sexta-feira, 1 de abril de 2022

'Um Oscar para o Oscar', por Ana Paula Henkel

 

O ator Will Smith deu um tapa na cara do comediante Chris Rock na cerimônia do Oscar | Foto: Reprodução/Academy of Motion Picture Arts and Sciences


Se você, assim como eu, há muito tempo não assistia à cerimônia, certamente agora você já sabe que Will Smith decidiu dar um tapa na cara de Chris Rock


E aqui estamos falando do Oscar. Eles conseguiram. Depois de anos de vertiginosa queda na audiência das transmissões da entrega de prêmios daquela que já foi a festa mais espetacular e mais assistida de Hollywood, o mundo finalmente parou novamente para falar da cerimônia que há alguns anos se tornou uma bolha progressista de artistas afetados e desconectados da realidade. E o motivo não foi nenhum filme espetacular ou uma atuação magnífica de algum ator ou atriz, mas um tapa na cara do apresentador da cerimônia desferido pelo vencedor da estatueta de melhor ator.

Foi-se o tempo das manhãs de ressaca por ter ido dormir de madrugada depois de passar horas assistindo à cerimônia e torcendo para o filme A ou a atriz B levarem a famosa estatueta. Hollywood há alguns anos se tornou um show de hipocrisia, ataques políticos a apenas um lado do espectro político-ideológico e piadas sem graça feitas por e para os hedonistas da indústria. Se você, assim como eu, há muito tempo não assistia à cerimônia, certamente agora você já sabe que Will Smith decidiu dar um tapa na cara de Chris Rock durante a transmissão do Oscar no último domingo. Depois de esbofetear o mestre de cerimônia, Smith voltou ao seu lugar e gritou: “Mantenha o nome da minha esposa fora da m… da sua boca”, mostrando estar consternado com uma piada que Rock fez sobre o cabelo raspado de Jada Pinkett Smith, esposa de Will. Jada tem uma condição chamada alopecia, que resulta em perda de cabelo, e Chris brincou sobre ela estar em G.I. Jane 2, referindo-se a uma continuação de G.I. Jane, filme estrelado por Demi Moore, em que ela raspa a cabeça para encenar uma mulher que passa por um treinamento de operações militares. Poucos momentos depois do tapa, antes que alguém pudesse realmente digerir a cena vista no palco, Smith ganhou o prêmio de melhor ator e em seu discurso se desculpou, em lágrimas, com a Academia, dizendo que sentia que precisava defender sua família.


Pôster do filme G.I Jane | Foto: Divulgacão


Will Smith é um conhecido ator de blockbusters, como Homens de Preto, no entanto, não foi a primeira vez que o estrelato de Will Smith foi definido mais por sua vida pessoal do que por seus papéis na tela. Recentemente, ele documentou sua perda de peso em um programa no YouTube chamado Best Shape of My Life. Ele também apareceu na série do Facebook de sua esposa Red Table Talk, para discutir o casamento que há anos demonstra sinais de uma crise permanente com assumidos casos de traição por parte dela. Na série Welcome to Earth, do gigante Walt Disney, Smith testou sua coragem pessoal em aventuras na natureza ao redor do mundo. Em novembro do ano passado, revelando segredos profundos, o ator escreveu em Will, seu livro de memórias e que esteve durante vários meses nas listas de best-sellers: “O que você passou a entender como ‘Will Smith’, o aniquilador de alienígenas, a estrela de cinema maior que a vida, é em grande parte uma construção — um personagem cuidadosamente elaborado e afiado — projetada para me proteger”. Em uma recente entrevista, Jada Smith, que já admitiu ter tido outras relações fora do casamento com Will, declarou que gostaria de viver um “casamento aberto” e que “casamento não é prisão..

Enquanto muitos debatiam quem estava com a razão na bofetada agora vista por milhões e milhões de pessoas no mundo, se a piada de Chris Rock foi apenas uma piada de mau gosto ou um ataque à honra de Jada Smith e, por isso, Will estava coberto de razão em defender a honra de sua esposa, eu, como moradora da Califórnia há muitos anos e observadora das ações, reações e estratégias da bolha hollywoodiana, não pude deixar de contemplar alguns aspectos, no mínimo curiosos, no episódio. Como se trata de Hollywood, eu também não descartaria a hipótese de uma encenação.

Primeiro, não pude deixar de notar que os dois grandes patrocinadores do Oscar neste ano eram dois grandes nomes das big pharmas: Biontech e Pfizer. Sim, a Pfizer da pandemia e das controversas vacinas. Devido à condição capilar de Jada Smith, exposta pela “piada” de Chris Rock, a alopecia foi um dos assuntos mais debatidos e procurados nas ferramentas de busca nas 48 horas após o Oscar. Dentre os milhões de cliques e links, a cura para a doença estava entre as palavras mais pesquisadas. Curiosamente (coloque seu chapéu de alumínio agora!), em 2018, a Pfizer iniciou testes para um medicamento chamado Allegro 2b/3. Em agosto de 2021, a farmacêutica anunciou os resultados positivos dos testes finais da medicação e agora, em 24 de fevereiro, o NIH (National Institute of Health), o órgão administrador de pesquisas médicas dos EUA, publicou oficialmente os resultados do Allegro2b/3, que — curiosamente — promete tratar e curar a alopecia, a doença de Jada Smith que causa a queda de cabelo. Exposição planejada?

