sábado, 20 de fevereiro de 2016

Ascensão e Decadência: viagem do paraíso ao inferno de Lula, por Vitor Hugo Soares

Com Blog do Noblat - O Globo

“Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do coco, afinal”
(Verso de “A Banca do Distinto”, samba antológico de Billy Blanco).                
Na encruzilhada da atualidade política, econômica, social e ética, da vida brasileira, poderá parecer cruel para uns, e inoportuna para outros, citar a música famosa, feita em desagravo à desfeita sentimental sofrida por  Dolores Duran, confessada ao amigo, pela artista, em noite de fossa, álcool e cigarro, num bar de Copacabana. Isso “há muito tempo atrás”, como era comum dizer-se nas canções de então.
Além disso, nunca é demais repetir: estamos em plena Quaresma, período do calendário cristão que aponta para uma advertência crucial, ao ser humano em geral, de qualquer religião ou mesmo sem credo algum, incluindo o ateu que acredita em milagres, a exemplo do jornalista que assina esse artigo semanal de opinião: “Lembra-te de que és pó, e ao pó retornarás”.
Pensamento verdadeiro e transcendente, mais atual que qualquer letra de samba.
Acontece, também, e merece registro: o verso simbólico de Billy Blanco ganha maior significado quando comparado com as imagens e palavras de um vídeo, do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Depoimento político carregado de bravatas e explosão de ego inflado, nas alturas (real e metaforicamente falando), que circula há anos na Internet. 
Revi inúmeras vezes e com maior atenção esta semana. São registros de passado mais remoto ou mais recente, que ressurgem, não por simples acaso, neste espaço e nestes dias quaresmais, de fevereiro de 2016. Ao lado dos fatos espantosamente significativos, do tempo temerário que atravessamos, mostrados ao País, esta semana, em frente ao Fórum de Justiça da Barra Funda, em São Paulo. Demonstrações públicas e contundentes, de realidade e contexto sobre os quais não é mais possível negar, camuflar e muito menos tergiversar (para usar uma expressão de cunho ideológico bem ao gosto de alguns segmentos das chamadas “esquerdas brasileira”.
Refiro-me, evidentemente, ao fenômeno da política nacional mais intrigante do momento: a notável e histórica ascensão de um líder e seu partido, ao ponto máximo do poder, em contraste agora com vertiginosos sinais de decadência e descrédito, que parecem a cada dia dominar Lula e do PT.
O que faz o ex mandatário exibir sintomas cada vez mais freqüentes de cansaço físico, descuido pessoal, isolamento e agressivo desarvoramento mental e gestual, que preocupam progressivamente os seus mais próximos: na política, no poder e, principalmente, nos círculos fechados dos grupos econômicos de alto coturno, de onde pipocam - depois de suspeitas levantadas pela Lava Jato e outras operações de rastreamento, de procuradores da República e agentes da PF - evidências de arranjos (a expressão preferida dos petistas no poder) e negócios nada republicanos, que cobram explicações firmes, ágeis e cabais do ex-presidente, à sociedade em geral e, em particular, aos que ainda seguem sua liderança.
Comando e segurança que há pouco pareciam inabaláveis, mas que se fragilizam, cada vez mais, à medida que o próprio Lula se esconde em versões evasivas. E os que o defendem e apóiam substituem argumentos civilizados e democráticos, pela baderna e grosseria mais selvagem, a exemplo das ocorrências em frente ao Fórum da Barra Funda.
Este fenômeno que contaminou Lula, neste mês de fevereiro, se mostra tão viral e surpreendente quanto o do mosquito (ou mosquita?) transmissor da zika, o aedes aegypti, que voa há 30 anos no Brasil, e agora virou alvo principal de “guerra” declarada pela mandatária, que aparenta não se preocupar com mais nada, além de atacar Eduardo Cunha, rachar o PMDB e tentar aprovar a CPMF, panacéia petista para acabar com todos os males do País. Incluindo o mosquito da zika.
No caso de Lula, quanta diferença para o líder que aparece no vídeo referido no começo deste artigo. A cinco dias da vitória eleitoral espetacular que o levaria (e o PT) ao Palácio do Planalto e daí ao topo do mundo! O Lula que, dentro do jatinho, em vôo para o comício de quase encerramento da campanha de 2002, em Belém do Pará, mal se continha, tomado pela euforia do ego inchado, vaidade e arrogância (vestida de operário de linha de montagem, na comparação de Brizola).
Acompanhado do empresário mineiro Zé Alencar, candidato a vice, sentado na poltrona ao lado, cercado de assessores e marqueteiros que o incensam, a cada frase Lula se supera: chama de “pelegão” (e sugere atitudes dúbias e moralmente desabonadoras) a Lech Waleska, companheiro do Sindicato Solidariedade e depois presidente da Polônia. Se compara aos craques Didi e Zizinho, quando jogava futebol (até tira o sapato para mostrar as marcas no pé com o qual batia “folhas secas” ao jeito do craque do Botafogo). Alardeia sobre o fascínio que então exercia sobre estudantes, intelectuais e padres, bispos e fiéis da “igreja da opção preferencial pelos pobres”. E mais não digo, mas recomendo o vídeo integralmente.
Só mais duas singelas perguntas antes do ponto final: onde anda, e como se sustenta Lech Waleska, atualmente? E o futuro de Lula, qual será? Responda quem souber.
Governar é (Foto: Neo Correia)