domingo, 26 de abril de 2026

'Um aviltante coaxar', por Flávio Gordon

O lábio inferior empresta ao rosto do ministro uma fisionomia inequivocamente batráquia


O decano do STF, Gilmar Mendes, durante o evento Brazil Conference, nos EUA - 12/5/2025 - Foto: Valter Campanato/Agência Brasi


“A boca fala do que está cheio o coração” (Lucas 6,45) 

Houve, na entrevista de Gilmar Mendes a Renata Lo Prete, um momento que merece ser examinado com a atenção que se dedica aos documentos históricos — não, obviamente, por revelar alguma novidade, mas pela candura com que confirma o que já se sabia. Questionado pela jornalista sobre se o Inquérito das Fake News, depois de sete anos de tramitação, aberto de ofício em violação flagrante ao princípio acusatório, não teria se convertido em instrumento de poder pessoal, o decano do Supremo respondeu com a placidez de quem nunca foi seriamente contrariado: “Eu tenho a impressão de que o inquérito continua necessário e ele vai acabar quando terminar”. A frase não é uma resposta jurídica. É a tradução, para o português institucional do século XXI, de uma proposição muito mais antiga: L’état, c’est moi.


As horas seguintes do sujeito foram de mais entrevistas — uma ao Metrópoles, outra ao programa JR Entrevista, da TV Record. Sempre instado a explicar por que acionara o inquérito contra Romeu Zema — cujo delito consistiu em satirizar, por meio de bonecos animados, a promiscuidade entre dois colegas de toga —, Mendes argumentou que a sátira tem limites e que a honra de homens públicos merece proteção, e recorreu ao seguinte exemplo: “Imagine que comecemos  a fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo?”

A pergunta, formulada com a entonação de quem acredita estar construindo uma tese, é na verdade a sua própria refutação — e algo consideravelmente pior. Num único período, o ministro que processa um político por sátira recorre, espontaneamente, à insinuação de homossexualidade como paradigma de ofensa intolerável, revelando, sem perceber, a arquitetura moral de sua própria concepção de desonra.

Gilmar Mendes também caçoou do sotaque mineiro de Zema — segundo ele algo difícil de entender, “um dialeto próximo do português”, “uma língua lá do Timor-Leste, um tétum ou coisa assim”. Ao observador atento era fácil notar o ódio por detrás da carranca lustrosa do burocrata de toga. E era-lhe fácil por conta de um tique que já se tornou marca registrada do grotesco personagem: o lábio inferior oscila, como que movido por uma insuflação do saco vocal, num frêmito convulsivo e repetido que, somado à expressão geral de condescendência satisfeita, empresta ao rosto do ministro uma fisionomia inequivocamente batráquia — a de um Bufo togadus que, ao engolir um inseto particularmente volumoso, experimenta ao mesmo tempo o prazer da deglutição e a consciência da própria magnificência. 

E aqui a psicanálise, em geral superestimada como instrumento de análise política, presta um serviço legítimo. Freud chamava de Fehlleistung — o ato falho, o lapso revelador — aquele momento em que o inconsciente irrompe através da fachada da intenção consciente e diz, em voz alta, o que o sujeito julgava ter guardado. Gilmar Mendes não pretendia passar a impressão de estar insultando Zema nem, muito menos, confessar o seu próprio código moral. 

O que pretendia era defender a dignidade das instituições (que, se fossem mesmo dignas, não aceitariam esse Groucho Marx como sócio). Mas o exemplo escolhido — entre todos os exemplos possíveis, numa língua que dispõe de léxico vastíssimo para nomear ofensas — foi precisamente aquele que equipara a homossexualidade à injúria. O inconsciente não conhece a negação: ele simplesmente fala.

Ou, no caso, infla o saco vocal. Bufo togadus parece acreditar genuinamente no que diz. Outrora achei tratar-se apenas de um cínico, mas comportamento é algo mais perturbador que o cinismo: é a consciência absolutamente tranquila de quem tanto confunde o interesse das instituições com o seu próprio, que a distinção lhe parece hoje não apenas desnecessária, como incompreensível. O tribunal “tem sido vilipendiado” — e, portanto, os vilipendiadores devem ser processados. O inquérito “continua necessário” — necessário para blindá-lo, razão pela qual continuará. Zema “sapateia” com uma língua “próxima do português” — e, portanto, deve ser investigado.

Em cada caso, a conclusão precede a premissa; a vontade do ministro é o silogismo inteiro. O lábio treme, o papo avança, e a frase sai com aquela untuosidade particular de quem toma os próprios vícios por razão de Estado. A cada saltito de autoblindagem, a cada aviltante coaxar de ódio pelo público, o país vai sendo mais destruído e afundada no lodo em que, afinal, toda criatura anfíbia se sente bem.


Flávio Gordon - Revista Oeste