Márcia De Chiara - O Estado de São Paulo
Márcia De Chiara - O Estado de São Paulo
Apoiado nos metais, país avançou quase 7% ao ano desde 2010 e agora busca novos motores de crescimento
LIMA - O Peru, que até pouco tempo atrás estava às voltas com hiperinflação, ditadura e guerrilhas que paralisaram investimentos e frustraram o sonho de muitos empreendedores, transformou-se numa das estrelas da América Latina. Desde 2010, a economia cresceu quase 7% ao ano, o dobro da média dos vizinhos, puxada pelo boom de investimentos concentrados na exploração de metais - cobre, ouro e zinco. "É uma pequena China na América Latina", compara Cristiano Souza, economista do Santander para a região.
Apesar disso, o país enfrenta muitos desafios. Um deles é encontrar outros motores que sustentem o crescimento, diminuindo a dependência da exportação de metais para a China, que dá sinais de desaceleração. No ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 5%, a menor taxa desde 2009. As alternativas para manter o crescimento são ampliar investimentos em infraestrutura e se apoiar no forte empreendedorismo que há nos setores de gastronomia, turismo, construção civil, têxtil e de confecção, no qual o polo confeccionista de Gamarra é um exemplo. O diferencial do produto peruano, no caso da roupa, é a qualidade da confecção e do algodão, comparável ao egípcio.
Outro desafio é reduzir a pobreza, a desigualdade, o baixo nível educacional e a grande informalidade. O Peru é o pior país da América Latina no ranking do programa para a avaliação internacional de alunos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que mede os conhecimentos em matemática, ciências e leitura de mais de meio milhão de alunos com idade entre 15 e 16 anos, em 65 países.
Dois terços dos trabalhadores estão no setor informal ou trabalham em condições informais, diz o diretor do Instituto do Peru e ex-presidente do banco central, Richard Webb. Segundo ele, a pobreza diminuiu "substancialmente". Mas o nível ainda é muito alto: um quarto da população é considerada pobre, apontam dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).
O país está dividido entre a elite branca e a maioria mestiça e descendente de indígenas. Com a estabilização da economia, que encerrou 2013 com inflação de 2,9%, e a recente ascensão da nova classe média, esse quadro começou a mudar, mas ainda é frágil. O crédito, uma das alavancas do consumo, engatinha. A relação entre o crédito total e o PIB é de 27,2%, um pouco mais da metade do que é no Brasil (53%).
Sucesso. A fórmula de sucesso do Peru foi a adoção de um modelo amigável aos investidores. No entanto, parte desse forte avanço se deve à base fraca de comparação. O país tem um dos menores PIBs per capita da América Latina (US$ 7,4 mil), à frente apenas do Paraguai e da Bolívia.
A atração de investimentos ocorreu porque o país tem seguido políticas muito claras, com um regime monetário e fiscal muito bom e transparente, observa Andre Loes, economista para América Latina do Banco HSBC. Souza, do Santander, ressalta que o grande ponto positivo é o fato de o governo não estar intervindo nos setores. "O ambiente de negócios é muito bom em diversos segmentos", afirma Tito Martins, diretor-presidente da Votorantim Metais, que controla a mineradora Milpo, e está desde 2004 no Peru.
"É um país com estabilidade macroeconômica e jurídica, finanças públicas bem manejadas e com deficiência em infraestrutura", diz Luiz Mameri, presidente para América Latina da Odebrecht, que está lá há 35 anos.
A transparência captada pelos investidores foi atestada pelo Banco Mundial. No ranking da instituição que avalia a facilidade de fazer negócios nos países, o Peru é o segundo melhor da América Latina, depois do Chile. Para facilitar a vida de quem quer aplicar dinheiro no país, o governo criou uma agência para azeitar o investimento, reduzindo burocracia e divergências entre os ministérios.
