sábado, 3 de maio de 2014

CBF interdita Estádio do Arruda, no Recife, após torcedor morrer ao ser atingido por vaso sanitário

Leticia Lins - O Globo

 
  • Tragédia aconteceu durante jogo entre Santa Cruz e Paraná, em Recife
  • Privada foi arremessada da arquibancada do estádio do Arruda. Outros três torcedores ficaram feridos
  • CBF interdita o estádio
 
 
 
 

O torcedor que morreu após ser atingido por uma privada no Arruda
Foto: DHPP / Divulgação
O torcedor que morreu após ser atingido por uma privada no Arruda DHPP / Divulgação
 
A pouco mais de um mês do início da Copa do Mundo, a barbárie volta a preocupar em uma cidade sede do evento. A Secretaria de Defesa de Pernambuco instaurou inquérito para apurar a morte do torcedor Paulo Ricardo Gomes da Silva, de 26 anos, que foi atingido por um vaso sanitário atirado do estádio do Arruda, logo após a partida entre Santa Cruz e Paraná na noite da sexta-feira, pela Série B do Brasileiro. Foram duas as privadas atiradas de uma altura de 24 metros do anel superior do Arruda. Outros três torcedores ficaram feridos.
 
O estádio foi interditado pela CBF, segundo nota divulgada na tarde deste sábado.
 
"Considerando o grave incidente ocorrido na noite de ontem no Estádio do Arruda e arredores, em Recife, após o encerramento da partida Santa Cruz x Paraná, válida pelo Campeonato Brasileiro da Série B, do qual resultou uma vítima fatal, a CBF, através das suas Diretoria de Competição e Diretoria Jurídica, vem pelo presente ato administrativo, interditar o Estádio do Arruda até que o processo relativo ao incidente seja apreciado pelo STJD", diz um trecho da nota.
 
O governo de Pernambuco culpou o Santa Cruz pela tragédia. O comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Carlos Eduardo Casanova chegou a sugerir que os vasos fossem “embutidos”, o que evitaria que vândalos os arrancassem.
 
O Secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, convocou a imprensa para uma entrevista coletiva, mas ao contrário do que se esperava não tinha nomes de suspeitos nem nenhum preso a apresentar. Ele afirmou que a Polícia Militar cumpriu o seu papel e que o vaso foi jogado do alto do estádio quando o jogo já havia terminando. A PM fazia a escolta de torcidas do lado de fora do Arrudão. Disse que o destacamento enviado para local foi compatível com o grau de risco do jogo: foram mobilizados 228 PMs para um público pagante de 8.029 pessoas.
 
- O jogo terminou às 22h50m e o crime ocorreu às 23h10m, quando a PM já se encontrava fora do estádio. O estado fez sua obrigação, mantendo a PM no local por até 20 minutos após o final da partida, para que as torcidas saíssem. Quando terminou, o Batalhão do Choque escoltou um grupo de torcedores e começou a fazer vigilância nos locais críticos, como pontos de ônibus. A PM fez o seu papel. Mas cabia à segurança patrimonial do clube zelar pelo que acontecia internamente. O Estatuto do Torcedor determina a instalação de câmeras internas, mas as imagens que temos são das câmeras da SDS. Quem tem que tomar conta dos banheiros do time é a segurança patrimonial do Santa Cruz e não a PM -afirmou o secretário.
 
Carvalho lembrou que não cabe ao Batalhão de Choque fazer varredura nos banheiros do clube em dias de jogo. Até o início da tarde o Santa Cruz não havia se pronunciado. O telefone da presidência estava na caixa postal.
 
- O estado é responsável pela segurança do cidadão em via pública, mas fica no interior dos estádios em caráter solidário - justificou o secretário, isentando o governo de culpa no episódio.
 
A vítima, no entanto, foi atingida no meio da rua. Ele estava fotografando um confronto entre torcidas organizadas, marcada por pedradas, quando levou a pancada. O vaso partiu ao chocar-se com o torcedor, que teve ferimentos profundos na cabeça e morreu no local.
 
De acordo com torcedores, o sanitário foi jogado do alto, entre os portões seis e sete do Arruda, que ficam na rua das Moças. O Arruda é o único estádio pernambucano que avança pela via pública, e suas colunas invadem ruas bairro, um dos mais populosos da capital.
 
A vítima torcia para o Sport e tinha uma tatuagem com o escudo do time no corpo. Setores da SDS acreditam que a ação foi premeditada. Isso porque torcedores do Inferno Coral – organizada do Santa Cruz – aguardavam rubro-negros, com a camisa do Paraná, na rua das Moças. No meio do confronto, dois vasos foram atirados, um dos quais matou o torcedor, que trabalhava como soldador no Complexo Industrial Portuário de Suape.
 
O crime está sendo investigado pela delegada Kátia Ângelo, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa Humana. Ela não participou da entrevista com os dirigentes da SDS. O corpo do rapaz ainda estava no Instituto de Medicina Legal no início da tarde, e às 13h deste sábado não havia previsão para ser liberado. Isso porque o IML passou um dia sem luz nem água na última sexta-feira, devido às fortes chuvas registradas na capital. Segundo o Diretor de Polícia Civil, Orlando Morais, a delegada já solicitou perícias complementares. Ele informou que os acusados serão indiciados em crime de homicídio doloso (quando há intenção de matar).
 
A mãe da vítima, Joelma Valdevino da Silva, estava inconsolável no IML:
 
- Não desejo o que estou passando hoje nem para quem praticou esse crime. Meu filho era um rapaz trabalhador, querido pelos vizinhos. Toda a rua está traumatizada. Nenhuma mãe merece o que estou passando - desabafou.
 
Ao contrário da mãe da vítima, no entanto, membros da torcida inferno coral não mostravam compaixão, com comentários do tipo "melhor a mãe dele chorar do que a minha".
 
- A própria família da vítima já nos forneceu alguns nomes, inclusive com base em comentários nas redes sociais, pois há alguns elementos que quase assumem o crime pelas redes sociais. A gente sabe que a beligerência tem provocado transtornos, mas o que aconteceu foi lamentável. A medida contra esses marginais será dura, vamos priorizar essa caso - disse Morais.
 
Na entrevista coletiva, o coronel Carlos Eduardo Casanova afirmou que o Corpo de Bombeiros realiza vistorias nas estruturas e saídas do clube. Mas deu uma sugestão inusitada, para evitar que privadas voltem a ser jogadas do estádio. Já havia registro anterior do episódio, quando um policial foi ferido.
 
- Acredito que a solução seria a instalação de banheiros semelhantes aos usados em presídios, com peças sanitárias internas. Do jeito que está, não já solução para que os vândalos parem de arrancar os sanitários - disse.