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Jada Pinkett Smith | Foto: Reprodução/Instagram

Bem, teorias conspiratórias à parte, o que não consegui deixar de notar foi a série de eventos hipócritas dentro de um evento bizarro, ensaiado ou não. Voltemos a fita um pouco. Há alguns anos, Hollywood encabeçou a criação do “Me Too”, movimento de “empoderamento feminino” contra o assédio sexual na indústria. Muitas atrizes de Hollywood que hoje são festejadas como “quebradoras do silêncio” passaram anos numa bizarra mudez alimentando uma perturbadora cumplicidade com produtores endinheirados e que acabou protegendo predadores sexuais. Enquanto roteiros de filmes eram trocados e fotos no tapete vermelho com vestidos de grife eram tiradas, outras mulheres sem a mesma projeção que as “empoderadas” de Hollywood eram vítimas de estupros e assédio sexual.  Por que demoraram tantos anos para se tornar “a voz das mulheres"?

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Manifestação do movimento Me Too em 2018 | Foto: Elvert Barnes Protest Photography/Wikimedia Commons


Enquanto essas mulheres poderosas e milionárias davam belos discursos com os olhos marejados sobre o assédio e a violência contra a mulher, elas também fingiam não saber quem eram os predadores, alguns deles na plateia, como Harvey Weinstein. Celebridades, homens e mulheres consagrados que escolheram se calar por anos e anos contra os algozes de quem não tinha a mesma voz. Perdoem meu francês, mas como respeitar mulheres que descem a roupa para subir mais rápido na vida e depois de conquistar todo dinheiro e sucesso posam de porta-vozes contra o assédio e a violência sexual? 

Quantas mulheres tão ou mais talentosas e aptas para seus postos abriram mão de estar no topo para manter a própria dignidade? É bom deixar bem claro: os vilões dessas histórias de assédio são evidentemente os assediadores, mas quem topa voluntariamente trocar sexo por uma promoção ou um caminho mais curto para a fama não merece prêmios nem respeito pelo simples motivo de que muitas mulheres, na mesma situação, recusaram a oferta. Outras ainda denunciaram seus agressores, correndo todo tipo de risco para que esses monstros não cometessem mais crimes e fizessem mais vítimas. E isso é só uma parte de Hollywood.

E se Chris Rock fosse um comediante branco fazendo uma piada horrorosa com uma mulher negra?

Nos últimos anos, temos sido bombardeados com a vil agenda do atual progressismo segregacionista. Mulheres contra homens, filhos contra pais, negros contra brancos, homossexuais contra heterossexuais. É a máxima da estratégia de guerra, tão usada pela seita marxista: dividir para conquistar, agora de roupa nova. No caso de Hollywood, de roupa de grife. Há quanto tempo escutamos que tudo é racismo, tudo é misoginia, tudo é homofobia… 

Tudo é tudo! O que faz com que todos sejamos racistas, homofóbicos, misóginos, ninguém, de fato, é. Na nação mais livre e empreendedora do mundo, onde a ascensão através do trabalho árduo anda de mãos dadas com oportunidades, parte doente da atual sociedade norte-americana vive entoando que a América é dominada pelo racismo estrutural, presente no seu DNA. 

O racismo sistêmico, assim pregam, está por todo lado. Policiais matam negros apenas por causa da cor de sua pele. Negros não conseguem lugares de destaque na racista sociedade norte-americana e discursos em festas como o Oscar pregam a injustiça contra pessoas negras que não têm oportunidades no seletíssimo clube hollywoodiano. 

O fato curioso da semana, ou a realidade esbofeteando a bolha, é testemunharmos três personagens milionários da nata do entretenimento — três afro-norte-americanos —, moradores de bairros ricos e elegantes de Los Angeles e do Estado com o maior PIB dos EUA e o quinto do mundo, sendo protagonistas no polêmico evento visto por milhões e milhões de pessoas no mundo. O ingresso mais barato do show de Chris Rock passou de US$ 80 para US$ 350.

Outros pontos interessantes sobre a bofetada são perguntas que deixaram a esquerda norte-americana confusa e sem resposta: se Jada Smith teve sua honra ferida por uma piada de gosto duvidoso (seja lá o que honra signifique para o casal que vive em um casamento aberto), o que aconteceu com a tal “masculinidade tóxica”? Homens defendendo suas esposas? Um pilar do conservadorismo norte-americano? Shame! Onde já se viu isso, progressistas? Mulheres empoderadas não precisam de homens! Como é mesmo a frase que as feministas do “Me Too” costumam dizer aqui? Ah, é… We are enough, ou nós somos suficientes. Hum.

Outra pergunta que é impossível não fazer: e se Chris Rock fosse um comediante branco fazendo uma piada horrorosa com uma mulher negra? E se Chris Rock tivesse feito uma piada com uma doença de uma atriz branca e seu marido loiro de olhos azuis tivesse se levantado e dado um tapa na cara do comediante negro? Sim, estaríamos na Terceira Guerra Mundial. E mais: a turma que prega amor entre todos os seres humanos, como é mesmo que eles dizem?…Ah! Love is love, agora valida a agressão física quando ofensas verbais são proferidas, ou temos que analisar antes a cor da pele, o gênero, a orientação sexual e, claro, o lado no espectro político-ideológico? A pergunta é retórica.

A Academia disse na quarta-feira que iniciou processos disciplinares contra Will Smith por violar seus padrões de conduta, “incluindo contato físico inadequado, comportamento abusivo ou ameaçador e comprometer a integridade da Academia”. Smith terá pelo menos 15 dias para responder sobre suas violações e poderá oferecer uma resposta por escrito. As punições podem incluir suspensão, expulsão ou outras sanções, disse o comunicado da Academia. O conselho se reúne novamente em 18 de abril. Na segunda-feira, Smith pediu desculpas a Chris Rock, à Academia e aos espectadores do programa em um post no Instagram, chamando seu comportamento de “inaceitável e imperdoável”.

Em Hollywood e para Hollywood, tudo é possível. Se o tapa foi pura encenação, só o tempo dirá, mas, assim como nas telas, é claro como o brilho das estatuetas que estas celebridades escondem verdades inconvenientes para blindar uma vida de festas, glamour, dinheiro e mentiras. Hipocrisia e atuações dignas de um Oscar.

