ALBERTO BOMBIG - Época
O pré-candidato Alexandre Padilha enfrenta o fantasma da dengue, o bom desempenho de Paulo Skaf – e, agora, uma citação em grampo da Polícia Federal
"De poste em poste, vamos iluminar o Brasil.” A frase, pérola do acervo de tiradas espirituosas de Lula, foi dita em outubro de 2012, quando o ex-presidente tentava eleger Fernando Haddad (PT) à prefeitura de São Paulo. Haddad – como Dilma Rousseff, chamado de “poste” pela oposição por causa do mirrado histórico eleitoral – efetivamente se elegeu. No ano passado, Lula apresentou ao Brasil o projeto de seu terceiro poste, o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, pré-candidato do PT ao governo de São Paulo. Os mais exaltados viram na manobra mais uma vitória certa do estrategista Lula, ao substituir gradualmente as combalidas estrelas mensaleiras pelos novos rostos de seu partido. Desta vez, o projeto encontra dificuldades já na largada.

Não bastassem a explosão dos casos de dengue no Estado de São Paulo e a presença de uma terceira via eleitoral chamada Paulo Skaf (PMDB), um relatório da Operação Lava Jato da Polícia Federal, divulgado na semana passada, sugere que Padilha indicou um executivo para o Labogen, laboratório controlado pelo doleiro preso Alberto Youssef. Segundo o relatório sugere, a indicação foi feita quando o Labogen buscava obter um contrato milionário do Ministério da Saúde, em 2013. O executivo que foi contratado pelo Labogen, Marcus Cezar Ferreira de Moura, havia trabalhado no Ministério da Saúde entre maio e agosto de 2011. Ele ocupava a função de coordenador de eventos.
A Operação Lava Jato investiga a lavagem de ao menos R$ 10 bilhões por parte de Alberto Youssef. Já fez vítimas no PT, como o ex-presidente da Câmara dos Deputados André Vargas (PR) – ele renunciou ao cargo e, sob pressão do partido para abrir mão do mandato, anunciou sua desfiliação. Vargas e Youssef trabalharam juntos pela assinatura de um contrato entre o Labogen e o Ministério da Saúde. Num diálogo captado pela PF em setembro do ano passado, Youssef diz a Vargas que o negócio daria a ambos a “independência financeira”.
Segundo a PF, nos diálogos com Youssef, Vargas se refere a Padilha como “Pad”. Em 26 de novembro do ano passado, Vargas diz ter falado com Pad. “Ele vai marcar uma agenda comigo”, disse. “Ótimo”, responde Youssef. “Precisamos estar presentes.” A PF diz que o Labogen, com folha de pessoal de apenas R$ 28 mil, pretendia arrecadar R$ 150 milhões com o fornecimento de remédios para hipertensos para o Ministério da Saúde. O contrato não chegou a ser assinado e, segundo o ministério, nenhum pagamento foi feito. De acordo com a PF, Padilha não foi alvo dos grampos da operação e também não é um dos investigados. “As evidências indicam que Vargas tinha interesse no processo de contratação do Labogen junto ao Ministério da Saúde”, diz um trecho do relatório da PF.
A assessoria de Padilha divulgou uma nota na semanapassada negando ter feito a indicação: “O ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha repudia o envolvimento do seu nome e esclarece que não indicou nenhuma pessoa para o Labogen. Se, como diz a Polícia Federal, os envolvidos tinham preocupação com as autoridades fiscalizadoras, eles só poderiam se referir aos filtros e mecanismos de controle criados por Padilha dentro do Ministério da Saúde, justamente para evitar ações desse tipo. A prova maior disso é que nunca existiu contrato com o Labogen e nunca houve desembolso por parte do Ministério da Saúde”, diz a nota.
