sábado, 1 de março de 2025

Os imparáveis militantes políticos togados, por Lucas Berlanza

Os ministros do STF protegeriam a democracia se silenciassem a si próprios e se recolhessem ao seu papel constitucional


Foto oficial dos ministros do STF registrada durante a posse de Dino no lugar de Rosa Weber - 22/2/2024 | Foto: Antonio Augusto/SCO/STF

Por muito tempo, mesmo no Brasil, estivemos acostumados a ver comentários e posicionamentos político-partidários sendo  veiculados nos meios de comunicação de massa pelos políticos. Os candidatos ou militantes de um partido, ou aqueles que estivessem exercendo um mandato eletivo, expressavam suas posições e as dispunham para o debate — ou embate — público. 

Nos últimos tempos, porém, os ministros do STF passaram a progressivamente assumir esses holofotes. Por algum motivo, nos últimos dias, eles nos obrigaram a tolerar uma saraivada de manifestações opinativas de sua lavra, totalmente desvinculadas dos autos e muito além das questões meramente jurídicas, em um esforço que parece até sincronizado para legitimar e propagandear o regime de autoritarismo juristocrático em vigência. De fato, é difícil me lembrar de um comentário de político gerando manchetes na última semana, mas nada mais fácil que ver um ministro do STF (ou, talvez seja melhor dizer, um político de toga) estampando uma notícia. 

Começamos por Gilmar Mendes, que concedeu entrevista ao Estadão. Além de opinar sobre a impopularidade de Lula, afirmando que é mais uma “fotografia do que um filme” e requer ações do governo para ser revertida, como se a sociedade quisesse saber a sua opinião sobre isso ou como se lhe coubesse dar conselhos políticos ao presidente da República, ele basicamente antecipou voto sobre as acusações de trama de golpe de Estado feitas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e seu entorno. 

De acordo com o ministro do STF atualmente há mais tempo no cargo, tudo, desde manifestações em frente a quartéis até o 8 de janeiro, faz parte de um mesmo grande plano, e “a cogitação e a preparação de atos no sentido de tumultuar a cena política, inverter a cena política, já são puníveis”. Manifestar, cogitar, duvidar, ter a ideia — isso já basta para sentenciar cidadãos à cadeia por quase 20 anos, que o digam os presos do dia 8. O que é “tumultuar a cena política”? Não se vê o imenso perigo nessa vagueza narrativa? 

Luís Roberto Barroso, atual presidente do STF, por sua vez, foi mais equilibrado, comentando que, apesar de sugerir uma “aparente articulação para um golpe de Estado”, a denúncia da Procuradoria01/03/2025, 16:33 STF: os imparáveis militantes togados https://revistaoeste.com/politica/stf-os-imparaveis-militantes-politicos-togados/ 2/8 Geral da República contra Bolsonaro e outras 33 pessoas ainda precisa ser analisada à luz das provas. No entanto, o caçador de atenções, que já declarou, em verdadeiro comício para a União Nacional dos Estudantes, que integrava o grupo que “derrotou o bolsonarismo”, reafirmou a importância da punição adequada dos extremistas de 8 de janeiro para evitar que aconteça uma nova “tentativa de golpe de Estado” — portanto, ele insiste em corroborar que os atos de vandalismo daquela ocasião podem ser qualificados dessa forma. Esteve ainda em um painel para versar sobre a infiltração do crime organizado no Estado brasileiro, mas, paradoxalmente ou não, fez também propaganda em evento do BTG Pactual das “boas relações com todos os países no mundo” e da “estabilidade institucional” do Brasil como características que o manteriam como “o país mais atraente para investimentos”.


O ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino, e o presidente do TSE, Alexandre de Moraes | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Alexandre de Moraes e Flávio Dino se encarregaram de panfletar em aulas magnas apresentadas a diferentes faculdades: o primeiro na USP e o segundo na PUC-SP. Em vez de apreciar questões do Direito, o ministro indicado por Michel Temer e que virou merecidamente alvo de atenções no Hemisfério Norte do planeta preferiu filosofar sobre como o cenário de hoje reflete uma revolta “pela universalização de direitos e pela excessiva concentração de renda” por parte de homens brancos e heterossexuais, instrumentalizados pelas big techs e pelo “populismo digital” contra as minorias oprimidas, constituindo “grupos econômicos e ideológicos fascistas, de extrema direita, para corroer a democracia por dentro”. Esse, para ele, é o desafio de quem defende a democracia hoje — à testa dos quais ele próprio estaria como grande baluarte. 

O comício de Moraes encontrou coro em Flávio Dino, ex-governador do Maranhão pelo Partido Comunista do Brasil, que asseverou que, “se a política não consegue resolver os problemas, isso vai para algum lugar”, que seria o STF: “O Supremo, a meu ver, independentemente da coragem, da opção teórica de cada julgador, está ‘condenado’ a arbitrar temas políticos, econômicos e sociais, o que significa dizer que nós vamos continuar apanhando muito”.

