Blog Rodrigo Constantino - Veja
A atriz Letícia Spiller
já é velha conhecida dos leitores deste blog. Afinal, foi uma carta a ela a publicação recordista de audiência por aqui, com
mais de um milhão de visualizações e quase 300 mil curtidas. Falei para a atriz,
que chegou a dizer que foi idiota no passado ao usar camisa com a bandeira
americana em vez de Che Guevara, usar o recente assalto que sofreu para refletir
sobre as ideias equivocadas que disseminava.
A notícia publicada ontem no Ego, portanto, de que a atriz
resolveu passar as férias com os filhos na… Disney, não irá surpreender tantos
assim. Por que Disney? Por que não Cuba? Esse pessoal adora adorar Cuba de
longe, e odiar o “imperialismo ianque” bem de perto, divertindo-se com aquilo
que só os americanos capitalistas sabem oferecer bem.
Incoerência. Hipocrisia. Essas são as palavras
que definem a atitude desses artistas. Letícia elogia Cuba e vai para os Estados
Unidos, onde pode usar a sua camisa do Che Guevera em paz, ao lado do Mickey e
do Pateta (quem é o pateta nessa história?). Se fosse o contrário, se elogiasse
os Estados Unidos e fosse para Cuba com a camisa do Tio Sam, seria expulsa,
presa ou fuzilada. Isso prova o abismo intransponível entre ambos os regimes, e
também nos fala muito sobre a hipocrisia da esquerda caviar.
Nada disso é novo. Nelson Rodrigues já pegava no
pé da “festiva” na década de 1960. Roberto Campos já havia resumido bem o
fenômeno quando disse: “É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas
e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram
também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte,
ausência de censura e consumismo burguês; trata-se de filhos de Marx numa transa
adúltera com a Coca-Cola…”
Outro que percebeu a hipocrisia dos nossos
artistas engajados de esquerda, usando como exemplo o maior ícone deles, foi
Carlos Lacerda, não por acaso odiado pelos socialistas tupiniquins. Eis o que
ele escreveu no livro Depoimento, no ano em que nasci, 1976:
“Eu nunca fui, em outras palavras, da
esquerda festiva. Essa glória eu tenho, nunca pertenci à esquerda festiva, que
inclusive é um fenômeno relativamente novo. Eu nunca seria capaz de fazer o
papel do Chico Buarque de Holanda, cuja música eu aprecio muito e cujo caráter
não aprecio nada. Estou falando dele, mas não especialmente dele. Só citando um
exemplo. Digo isso porque é uma esquerda festiva, que é contra um regime do qual
ele vive, no qual se instala, do qual participa lindamente, maravilhosamente,
etc. Eu não conheço nenhum sacrifício que ele tenha feito senão a censura em
suas músicas por suas ideias. Agora, acho que se ele tem essas ideias, então
seja coerente, viva essas ideias, viva de acordo com elas. Isso não é nenhum
caso particular com Chico…
Estou apenas dando um exemplo.
Enfim, tenho horror à esquerda festiva, porque acho que é uma
forma parasitária de declarar guerra a uma sociedade da qual se beneficia e
participa integralmente.”
Nada mudou. Ou uma coisa ao menos mudou: hoje em
dia eles continuam esfregando toda essa hipocrisia em nossas caras, mas há forte
reação! Como a esquerda vem finalmente perdendo a hegemonia cultural no país,
agora já temos sites, blogs, jornalistas e milhares de indivíduos nas redes
sociais se manifestando, condenando, criticando e cobrando um mínimo de
coerência dessa turma.
Não são mais uns poucos corajosos isolados em uma
coluna de jornal, mas um monte de gente que contesta a falta de coerência dos
artistas que cospem no capitalismo somente da boca para fora. O preço da
hipocrisia será cada vez mais alto para eles, o que pode representar um freio em
tanta cara de pau…
PS: Assim como a
esquerda caviar, eu também vou à Disney, mas ao contrário dela, eu elogio suas
qualidades e até chego a afirmar que ela é muito melhor do que Foucault!