O documento da PF mostra ainda que Youssef, preso desde 17 de março de 2014, mantinha contatos com outros deputados do PT, além de André Vargas (PT-PR). A PF suspeita que ele tenha se encontrado com Vargas em Brasília no apartamento funcional de Cândido Vaccarezza (PT-SP), ex-líder do governo na Câmara. A PF também suspeita que Youssef tenha enviado um emissário para participar de reunião com Vicente Cândido (PT-SP), em São Bernardo do Campo, em São Paulo. Cada vez mais aparecem laços entre políticos petistas e Youssef. Na campanha, Padilha enfrentará questionamentos sobre se faz ou não parte da turma – e terá de negar de forma convincente.
O relatório da PF da semana passada não é o único problema que Padilha enfrentará nas eleições, caso mantenha sua candidatura. Existe pelo menos outra ameaça: o mosquito Aedes aegypti. Nas eleições de 2002, uma epidemia de dengue no Rio de Janeiro prejudicou a candidatura de José Serra (PSDB) à Presidência – como Padilha, ele acabara de sair do Ministério da Saúde. Entre janeiro e abril de 2002, foram notificados 145 mil casos no Rio. Até o final daquele ano o número ultrapassou os 200 mil infectados. Enquanto o mosquito fazia a festa, Serra viu seu adversário, o ex-presidente Lula, alcançar quase 80% dos votos no Estado do Rio no segundo turno.

Desde o início deste ano, o Estado de São Paulo já registra 24 municípios com epidemia de dengue. Campinas, uma das maiores cidades paulistas, vive o pior surto da doença em toda a sua história. Já são mais de 14 mil casos nos primeiros quatro meses do ano. Em 2007, recorde anterior, o total de casos atingiu 11.400. Na capital, há mais de 3 mil casos confirmados em 2014 – segundo o balanço divulgado, no último dia 23, pela Secretaria Municipal de Saúde. Os 3.050 casos registrados de janeiro até agora já superam a quantidade de infectados em todo o ano passado (2.617). O bairro do Jaguaré, na Zona Oeste, é um dos principais focos na capital. A região chegou a uma taxa de 1.050 casos para 100 mil habitantes. Apesar do histórico de influência do mosquito nas eleições, a campanha de Padilha avalia que o atual quadro da epidemia apresentará melhoras a partir do próximo mês e não terá influência na eleição.
De acordo com as pesquisas mais recentes, Padilha é a quarta força na disputa pelo governo paulista, atrás do atual governador, Geraldo Alckmin (PSDB), na faixa dos 40%, e do empresário Paulo Skaf (PMDB), na faixa dos 20% das intenções. Padilha patina na faixa de 5%, atrás do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (PSD). Desde a eleição de 2002, quando Paulo Maluf (PP) concorreu pela última vez ao Palácio dos Bandeirantes, a disputa pelo poder no Estado não apresenta uma terceira via à polarização PT-PSDB tão forte quanto a candidatura Skaf.
Padilha reconhece a dificuldade do cenário, mas, a exemplo do que ocorreu com Haddad em 2012, acredita que a força de Lula e do PT poderá colocá-lo em igualdade de condições com os adversários. Também pesam a favor dele a crise da segurança pública e a escassez da água no principal reservatório de São Paulo, o Cantareira. Os dois problemas cairão na conta de Alckmin. Os petistas trabalham com a hipótese de a população de São Paulo enfrentar um racionamento de água durante a eleição.
Para além da força do padrinho e das crises envolvendo o governo tucano, Padilha tem trabalhado de maneira árdua. Ele se licenciou do ministério em janeiro para mergulhar na pré-campanha. No início deste mês, deu uma pausa no projeto das caravanas pelo Estado de São Paulo – especialmente nas cidades do interior, onde o PT encontra mais resistência do eleitor – para ir até os Estados Unidos conhecer experiências nas áreas de educação e segurança pública. Ele quer ter boas propostas nas duas áreas para incluir em seu programa de governo. Padilha esteve em Nova York e em Chicago, cidades que reduziram índices de criminalidade entre os jovens. Ele aposta na criação de uma agenda positiva – contra as ferroadas dos mosquitos, de Skaf e dos petistas ligados a Youssef.