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Revista Oeste

'O fim melancólico de Moro', segundo Rodrigo Constantino

 

Jair Bolsonaro e Sergio Moro | Foto: Divulgação/PR


Se tivesse críticas construtivas ao ex-chefe, tudo bem. Mas ele preferiu demonizar Bolsonaro, numa forçada e absurda equivalência moral entre o atual presidente e o ladrão Lula


Em um relatório final enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quarta-feira, 30, a Polícia Federal (PF) informou que não há elementos de crime de Jair Bolsonaro em caso que investigava suposta interferência do presidente da República na instituição. O relatório integra um inquérito aberto pelo ex-ministro do STF Celso de Mello a pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras, em abril de 2020, com base em declarações da época de Sergio Moro, ex-ministro da Justiça.

Na saída de seu cargo no governo, Moro acusou Bolsonaro de tentativa de interferência em investigações. Mais especificamente, o antigo juiz da Lava Jato relatou que o chefe do Executivo pressionou pela troca de Marcelo Valeixo, então chefe da Polícia Federal e indicado pelo ex-ministro da Justiça.

Segundo a PF, o presidente foi investigado pelos crimes de falsidade ideológica, coação no curso do processo, advocacia administrativa, prevaricação, obstrução de Justiça e corrupção passiva privilegiada. No relatório, a corporação concluiu que não houve elementos suficientes para caracterizar a ocorrência das infrações e que também não houve delito na atuação do ex-ministro Sergio Moro.

“No decorrer dos quase dois anos de investigação, 18 pessoas foram ouvidas, perícias foram realizadas, análises de dados e afastamentos de sigilos telemáticos implementados. Nenhuma prova consistente para a subsunção penal foi encontrada. Muito pelo contrário, todas as testemunhas ouvidas foram assertivas em dizer que não receberam orientação ou qualquer pedido, mesmo que velado, para interferir ou influenciar investigações conduzidas na Polícia Federal”, diz o relatório da PF.

Moro achou adequado sair do governo da forma que saiu, tudo para “preservar sua biografia”

Em suma, mais uma narrativa que se esvai. A mídia comprou a valor de face a denúncia de Moro, mas nada se comprovou. Sobre o relatório, Moro preferiu atirar no mensageiro: “A Polícia Federal produziu um documento de 150 páginas para dizer que não houve interferência do presidente na PF. Mas, certamente, as quatro trocas de diretores da PF falam mais alto do que as 150 páginas desse documento”.

Moro desqualifica o trabalho da Polícia Federal, insinua que os responsáveis pela investigação são desonestos, ataca uma instituição toda que é respeitada no país. Coisa feia. O presidente está proibido de exercer sua prerrogativa constitucional pois o Moro não gostou da mudança? Tinha que ser o seu homem de confiança, mesmo com o ex-ministro se mostrando tão traidor? Cada vez fica mais claro que Moro foi picado pela mosca azul e acreditou que tomaria o lugar do ex-chefe na marra. Não era pela biografia; era pelo poder!

Em meio a uma pandemia, Moro achou adequado sair do governo da forma que saiu, tudo para “preservar sua biografia”. Logo em seguida, passou a dar entrevistas para os veículos de comunicação que sempre agiram como partido de oposição ao governo. Depois, aliou-se oficialmente a jornalistas sem nenhuma credibilidade. Por fim, aproximou-se da turma desonesta do MBL, para fechar com chave de ouro a pintura de sua biografia.

Esteve ao lado do deputado Kim Kataguiri para justificar seu ganho de quase R$ 4 milhões durante apenas um ano em “consultoria” internacional, para uma firma que ganha fortuna com empresas encalacradas na Lava Jato, ignorando o conflito de interesses evidente. Kataguiri, pouco depois, estava num programa alegando que a Alemanha errou ao banir o partido nazista da política.

Moro resolveu depois elogiar a iniciativa de Renan Santos e Arthur do Val de viajar para a Ucrânia para “ajudar” os refugiados, apenas para se ver arrastado para o escândalo do áudio abjeto e revoltante do “Mamãe Falei”, querendo explorar “mulheres pobres”, porque são mais “fáceis”, isso em plena guerra. Quão podre tem de ser uma pessoa dessas?

Alguém poderia alegar que é muito azar do ex-juiz, mas uma pessoa mais cética desconfia de tanto erro seguido. Moro tem feito escolhas bizarras, cada vez afundando mais, cavando mais fundo no buraco em que se meteu. A decepção foi enorme para milhões de brasileiros patriotas que o consideraram um herói como juiz.

Se Moro tivesse críticas construtivas ao ex-chefe que lhe deu grande autonomia no governo, tudo bem. Mas ele preferiu demonizar Bolsonaro, numa forçada e absurda equivalência moral entre o atual presidente e o ladrão Lula, que o próprio Moro colocou na cadeia. Lembrando que esse governo tem mais de três anos praticamente sem escândalos de corrupção, e o próprio Moro se vangloria de seus feitos como ministro, deixando de lado que tinha um chefe que o colocou lá.

Enquanto isso, os “robôs” e o “gado” que apoiam incondicionalmente Moro nas redes socais agem exatamente da forma como denunciam nos outros. Gabinete do ódio? Sim, você encontra nas redes sociais “moretes”. Disparos automáticos para defender Moro e atacar desafetos? Tem, sim, e Kim Paim puxou um fio longo e comprometedor, que encontra gente próxima de Moro em Curitiba agindo de maneira suspeita nesse sentido.

“Nunca serei político”, disse Sergio Moro no passado. Depois, garantiu que jamais disputaria contra Bolsonaro. Aí virou candidato a presidente atacando justamente o ex-chefe e disse: “Não há a menor chance de eu desistir”. Ao que tudo indica, já desistiu. Terá valido a pena tanta traição desde quando resolveu sair daquele jeito do governo?

