Para quem vive no Brasil, não é propriamente uma novidade, mas a recente fala
de Lula, classificando como "babaquice" o desejo popular de que os estádios de
futebol tenham boa conexão com o transporte público - discursava naturalmente
para uma plateia condescendente -, traz um dado novo ao atual contexto político.
Demonstra que com certo atraso ele entendeu as pesquisas de opinião de abril.
Percebeu o problema que tem pela frente e está desnorteado, falando a coisa
errada na hora errada.
A pesquisa do Ibope do mês passado apontava, por exemplo, que 68% dos
entrevistados tinham a expectativa de que se modifique a forma de governar o
País e 64% diziam que preferiam essa mudança com "outro presidente". Lula
entendeu o recado: Dilma precisa desesperadamente dele. Mas não é apenas isso o
que está fazendo Lula perder as estribeiras; o problema é mais profundo.
A situação atual é muito diversa da de 2010. Há quatro anos, tratava-se de
criar uma personagem a partir do zero. Agora, ele precisa recriar uma candidata
com enorme passivo político, que não poupou esforços em desmentir a imagem de
gerente competente.
Dilma não pode culpar as circunstâncias, internas ou externas, pelo seu pífio
governo. Teve maioria no Congresso e, por bom tempo, altos índices de
popularidade, a economia internacional melhorou, a arrecadação interna aumentou.
E ainda recebeu um generoso dote do padrinho político: a realização da Copa do
Mundo no seu governo. Quem poderia imaginar melhor cenário do que esse para a
mãe do PAC atuar e deixar patente ao mundo inteiro a sua competência?
Mas a companheira Dilma, tão obediente nos tempos de juventude, insistiu na
incompetência e em incompetentes, manifestando uma incrível capacidade de
transformar oportunidades em problemas. A Copa do Mundo é o exemplo mais
evidente dessa sua "qualidade".
Há motivos para acender a luz vermelha no painel político de Lula. Os dois
presidentes anteriores reelegeram-se. Agora, quando era a vez de Dilma, a
imprevisibilidade é consenso, e Lula precisa entrar novamente em cena, para
recriar a candidata. Isso não significa que está afastada a possibilidade de ele
concorrer. Se alguma coisa o recente doutor honoris causa por Salamanca
ensinou-nos durante os últimos anos é a de que não se deve ouvi-lo literalmente.
Até a Convenção Nacional do PT, em junho, tudo pode acontecer.
O destempero da fala de Lula sobre a expectativa do brasileiro em relação aos
serviços públicos evidencia também que ele captou a mensagem das manifestações
de junho. Embora não tenha se dirigido diretamente contra o ex-presidente
petista, a voz das ruas protestou contra a situação, e ninguém mais do que ele é
responsável pelo que está aí.
Os onze anos de governo do PT deixam uma herança
maldita não apenas na economia e nos serviços públicos, mas de retrocesso
político (que é a outra face da moeda do populismo), administrativo (não é
novidade que Pasadena é apenas a ponta do iceberg) e institucional (a começar
pelas agências reguladoras).
Mas será que isso é suficiente para que Lula ande dizendo o que está dizendo?
Não é novidade que ele fale coisas sem muito nexo. Tem a rara capacidade que
Andy Hertzfeld, um dos pais do Macintosh, atribuiu certa vez a Steve Jobs: a de
criar um campo de distorção da realidade, posteriormente definida como a
habilidade de acreditar e fazer acreditar em quase tudo, pelo carisma, exagero e
marketing persistente, distorcendo o sentido coletivo de proporção e
dimensão.
No entanto, Lula não está apenas falando coisas sem nexo. A sua própria
bússola política está desorientada: enfrenta ele legítimas aspirações populares
com uma arrogância típica da sua sucessora? Talvez seja um sintoma de que tenha
compreendido o seu verdadeiro problema político. Gaba-se de eleger qualquer
poste, mas agora - e aqui está o seu calcanhar de aquiles - ele não pode
escolher o poste. Já foi escolhido há quatro anos, noutro cenário político.
Certamente, a companheira Dilma, combalida por sua própria incompetência, não
seria a sua atual opção. É uma das consequências de ser governo, que ele parece
não ter aprendido: os seus atos geram responsabilidade. Mas essa palavra ainda
não está no seu dicionário.