Com isso, o país absorveu uma montanha de dinheiro. O investimento privado total entre 2002 e 2013 somou US$ 276,9 bilhões. Em 2013, a relação investimento e PIB foi de 27,7%, um dos indicadores mais altos do continente, semelhante ao de países asiáticos. A maior parte dos recursos, cerca de três quartos, veio do setor privado.
No segmento de mineração, os investimentos diretos estrangeiros totalizaram US$ 44,9 bilhões entre 2002 e 2013. O país é o terceiro maior produtor de cobre e prata. E os setores de mineração e de petróleo respondem por cerca de 10% do PIB, quase encostando na fatia da indústria (13%).
A importância da mineração fica clara quando se avaliam as exportações do país. Cobre, ouro e zinco detêm mais da metade das vendas externas totais e a China é o principal comprador, com 18% das exportações.
A forte dependência dos minerais, das compras da China e a queda dos preços das commodities ampliaram as incertezas sobre a manutenção no ritmo de alta do PIB. Há uma desaceleração relevante no investimento: em 2013, houve avanço de 3,9% sobre 2012. Em 2011 e 2012, as taxas tinham sido 11,7% e 12,5%, respectivamente.
A perda de fôlego também apareceu nas exportações. As vendas externas, que cresceram 16% em 2008 e 2009, recuaram para 15% nos anos seguintes. Em 2013, houve déficit comercial. "Estamos identificando a abertura de novos mercados para produtos não tradicionais a fim de compensar a menor demanda de metais pela China", diz a ministra de Comércio Exterior e Turismo, Magali Silva.
Depois de 30 anos, a primeira linha de metrô
Uma saída para manter o ritmo de crescimento do Peru é investir em infraestrutura. Após 30 anos paralisada por problemas políticos, foi inaugurada no mês passado a segunda parte da primeira linha do metrô de Lima. Com investimentos de US$ 1,4 bilhão, a linha foi executada pelo consórcio da Odebrecht com a construtora Graña & Montero. São 34 quilômetros de extensão que unem 12 distritos, entre os quais um dos mais populosos de Lima.
Ciente do problema que é reverter a desaceleração do crescimento, o governo anunciou no mês passado que investirá 6,4% do PIB em 2014, a maior marca em 30 anos. Também informou que tem US$ 1 bilhão para aplicar na segunda linha de metrô e que está disposto a emitir bônus, buscar crédito com bancos multilaterais e usar recursos fiscais para obter os US$ 5,7 bilhões necessários para a obra.
Apesar disso, o país enfrenta muitos desafios. Um deles é encontrar outros motores que sustentem o crescimento, diminuindo a dependência da exportação de metais para a China, que dá sinais de desaceleração. No ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 5%, a menor taxa desde 2009. As alternativas para manter o crescimento são ampliar investimentos em infraestrutura e se apoiar no forte empreendedorismo que há nos setores de gastronomia, turismo, construção civil, têxtil e de confecção, no qual o polo confeccionista de Gamarra é um exemplo. O diferencial do produto peruano, no caso da roupa, é a qualidade da confecção e do algodão, comparável ao egípcio.
Outro desafio é reduzir a pobreza, a desigualdade, o baixo nível educacional e a grande informalidade. O Peru é o pior país da América Latina no ranking do programa para a avaliação internacional de alunos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que mede os conhecimentos em matemática, ciências e leitura de mais de meio milhão de alunos com idade entre 15 e 16 anos, em 65 países.
Dois terços dos trabalhadores estão no setor informal ou trabalham em condições informais, diz o diretor do Instituto do Peru e ex-presidente do banco central, Richard Webb. Segundo ele, a pobreza diminuiu "substancialmente". Mas o nível ainda é muito alto: um quarto da população é considerada pobre, apontam dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).
O país está dividido entre a elite branca e a maioria mestiça e descendente de indígenas. Com a estabilização da economia, que encerrou 2013 com inflação de 2,9%, e a recente ascensão da nova classe média, esse quadro começou a mudar, mas ainda é frágil. O crédito, uma das alavancas do consumo, engatinha. A relação entre o crédito total e o PIB é de 27,2%, um pouco mais da metade do que é no Brasil (53%).