Esquece-se convenientemente Dino de que, se os políticos, eleitos para tal, não resolveram politicamente um problema, significa que, ou os representantes escolhidos pela sociedade dentro de nosso pacto institucional para essa tarefa decidiram não o priorizar, ou as correntes de opinião não conseguiram encontrar uma solução média, ou a solução encontrada não agrada a Dino e a seus pares. Em qualquer um dos casos, a única opção que lhes deveria caber em um regime liberal-democrático seria respeitar a posição institucional do Executivo e do Legislativo. Impor seus entendimentos é algo que somente ditadores fazem. “Pimpões” e falantes, os togados não aceitam a discrição esperada de seu cargo e voam imparáveis para os holofotes como os cupins alados se dirigem desesperadamente para a luz. O que os motiva a estarem tão ativos neste momento? Deixo ao leitor o condão de buscar a resposta, talvez em causas internacionais. Certo é que isso é nada menos que sintoma do estado de metástase a que chegou o câncer da deterioração do Estado de Direito no Brasil. Os ministros do STF protegeriam efetivamente a democracia se silenciassem a si próprios e se recolhessem ao seu papel constitucional. Não existe nenhuma milícia ou organização armada ameaçando as instituições brasileiras neste momento, e, mesmo que houvesse, não caberia aos julgadores a tarefa de combatê-las.


Lucas Berlanza - Revista Oeste

QUE FALTA FAZ A ARTE EM DEFESA DA LIBERDADE - Magna Carta por Ricardo Gomes - Brasil Paralelo

The French Connection (1971) com Gene Hackman, Fernando Rey e Roy Scheider

Anistia aos presos políticos do 8/1 avança na Câmara

Parlamentares próximos a Jair Bolsonaro (PL) querem aprovar o projeto neste primeiro semestre, contando com apoio do chamado ‘Centrão


Plenário da Câmara dos Deputados | Foto: Divugação/Flickr/MDB

O PL da Anistia aos presos de 8 de janeiro de 2023 deve avançar para discussão em plenário da Câmara dos Deputados ainda neste primeiro semestre, conforme fontes do alto escalão do Partido Liberal (PL) ouvidas pela coluna. 

No início da semana, o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), já havia confirmado o apoio de pelo menos 230 parlamentares. A oposição articula desde a volta do Legislativo o diálogo sobre a anistia com outros líderes partidários do chamado “Centrão”. 

Integrantes do PL, próximos ao ex-presidente Jair Bolsonaro, afirmam que a adesão de parlamentares do Centrão subiu. Estima-se que o apoio ultrapasse 230 deputados. É preciso o apoio de 257 para que o projeto seja aprovado na Casa.

Líderes buscam a tramitação da anistia Em entrevista exclusiva à coluna, a líder da minoria na Câmara, Carol De Toni (PL-SC), afirma que a pauta da anistia é uma “prioridade” para a oposição. A deputada destaca que desde que o projeto foi retirado de pauta da CCJ — sob sua presidência — no fim de 2023 pelo então presidente da Casa, deputado Arthur Lira (PPAL), “trabalha para que essa pauta não caia no esquecimento”. 

“Não desistiremos até sua aprovação”, declara. “Já são mais de dois anos de sofrimento para centenas de famílias, com inocentes pagando por crimes que não cometeram. Recebemos relatos diariamente e seguimos atuando em diversas frentes.” 


À frente da CCJ da Câmara em 2024, a deputada Carol De Toni, já havia articulado a aprovação do projeto no colegiado antes do texto ser retirado de pauta por Arthur Lira | Foto: Izac Tomaz/Divulgação

A parlamentar diz que a oposição cobra do novo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a “instalação imediata da comissão especial para a aprovação da anistia”.

de 40 parlamentares, para criar uma comissão externa destinada a fiscalizar as investigações e denunciar violações de direitos fundamentais contra os detidos nos atos de 8 de janeiro. Seguiremos firmes até que a verdadeira justiça seja feita”, finaliza.


O líder da minoria na Câmara, Luciano Zucco (PL-RS), também articula a aprovação da proposta pelo plenário da Casa | Foto: Mario Agra/Câmara dos Deputados


Já o líder da oposição na Casa, Luciano Zucco (PL-RS), declara que o “o fato é que a pauta está madura”. “A anistia é mais do que necessária, porque tem pessoas que tomaram uma punição maior do que a Elize Matsunaga, condenada por matar e esquartejar o marido”, destaca. 

“Nós estamos dialogando há um bom tempo, expondo as denúncias referentes aos abusos cometidos judicialmente, a questão da proporcionalidade da pena, do devido processo legal e o direito à defesa”, afirma. “Tudo isso agora, com mais tempo, as pessoas começaram a refletir, entre elas, logicamente, os parlamentares.” 

Ainda em entrevista à coluna, Zucco cita o drama dos condenados pelas manifestações de 8 de janeiro de 2023: “São pessoas que perderam seus empregos, pessoas que estão presas, famílias destroçadas”.

 “A gente não quer que quem tenha depredando o patrimônio público não sofra as consequências”, sinaliza. “Mas por dano ao patrimônio público, vandalismo. Agora, caiu por toda e qualquer possibilidade a narrativa de golpe. Um golpe sem forças armadas, sem armas.” 

A coluna No Ponto analisa e traz informações diárias sobre tudo o que acontece nos bastidores do poder no Brasil e que podem influenciar nos rumos da política e da economia. Para envio de sugestões de pautas e reportagens, entre em contato com a nossa equipe pelo e-mail noponto@revistaoeste.com.

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