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Revista Oeste

Saldo da balança comercial do agronegócio cresce 80%

 O resultado ficou positivo em mais de US$ 9 bilhões


Exportações somaram | Foto: Divulgação/Cargill


A balança comercial do agronegócio brasileiro fechou fevereiro com superávit acima de US$ 9 bilhões. Esse valor é quase 80% maior que o do mesmo mês do ano anterior. Além disso, ele representa uma expansão de 20% frente ao resultado de janeiro. O número é formado pela diferença entre as quantidades exportadas e importadas.

No período, o setor exportou pouco mais de US$ 10 bilhões, segundo os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Desse modo, o faturamento com os envios ao exterior cresceu 65%. As importações ficaram pouco acima de US$ 1 bilhão. Ao mesmo tempo, o dispêndio com as compras no mercado externo aumentou 2%.

“Essa alta, que já havia sido observada em janeiro, deve-se, em parte, ao impacto dos preços internacionais das commodities na balança comercial’, afirma o Ipea em nota. “Soja e milho em grão estão próximo das máximas. No total, as exportações em valor em fevereiro ficaram acima de qualquer mês de 2019 e 2020”.

De acordo com o órgão, o resultado da balança comercial do agronegócio “contribuiu de forma positiva e decisiva” para o Brasil. Assim, no balanço das contas do comércio externo, o país fechou o mês com superávit de US$ 4 bilhões.

No acumulado dos últimos doze meses, o saldo da balança comercial do agronegócio brasileiro ficou acima de US$ 100 bilhões, conforme os dados do Ipea.

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Artur Piva, Revista Oeste

'A esperança do convertido', por Augusto Nunes

Geraldo Alckmin | Foto: Nilton Fukuda/Estadão Conteúdo/AE

O noivado de Lula e Alckmin é tão confiável quanto um namoro entre José Dirceu e Bolsonaro

Católico praticante que em campanha eleitoral virava carola congênito, conservador juramentado, antiesquerdista desde os tempos do berçário, promovido ainda na virada do século a destaque da ala direita do PSDB, Geraldo Alckmin deve todas as vitórias nas urnas a eleitores que, para derrotar o PT, votam em qualquer alternativa. 

No verão de 2022, aos 69 anos, resolveu mudar de lado — e protagonizou uma das mais assombrosas conversões da história do Brasil. 

Esqueceu tudo o que disse desde que aprendeu a falar, passou a elogiar o inimigo que vivia chamando de ladrão, filiou-se ao Partido Socialista Brasileiro e, acampado nessa ramificação da seita que vê num corrupto o seu único deus, aguarda a oficialização da candidatura a vice-presidente na chapa encabeçada por Lula.

Neste 27 de março, depois de ganhar a carteirinha que identifica um socialista brasileiro, Alckmin discursou para a plateia formada pelo que chamou de “companheiros e companheiras” ao lado de Gleisi Hoffmann, presidente do PT e representante de Lula na cerimônia da rendição. 

“Já me sinto em casa”, recitou. 

A fulminante adaptação ao novo refúgio é outra proeza sem precedentes. Geraldo Alckmin é o primeiro grão-tucano a abandonar o ninho que habitou por 33 anos para homiziar-se numa das cavernas controladas por quem sempre foi seu Grande Satã. 

O voo solitário escancarou o diminuto cacife político-eleitoral do tucano que por mais tempo governou São Paulo.

Até agora, só examinam a hipótese de seguir os passos de Alckmin quatro aliados politicamente desempregados: dois ex-deputados federais, um ex-deputado estadual e um ex-prefeito de Santos. 

Um quarteto desse calibre não assegura a ninguém o status de condutor de multidões. 

Portanto, devem esperar sentados os petistas que sonham com a adesão de um mundaréu de seguidores do recém-chegado. 

Na eleição presidencial de 2018, candidato do PSDB pela segunda vez, Alckmin conseguiu menos de 5% dos votos — desempenho que o mandou para casa ao fim do primeiro turno e por pouco não incorporou o tucano depenado ao bloco que inclui o Cabo Dacciolo. 

Mais: a votação alcançada no Estado que o elegera três vezes governador confirmou que no território paulista, dividido entre lulistas e bolsonaristas, não existem alckmistas.

Nunca existiram, e Alckmin sempre soube disso. 

Menos carismático que político de novela interpretado por Zé de Abreu, tão sedutor quanto manequim de vitrine, ele não conseguiu criar uma tribo que pudesse chamar de sua — e o tornasse menos dependente do eleitorado antipetista. 

Foi sobretudo para derrotar o candidato invariavelmente indicado por Lula que milhões de paulistas de nascimento ou por adoção votaram em Geraldo Alckmin três vezes. 

Em 2002, o vice que assumira o cargo com a morte de Mário Covas venceu José Genoíno no segundo turno. 

Em 2010, derrotou Aloizio Mercadante já no primeiro. 

Quatro anos mais tarde, também no turno inicial, impediu a entrega do principal gabinete do Palácio dos Bandeirantes ao ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha.

Em 2006, ao estrear no horário eleitoral da TV, o médico anestesista que virou político caprichou no patético esforço para ficar mais parecido com o brasileiro comum. 

Aconselhado pelos marqueteiros da campanha, amputou o sobrenome difícil de escrever e apresentou-se como Geraldo. 

A maluquice durou pouco. 

Alguém decerto ponderou que, no país que dá preferência a diminutivos, Geraldo vira Gê ainda nos trabalhos de parto. 

O prenome completo é usado só pela mãe e pelas professoras do ensino fundamental. 

Também a conselho da turma do marketing, o brando paulista de Pindamonhangaba ficou mais agressivo nos duelos verbais. 

