no Aeroporto Internacional do Galeão
Dilma Rousseff (PT) inaugurou obra no Galeão ao lado do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB)
Marcos Arcoverde/Estadão

"O custo da transigência", por Dora Kramer

 
Qual a diferença entre os saques, invasões, depredações e bloqueios patrocinados pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra sob o olhar complacente do governo do PT e os saques, invasões, depredações e bloqueios que o governo do PT promete reprimir com firmeza para evitar a "baderna" (palavra da presidente) durante a Copa do Mundo?

Do ponto de vista da legalidade, rigorosamente nenhuma. E foi isso que o presidente Luiz Inácio da Silva ao ganhar a eleição em 2002 não soube perceber: a lei vale para todos e, uma vez transgredida com autorização do Estado, mais cedo ou mais tarde, a barbárie se generaliza.

Para recapitular: ao assumir a presidência, Lula nomeou Miguel Rosseto para o Ministério da Reforma Agrária. Era oriundo da MST do Rio Grande do Sul. Primeira providência do ministro foi tornar letra morta medida provisória de 2001 que modificava a lei 8.629 que por sua vez regulamentava o capítulo relativo à reforma agrária na Constituição.

Dizia, em resumo, que invasores de terras produtivas estariam excluídos do programa de assentamentos e que a entidade, organização ou movimento que de qualquer forma auxiliasse, colaborasse, incentivasse, incitasse, induzisse ou participasse de invasões de imóveis rurais ou de bens públicos não receberia recursos de governo.

Rosseto ignorou a MP e ainda a qualificou como "violência de Estado". O dinheiro continuou sendo repassado. Lula, em cena inesquecível no mês de julho de 2003, recebeu o MST em seu gabinete no Palácio do Planalto e pôs na cabeça o boné do movimento. Isso enquanto militantes invadiam uma repartição pública em Alagoas e bloqueavam uma estrada em Minas Gerais.

João Pedro Stédile saiu do encontro triunfante: "A reunião foi ótima, vai dar 5 a 0 contra o latifúndio no segundo semestre". Realmente, a vitória foi de goleada, mas os perdedores não foram os latifundiários. Derrotados foram os cidadãos que apostam num país organizado e um governo que ao deixar uma minoria livre para transgredir acabou sem moral para convencer os que se acham no mesmo direito que a ordem é patrimônio da maioria.

Figuração. A presidente Dilma criou nove conselhos com a pomposa função de pôr em prática a Política Nacional de Participação Social. Objetivo? "Consolidar a participação social como método de governo". Método? Os órgãos de governos ficam obrigados a fazer consultas aos conselhos "populares" antes de definir políticas sobre "grandes temas".

A ideia foi recebida com receio de que isso pudesse representar uma agressão à democracia representativa. A prática, porém, indica que não há nada a temer e que os conselhos são mera cenografia de "diálogo".

Lembram-se do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social? Criado em maio de 2003 para "assessorar o presidente da República na formulação de políticas e diretrizes específicas, apreciar propostas de políticas públicas e de reformas estruturais e desenvolvimento econômico e social", era composto por representantes dos "trabalhadores, empresários, movimentos sociais, governo e lideranças expressivas de diversos setores".

Pois não se conhece um alfinete que tenha sido produzido com a chancela do Conselhão.

O tempo voa. Novidade nem constrangimento algum desta vez na cena de apoio de Paulo Maluf ao candidato do PT ao governo de São Paulo, Alexandre Padilha. Maluf, que também já deu muito apoio ao PSDB, está com Dilma na presidencial e nesta eleição em especial não poderia ser diferente.

A menos que resolvesse ficar com Eduardo Campos. Esquisito seria se apoiasse Aécio Neves, cujo avô, Tancredo, há 29 anos o derrotou fragorosamente no colégio eleitoral que escolheu o primeiro presidente civil depois de 21 anos de regime militar.