Sucesso. A fórmula de sucesso do Peru foi a adoção de um modelo amigável aos investidores. No entanto, parte desse forte avanço se deve à base fraca de comparação. O país tem um dos menores PIBs per capita da América Latina (US$ 7,4 mil), à frente apenas do Paraguai e da Bolívia.
A atração de investimentos ocorreu porque o país tem seguido políticas muito claras, com um regime monetário e fiscal muito bom e transparente, observa Andre Loes, economista para América Latina do Banco HSBC. Souza, do Santander, ressalta que o grande ponto positivo é o fato de o governo não estar intervindo nos setores. "O ambiente de negócios é muito bom em diversos segmentos", afirma Tito Martins, diretor-presidente da Votorantim Metais, que controla a mineradora Milpo, e está desde 2004 no Peru.
"É um país com estabilidade macroeconômica e jurídica, finanças públicas bem manejadas e com deficiência em infraestrutura", diz Luiz Mameri, presidente para América Latina da Odebrecht, que está lá há 35 anos.
A transparência captada pelos investidores foi atestada pelo Banco Mundial. No ranking da instituição que avalia a facilidade de fazer negócios nos países, o Peru é o segundo melhor da América Latina, depois do Chile. Para facilitar a vida de quem quer aplicar dinheiro no país, o governo criou uma agência para azeitar o investimento, reduzindo burocracia e divergências entre os ministérios.
Com isso, o país absorveu uma montanha de dinheiro. O investimento privado total entre 2002 e 2013 somou US$ 276,9 bilhões. Em 2013, a relação investimento e PIB foi de 27,7%, um dos indicadores mais altos do continente, semelhante ao de países asiáticos. A maior parte dos recursos, cerca de três quartos, veio do setor privado.
No segmento de mineração, os investimentos diretos estrangeiros totalizaram US$ 44,9 bilhões entre 2002 e 2013. O país é o terceiro maior produtor de cobre e prata. E os setores de mineração e de petróleo respondem por cerca de 10% do PIB, quase encostando na fatia da indústria (13%).
A importância da mineração fica clara quando se avaliam as exportações do país. Cobre, ouro e zinco detêm mais da metade das vendas externas totais e a China é o principal comprador, com 18% das exportações.
A forte dependência dos minerais, das compras da China e a queda dos preços das commodities ampliaram as incertezas sobre a manutenção no ritmo de alta do PIB. Há uma desaceleração relevante no investimento: em 2013, houve avanço de 3,9% sobre 2012. Em 2011 e 2012, as taxas tinham sido 11,7% e 12,5%, respectivamente.
A perda de fôlego também apareceu nas exportações. As vendas externas, que cresceram 16% em 2008 e 2009, recuaram para 15% nos anos seguintes. Em 2013, houve déficit comercial. "Estamos identificando a abertura de novos mercados para produtos não tradicionais a fim de compensar a menor demanda de metais pela China", diz a ministra de Comércio Exterior e Turismo, Magali Silva.
Depois de 30 anos, a primeira linha de metrô
Uma saída para manter o ritmo de crescimento do Peru é investir em infraestrutura. Após 30 anos paralisada por problemas políticos, foi inaugurada no mês passado a segunda parte da primeira linha do metrô de Lima. Com investimentos de US$ 1,4 bilhão, a linha foi executada pelo consórcio da Odebrecht com a construtora Graña & Montero. São 34 quilômetros de extensão que unem 12 distritos, entre os quais um dos mais populosos de Lima.
Ciente do problema que é reverter a desaceleração do crescimento, o governo anunciou no mês passado que investirá 6,4% do PIB em 2014, a maior marca em 30 anos. Também informou que tem US$ 1 bilhão para aplicar na segunda linha de metrô e que está disposto a emitir bônus, buscar crédito com bancos multilaterais e usar recursos fiscais para obter os US$ 5,7 bilhões necessários para a obra.