“O governo Lula tem duas marcas: parado na economia e acelerado nos escândalos”, afirmou durante um debate na TV Record. 

Em outro, Lula denunciou a existência de focos de corrupção na máquina administrativa estadual comandada pelo oponente.

“De corrupção você entende”, ironizou Alckmin.

Por se achar traído por João Doria, o agora socialista brasileiro traiu milhões de eleitores

Derrotado no segundo turno, Alckmin manteria a agressividade em todos os embates seguintes. 

Em agosto de 2014, pouco depois da escolha de Alexandre Padilha, uma coluna publicada no site da revista Veja constatou que “em São Paulo, o PT não lança candidatos a governador; lança ameaças”. 

A afirmação se apoiava na fila puxada por Lula em 1982 e engrossada, nos anos seguintes, por gente como José Dirceu, Marta Suplicy, José Genoíno ou Aloizio Mercadante (duas vezes). 

“Posso usar essa frase na minha campanha?”, perguntou Alckmin ao colunista. Liberado, usou-a para lembrar que Padilha era o perigo da hora. 

Em 2018, o candidato à Presidência elevou o tom em muitos decibéis.

“Não existe a menor chance de aliança com o PT”, avisou. “Vou disputar e vencer o segundo turno, para recuperar os empregos que eles destruíram saqueando o Brasil. Jamais terão o meu apoio para voltarem à cena do crime.”  

Nenhuma acusação ficou sem revide. 

Alckmin foi acusado mais de uma vez de tratar com especial deferência o comando do PCC. 

E ouviu em todas as campanhas que tratava a pontapés quem tentava instaurar alguma CPI para impedir a devassa de focos criminosos no governo estadual. 

Em novembro passado, examinava a ideia de concorrer pela quarta vez ao governo de São Paulo para vingar-se de João Doria, que o isolou no PSDB depois de eleger-se prefeito da capital, quando lhe foi oferecida a chance de tornar-se vice-presidente sem suar camisas listradas de mangas compridas na extenuante caça ao voto.

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No Brasil, eleitores que escolhem o presidente por apreço ao vice são tão raros quanto a ararinha-azul. 

Se alguém se tornou eleitor de Lula porque Alckmin trocou de time, ganha uma viagem a Cuba (com escala na Venezuela). 

Mas o chefão do PT não propôs o acordo de olho no eleitorado que Alckmin não tem. 

O que Lula busca com a aliança é transmitir um recado: quem tem um vice com tal perfil não vai enveredar por descaminhos esquerdistas. 

“A esperteza, quando é muita, fica grande e come o dono”, advertia Tancredo Neves. 

A conversão de Alckmin pareceu tão espontânea quanto seria a adesão de José Dirceu à candidatura de Jair Bolsonaro. 

Por se achar traído por João Doria, o agora socialista brasileiro traiu milhões de eleitores. 

Para candidatar-se a vice, jogou na lata de lixo a biografia e a vergonha.

“Nós temos que ter os olhos abertos para enxergar e ter a humildade de entender que Lula é hoje aquele que melhor reflete o sentimento de esperança do povo brasileiro”, torturou a forma e espancou o conteúdo durante o falatório de estreia no PSB. 

A frase seguinte espalhou a suspeita de que o novo companheiro está estudando dilmês: 

“Lula representa a democracia porque é fruto dela. Por ter conhecido as vicissitudes, é quem interpreta o sentimento da alma nacional”. 

A conversa fiada tenta camuflar o principal motivo da virada de casaca. 

Caso se consume a vitória da dupla, Lula subirá a rampa do Planalto com 77 anos e um prontuário médico que inspira cuidados. 

Alckmin estará com sete anos a menos e a saúde em bom estado. 

Todo vice tem na esperança a principal razão de viver.

Alckmin já foi mais sagaz. 

Confiante nos critérios biológicos, parece ignorar que o PT nunca aceitou a perda do poder federal nem para adversários políticos nem para beneficiários de conversões convenientes. 

Depois da segunda vitória no primeiro turno, Fernando Henrique Cardoso não escapou dos gritos de “Fora FHC!”. 

O substituto de Dilma Rousseff, despejada pelo impeachment do Palácio do Planalto, foi acompanhado o tempo todo pelo mesmo berreiro: “Fora Temer!”. 

Se por qualquer motivo herdar o cargo, o presidente Geraldo Alckmin será imediatamente transformado no inimigo a abater. 

Órfão de eleitores e parceiros políticos, terá de resistir com a ajuda da família e meia dúzia de amigos à gritaria impiedosa e interminável: 

“Fora Alckmin!”

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Revista Oeste

'A última mentira de Fachin', por J.R. Guzzo

 

Ministro Edson Fachin | Foto: STF/SCO


O STF é contra a liberdade de expressão, que é garantida por escrito no artigo 5 da Constituição. A prova disso está nos fatos


Reduzido, cada vez mais, à situação de um tribunal de varejo, que em vez de discutir questões essenciais sobre a Constituição virou um escritório de advocacia especializado em atender as miudezas da aglomeração descrita como a esquerda nacional, o STF está sendo acionado novamente pela sua clientela de sempre. 

É muita gente — os clientes da nossa Suprema Corte de Justiça, hoje em dia, vão de Lula ao cantor Pabllo Vittar. 

É esse Vittar, a propósito, o caso da vez. 

Ele mostrou um pedaço de pano com o rosto de Lula, seu candidato para as eleições de outubro, num festival de música em São Paulo. 

Não pode, decidiu o Tribunal Superior Eleitoral, o braço do STF que dá ordens na campanha; no seu entendimento, isso é propaganda antes da hora permitida. 

(Já tinham mandado retirar da rua um outdoor dizendo que Lula é ladrão; se não pode ser contra, parece achar o TSE, também não pode ser a favor.) 

O festival recorreu. 

