O Globo
Já fui um babaca. Não pare de ler! Tenho revelações interessantes a fazer
Já fui um babaca. Não pare de ler! Não me rejeite só porque você se identificou com a primeira frase. Tenho revelações interessantes a fazer. Vivo uma transformação sem precedentes. Experimento uma catarse que parece um orgasmo. De orgasmos gostamos todos, certo? Sinto que essa catarse me torna menos babaca. Mais interessante e divertido, com certeza. Um pouco mais cínico, talvez. E relaxado.
Metamorfose
Sim, talvez eu tenha me tornado um ex-babaca. E o que detonou essa metamorfose foi uma frase do Lula.
Acepção I
Antes, entendamos o significado do adjetivo e substantivo: um babaca é um ingênuo, simplório, tolo; alguém desprovido de inteligência ou vivacidade; um bobo, desinteressante, irrelevante e superficial.
Enfim, um babaca é um babaca.
Coleção I
Como um bom babaca, eu gostava de colecionar frases de grandes estadistas:
“Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país”, John Kennedy.
“O Brasil não é um país sério”, Charles De Gaulle (ou foi o Jérôme Valcke?)
“Política é a arte do possível”, Otto Von Bismarck.
“Política não é a arte do possível, mas do necessário”, FHC.
“Ah, turista tem que ter metrô que leve até dentro de estádio. Que babaquice é essa?”, Lula.
Decifra-me ou devoro-te I
Ao ler a frase de Lula, uma interrogação se desenhou em minha fronte. O que exatamente ele quis dizer com isso? Ao afirmar que “brasileiro vai descalço, de bicicleta ou de jumento até o estádio”, Lula não pode ter querido dizer que só porque o povo está acostumado à falta de serviços públicos de qualidade deve aceitar essa situação como uma sina. Se a afirmação tivesse sido proferida por alguém da Zelite (essa enigmática entidade), tudo bem. Mas o Lula? O que exatamente ele quis dizer com “que babaquice é essa de metrô que leve até dentro do estádio?”
É uma frase complexa.
Acepção II
Antes, entendamos o significado do substantivo: babaquice é ato ou dito de quem é babaca; bobagem, bobajada, idiotice.
Enfim.
Coleção II
Como um bom babaca, eu gostava de colecionar frases de astronautas, comentaristas esportivos e jogadores de futebol:
“Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade”, Neil Armstrong.
“O futebol é uma caixinha de surpresas”, Benjamim Wright.
“Love, love, love”, Pelé.
“Fiz que fui, não fui, e acabei fondo”, Nunes.
Decifra-me ou devoro-te II
Ainda que tenha consultado oráculos, I-Ching, Google e análises de comentaristas políticos dos principais jornais do país, eu não conseguia compreender em essência o verdadeiro significado da intrigante frase de Lula.
Lulalá
Não pretendo com esta crônica sacanear o Lula. Pelo contrário, quero registrar minha gratidão por frase tão reveladora. Guardo na memória aquela foto do FHC e do Lula panfletando juntos pelas Diretas Já em 1978 em São Bernardo do Campo. Para mim Lula e FHC sempre estiveram no mesmo barco, e isso é um elogio aos dois. Não compartilho da visão redutora que limita a política brasileira a um enfadonho PT versus PSDB.
Delírios
Como um bom babaca, delírios me acometiam durante campanhas eleitorais municipais, estaduais e federais:
Trem-bala. Qualquer trem. Fome Zero. Metrô. Segurança. Educação. Saúde. Gentileza. PAC. PIBÃO. Emprego. Progresso. Fim da “Hora do Brasil”. Extinção da propaganda eleitoral gratuita. Silêncio. Fim do voto e do alistamento militar obrigatórios. Descriminalização do aborto e da eutanásia. Legalização da maconha. Aeroportos decentes (bota delírio nisso!). Um país melhor para os meus netos (delírios também podem soar como lugares comuns).
Epifania
E então, lendo e relendo a frase à exaustão, alguma coisa aconteceu no meu coração, mil vezes perdão — ão, ão, ão — pelas rimas e aliterações grosseiras. Entendi finalmente o que Lula quis dizer com “que babaquice é essa de metrô que leve até dentro do estádio”. Ele quis dizer que não devemos crer jamais no que dizem os políticos. Que acreditar neles é procedimento de otários. Que precisamos compreender que o que um político promete num discurso de campanha deve ser relativizado e filtrado pela lógica perversa e hipócrita do jogo político. E assim, impactado (eu diria brutalizado) pela amargura didática da frase de Lula, deixei de ser um babaca de repente. Agora sou um ex-babaca.
Obrigado, Lula.
Post Scriptum
Guardei de minha antiga coleção apenas duas frases de Winston Churchil. A primeira: “A democracia é a pior de todas as formas de governo, excetuando-se as demais”. Por mais que eu descreia de promessas de políticos, continuo a acreditar no voto consciente como única forma de mudar o estado das coisas. A segunda: “Uma das grandes lições da vida é que os tolos às vezes estão certos”. Bem, essa eu não preciso explicar.