A esquerda achou um escândalo: é a favor da intromissão do TSE nas eleições, mas só para agir contra o adversário. Foram correndo, então, reclamar ao seu protetor preferido — o STF.

'Cantor' Pabllo Vittar fazendo campanha em um festival de música, em São Paulo | Foto: Reprodução/Twitter

Até aí, é o roteiro de sempre. 

O PT, os partidinhos que usa como seus serviçais e a “sociedade civil” passam o tempo todo, há anos, no cartório do STF, pedindo “explicações” sobre as coisas mais extraordinárias. 

Por que o filho do presidente foi à Rússia na comitiva do pai? 

Por que Bolsonaro não usou máscara em sua ida a Caixa Prego do Fim do Mundo? 

Por que baixou o IPI? Por que deu aumento para os professores? 

Por que o Exército Nacional está na Amazônia? 

Mas desta vez o queixume em torno do cantor e seu cartaz de apoio a Lula mexeram com a linha de montagem onde o STF fabrica, dia e noite, suas instruções para o Brasil: a respeito deste assunto, pensem assim; a respeito daquele assunto, pensem assado. 

(Se não obedecerem, a gente chama o ministro Alexandre de Moraes e a sua delegacia de polícia, e aí vocês vão ver o que é bom.) 

Desta vez quem ficou agitado foi o ministro Edson Fachin, o mesmo que anulou quatro ações penais contra Lula, inclusive as que o condenaram por corrupção e lavagem de dinheiro, em três instâncias e por nove juízes diferentes. 

O pai da candidatura Lula, agora, mostrou-se indignado com a proibição do tal cartaz no festival — ou, pelo menos, foi isso o que deu para entender. 

Quis levar o caso do cantor ao plenário do Supremo, com urgência, como se fosse uma questão vital para a sobrevivência da República. 

Segundo Fachin, “o histórico” do STF é de “defesa intransigente da liberdade de opinião”, e por conta disso deveria intervir no episódio. Mentira dele. O STF, ao contrário, é hoje o maior inimigo da liberdade de expressão que existe neste país. 

Os ministros ficam excitados quando a opinião é do cantor Vittar, mas têm horror de opiniões diferentes das suas — principalmente quando alguma dessas opiniões é sobre eles mesmos. 

Aí, se não gostam, pode dar cadeia. 

O que Fachin deveria ter dito, para não se perder tempo com essa mentirada, é o seguinte: “Nós aqui somos defensores intransigentes da liberdade de opinião — salvo em todos os casos em que somos contra, e esses casos estão aumentando cada vez mais”.

O STF é contra a liberdade de expressão, que é garantida por escrito no artigo 5 da Constituição, porque comete atos de agressão contra ela o tempo todo, de forma permanente e deliberada. 

A prova disso está nos fatos. 

O ministro Alexandre de Moraes e o seu inquérito perpétuo contra os “atos antidemocráticos” e as “fake news” perseguem furiosamente o jornalista Allan dos Santos, que para escapar da prisão foi para os Estados Unidos; Moraes pede, sem sucesso, a sua captura e extradição pela Interpol. 

O jornalista não cometeu nenhum crime contra a Lei de Segurança Nacional, ou qualquer outro que esteja definido no Código Penal Brasileiro; aliás, seus advogados até agora não foram informados legalmente que delito, afinal, ele teria praticado. 

Por que a obsessão do ministro, então? 

Porque Allan Santos desce o porrete no STF e na esquerda em geral; ao mesmo tempo, para piorar consideravelmente a sua situação, é a favor do governo Bolsonaro. 

Se fazer uma caça dessas não é ser agressivamente contra a liberdade de expressão, o que seria? 

Não só proíbem o jornalista de falar, cassando suas comunicações nas redes sociais; querem meter o homem na cadeia. 

O mesmo STF proibiu o YouTube de pagar a Barbara Destefani, apresentadora do programa Te Atualizei, o dinheiro que lhe deve pelos anúncios publicados em função de suas apresentações. 

Não conseguiram lhe cassar a palavra; foram então atrás dos seus meios de subsistência. 

O objetivo declarado dessa aberração legal é criar dificuldades financeiras para Barbara — uma ação particularmente abjeta. 

Não estão agredindo só a liberdade de expressão; agridem também o direito ao trabalho. 

O programa é contra Lula e a esquerda? 

Sim, e muito contra. 

É a favor do governo? 

Sim, e muito a favor. 

Pela lei, e pelo amor “intransigente” à liberdade ora declarado por Fachin, deveriam deixar a moça em paz com as suas opiniões. 

Na vida real o STF a trata como uma inimiga mortal na nação, que tem de ser destruída a qualquer custo.

Barbara Destefani, apresentadora do programa Te Atualizei | Foto: Reprodução/ YouTube


O Supremo protege as ações, no Brasil, do grupo estrangeiro “Sleeping Giants”, que pressiona abertamente as empresas a não publicarem anúncios em publicações brasileiras cujo conteúdo consideram conservador. 

Prendeu o ex-deputado Roberto Jefferson por ter falado mal do STF — coisas pesadas, mas pura e simples opinião. 

Prendeu o deputado Daniel Silveira em pleno exercício do mandato, quando a Constituição diz com toda a clareza do mundo que nenhum deputado pode ser punido por manifestar seu pensamento — não pode, simplesmente, sem nenhuma exceção ou qualquer ressalva do tipo “desde que”. 

Mais: está absolutamente claro, pela lei, que um deputado só pode ser preso em flagrante delito e por crime inafiançável. 

Silveira não foi preso em flagrante, nem cometeu nenhum crime inafiançável — o que fez foi insultar os ministros, mas isso não é motivo legal para prender ninguém, e muito menos um deputado protegido por imunidades parlamentares estabelecidas na Constituição brasileira. 

Num momento de demência jurídica, aliás, que perdura até hoje sob a aceitação passiva ou a cumplicidade dos colegas, Moraes criou a aberração do “flagrante perpétuo”, coisa que não existe em lugar nenhum do planeta, para decretar a prisão de Silveira. 

Ele foi preso dias depois de ter falado o que falou, mas o ministro inventou que em casos assim flagrante não significa o momento, no relógio, em que o crime está sendo cometido, mas o resto da vida. 

Ou seja: o sujeito fala mal do Supremo hoje e, segundo os poderes que Moraes deu a si próprio, pode ser preso em flagrante daqui a dez anos. Liberdade de expressão?

Os jornalistas, enfim, são hoje os mais ativos militantes em favor das medidas de controle da liberdade de opinião

Na verdade, todo inquérito sem fim, sem limites e sem legalidade alguma do ministro Moraes contra as “fake news” e os “atos antidemocráticos” é um ataque direto contra a liberdade de expressão. 

A desculpa é que seria proibido publicar notícias falsas, pois elas ameaçariam a sobrevivência do país — embora não exista nos 10 milhões de leis brasileiras nenhuma que proíba a publicação de qualquer notícia, falsa ou não. 

O ministro, por conta dessa proibição que não existe, persegue há três anos seguidos jornalistas, comunicadores e políticos de direita, ou aliados do presidente Jair Bolsonaro. 

“Notícia falsa”, para o STF, é tudo o que vai contra as posições políticas e os interesses pessoais dos ministros — das urnas eletrônicas à impunidade judicial dos corruptos, das “terras indígenas” aos efeitos da cloroquina. 

É a arma mais moderna, mais utilizada e mais perversa contra a liberdade de opinião que existe hoje na praça — uma censura que não é praticada pela polícia política do governo, mas pelo aparelho judiciário, pelos partidos e grupos de esquerda e, finalmente, pelos próprios jornalistas e os donos dos veículos de comunicação, a maior parte dos quais se tornou militante ativa de um dos lados que dividem o campo político no Brasil.

“Defesa intransigente da liberdade de expressão?” 

Que piada. 

Não no STF, com certeza, como se vê por tudo o que está dito acima e por mais um oceano de evidências. 

O fato é que essa liberdade, junto com muitas outras, se tornou um artigo barato no Brasil. 

Lula diz, em público, que vai criar o “controle social dos meios de comunicação” se for eleito — ou seja, só vai ser publicado o que o PT permitir. 

Ninguém acha nada de errado com isso — a começar pela mídia. 

As classes intelectuais acreditam, cada vez mais, que a liberdade de opinião tem de ter “limites”. 

Políticos, analistas e os 50 tons disponíveis de liberais acham que as liberdades “individuais” não podem estar “acima” dos direitos “coletivos”. 

A elite que quer pensar por todos os brasileiros insiste em dizer que a liberdade de expressão tem de se subordinar aos interesses maiores da “defesa da democracia”. 

Todos eles estão nos ensinando, aparentemente, que para haver democracia é preciso diminuir a liberdade. 

Os jornalistas, enfim, são hoje os mais ativos militantes em favor das medidas de redução e controle da liberdade de opinião — são, curiosamente, os principais adversários da imprensa livre. 

O ministro Moraes, para todos eles, é um herói na guerra em favor da democracia; Fachin e o resto do STF são uma fortaleza que nos protege das colossais ameaças que representam Jefferson, preso em sua casa, o jornalista refugiado nos Estados Unidos e a Barbara do Te Atualizei

É uma falsificação em massa, uma das maiores em circulação no momento. 

Também é a realidade.

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O deputado federal Daniel Silveira | Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados


Ministro Alexandre de Moraes coloca o Legislativo de joelhos e mostra que não há mais limites para a sua caneta autoritária


Na última terça-feira, 29, o deputado federal Daniel Silveira (RJ) decidiu enfrentar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que tenta prendê-lo a todo custo por um crime que não existe no Código Penal Brasileiro. A resposta do ministro não causou surpresa a ninguém. Já a reação da Câmara deixou claro que o Legislativo é um Poder acovardado.

Acusado de ter extrapolado nas suas críticas ao Supremo há um ano, Silveira se recusou a usar uma tornozeleira eletrônica nas dependências da Câmara, onde detém a chamada imunidade parlamentar. Subiu à tribuna e disse que o ministro é “um sujeito medíocre”, que “desonra o STF”. Depois, passou a noite acampado no gabinete — aliados o ajudaram com colchão e travesseiro.

“Aceito a imposição quando os deputados decidirem se ela deve ou não ser aplicada”, avisou Silveira. “Não se deve abrir um precedente contra o Legislativo inteiro.”

Paralelamente, a bancada evangélica cobrou do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que pautasse uma votação em plenário sobre a imposição da tornozeleira e ressaltasse a independência dos Poderes. Lira lavou as mãos e só assegurou que ele não seria preso dentro da Casa.

Moraes determinou que a Polícia Federal fosse imediatamente até o Congresso instalar o equipamento e impôs multa diária de R$ 15 mil, desconto no contracheque e o bloqueio das contas bancárias.

“O sequestro de bens, previsto nos artigos 125, 126 e outros do Código de Processo Penal (CPP), não se aplica ao caso do deputado”, afirma Ivan Sartori, ex-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. “Esses dispositivos só podem ser acionados quando os bens da pessoa foram adquiridos de forma ilícita. Tampouco cabe multa.”

Encurralado financeiramente e sem o respaldo do comando da Câmara, o deputado prometeu acatar a decisão. “Não tenho caixinha de corrupção, não tenho secretaria, não tenho carguinho aqui e acolá, então é o meu salário”, disse. “Quem vai pagar a multa diária para mim?”

No dia seguinte, contudo, apareceu sem a tornozeleira em evento de despedida dos ministros no Palácio do Planalto, o que causou alvoroço no consórcio de imprensa. Ao longo da semana, publicações sobre o caso nem sequer se referiam a ele como deputado, mas, sim, como “bolsonarista”. Colunistas do UOL e do jornal O Globo defenderam a condenação à prisão do “valentão”, “discípulo de Bolsonaro”, que desrespeitou o Supremo.

Moraes ficou furioso ao ver imagens de Silveira na TV, sentado na primeira fila do salão sem a tornozeleira. Em novo despacho, fixou horário e estabeleceu que o equipamento deveria ser colocado na sede da Polícia Federal. Silveira cumpriu a ordem horas depois.

“É preciso avaliar a necessidade ou não da utilização humilhante de tornozeleira por um deputado federal, que é um representante do povo brasileiro. É preciso que se pense no contexto”, disse o ex-ministro do STF Marco Aurélio Mello. “Para mim, esse ato deveria ser submetido à Câmara dos Deputados.”

Inquérito do fim do mundo

Daniel Silveira é um dos principais alvos do inquérito inconstitucional aberto no Supremo para analisar supostos ataques à democracia. Trata-se de uma aberração jurídica, sem precedentes nem escopo claro, com prazo infinito e que despreza o Ministério Público e o direito de defesa. Na prática, tornou-se um subterfúgio para represálias aos críticos da Corte — responsável por investigar, acusar, prender e julgar.

“O inquérito nasceu irregular, é ilegal e inconstitucional porque o STF não tem o direito de abrir esses procedimentos”, afirma o jurista Dircêo Torrecillas Ramos, membro da Academia Paulista de Letras Jurídicas. “O artigo 129 da Constituição atribui ao Ministério Público Federal a competência de fazer a denúncia. O artigo 144 determina que a Polícia Federal é responsável por apurar essa denúncia. O STF pode apenas autorizar o pedido.”

Moraes gostou do papel de xerife da República. Usou o distintivo para devassar sigilos de dezenas de pessoas e empresas. A maioria dos investigados não sabe até hoje do que é acusada. Censurou sites e canais de vídeos na internet — alguns, proibidos de receber remuneração do YouTube, faliram. Nos casos mais agudos, mandou para a cadeia o presidente do PTB, Roberto Jefferson, o jornalista Oswaldo Eustáquio e o líder de caminhoneiros Zé Trovão. Ele ainda tenta prender há meses o jornalista Allan dos Santos, que vive nos Estados Unidos.

Segundo relatos de jornalistas que acompanham o dia a dia do Supremo — apelidados de setoristas do Judiciário, no jargão das redações —, o trio formado por Silveira, Allan dos Santos e Roberto Jefferson tornou-se uma obsessão para Moraes. Os dois primeiros por desdenharem de suas ordens e Jefferson por ter levantado suspeitas sobre o escritório de advocacia de sua mulher. “O semblante dele muda quando ouve esses nomes, o tom de voz sobe”, descreve um jornalista que conhece o ministro desde os tempos em que era secretário de Segurança Pública em São Paulo.

Processo kafkiano

Nada nesse “inquérito do fim do mundo”, como foi batizado por advogados, se compara ao caso de Daniel Silveira. O parlamentar foi preso por crime inafiançável em fevereiro do ano passado. O motivo foi a publicação de um vídeo — de péssimo gosto — nas redes sociais sobre o STF. Para justificar a decisão, Moraes recorreu à Lei de Segurança Nacional, um entulho do regime militar que sobreviveu até setembro do ano passado, quando foi revogada.

Outro detalhe é ainda mais controverso: a prisão foi sustentada pela ocorrência de flagrante delito. Mas não se tratava de um vídeo gravado? Moraes disse que a postagem permanecia “disponível e acessível a todos os usuários da rede mundial de computadores”. Em resumo, acusou o deputado de uma infração permanente.

A defesa do parlamentar argumentou que a extinção da lei em setembro anula a acusação, o que foi rechaçado até agora por Moraes. “A LSN é letra morta. Registre-se que a abolitio criminis [quando determinada conduta tipificada como crime perde o valor] configura causa de extinção de punibilidade”, diz.

O deputado é réu e aguarda julgamento do plenário da Corte no dia 20. É provável que seja condenado, dado o corporativismo dos togados em decisões anteriores. Mas condenado pelo quê?

Para o Ministério Público, ele deve responder por coação e incitação à violência contra ministros do STF nas redes sociais. O parecer é assinado pelo vice-procurador, Humberto Jacques de Medeiros, para quem a aplicação de uma legislação obsoleta permanece válida mesmo após a sua extinção. As penas previstas nos artigos citados da finada LSN vão de três a 15 anos de reclusão. Cabem recursos — os infindáveis embargos, que ficaram conhecidos na época do julgamento do mensalão. Outro dano seria a inelegibilidade (Lei da Ficha Limpa) nas urnas em outubro.

“Não há crime algum para investigar, porque a Constituição assegura a liberdade de opinião”, diz o jurista Adilson Dallari. “O artigo 53 afirma textualmente que os deputados são invioláveis por suas opiniões, palavras e votos. Silveira não poderia ter sido preso, concorde-se ou não com as críticas feitas ao STF. E a ameaça, para ser considerada como tal, tem de ser concreta, não bravata.”

“Não tenho conhecimento de, na história do país, um ministro da Suprema Corte agir dessa maneira contra um integrante do Poder Legislativo”, afirma Dircêo Torrecillas Ramos.

A decisão de Alexandre de Moraes contra o deputado Daniel Silveira extrapola uma caçada pessoal. Interfere no sistema de pesos e contrapesos da Praça dos Três Poderes. Mas, sobretudo, joga luz à frouxidão do Congresso Nacional. O recado serve tanto para os parlamentares que vão embora em dezembro quanto para os que vão chegar.

Quem pode frear Alexandre de Moraes?


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