Mercado estende os ganhos da véspera apesar das preocupações político-fiscais continuarem no radar
O Ibovespa fechou em alta nesta quarta-feira (25) seguindo a melhora do desempenho das bolsas em Wall Street, que foi puxada por ações de bancos e de empresas ligadas à reabertura econômica. Nos Estados Unidos, os casos de coronavírus, impulsionados pela variante delta, continuam a aumentar, mas a um ritmo cada vez menor, indicando que a pandemia chegou a um pico.
Os investidores internacionais também continuam esperando pelas sinalizações dos membros do Federal Reserve no simpósio de Jackson Hole na sexta-feira (27).
Na Bolsa brasileira, a recuperação da tarde levou o índice a estender os ganhos de 2,33% na véspera, quando o benchmark fez sua maior valorização em um só pregão desde janeiro.
Divulgado hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo Base 15 (IPCA-15) cresceu a 0,89% em agosto, maior variação para o mês desde 2002. Os economistas esperavam um avanço menor, a 0,82% segundo a média das projeções compiladas pela Refinitiv.
Também saíram os dados da arrecadação federal, que somou R$ 171,3 bilhões em julho, um recorde para o mês e bem acima dos R$ 147,9 bilhões esperados pelos economistas. O ministro da Economia, Paulo Guedes, pediu, depois do dado, que o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha “compreensão” em decisões que impactem as contas públicas para evitar que seja furado o teto de gastos.
“Não vou entrar no mérito técnico. Perdeu, perdeu, acabou. Agora, nós temos que registrar sempre a exequibilidade. Por enquanto estamos conseguindo manter, mas precisamos sempre da compreensão do Supremo para a modulação desses impactos”, defendeu.
A política foi um dos fatores que levaram a Bolsa a disparar ontem, pois Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, disse na Expert XP 2021 que o Congresso não aprovará medidas que vão contra a responsabilidade fiscal.
Também na Expert, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que a trajetória da relação dívida pública sobre o Produto Interno Bruto (PIB) é benigna no longo prazo e que o mercado tem focado demais em ruídos e notícias de curto prazo.
O Ibovespa teve alta de 0,5%, a 120.817 pontos com volume financeiro negociado de R$ 24,62 bilhões.
Enquanto isso, o dólar comercial caiu 0,97% a R$ 5,211 na compra e a R$ 5,211 na venda. Já o dólar futuro com vencimento em setembro registra perdas de 0,78% a R$ 5,216 no after-market.
No mercado de juros futuros, o DI para janeiro de 2022 subiu três pontos-base a 6,72%, DI para janeiro de 2023 teve alta de quatro pontos-base a 8,45%, DI para janeiro de 2025 recuou 14 pontos-base a 9,42% e DI para janeiro de 2027 despencou 20 pontos-base a 9,78%.
As bolsas asiáticas tiveram desempenhos variados entre si na quarta-feira, em um momento em que o otimismo continua a impulsionar as ações nos Estados Unidos, após S&P e Nasdaq atingirem patamares recordes.
Após uma terça-feira de fortes altas, as ações de tecnologia listadas em Hong Kong tiveram ganhos pela manhã de quarta, mas perderam fôlego até o fechamento.
Na terça, uma reportagem da agência internacional de notícias Reuters informou que a Securities and Exchange Commission (SEC, equivalente a CVM nos Estados Unidos) começou a emitir novos requisitos de divulgação para empresas chinesas que buscam se listar em Nova York como parte de um esforço para aumentar a consciência dos investidores sobre os riscos envolvidos.
Entre os requisitos estão uma maior divulgação sobre o uso pelas empresas de veículos offshore conhecidos como entidades de interesse variável (VIEs) para ofertas públicas iniciais de ações (IPOs na sigla em inglês); implicações para os investidores e o risco de que as autoridades chinesas interfiram nas operações da companhia.
Também na terça, o regulador de cibersegurança da China afirmou que empresas do país que desejem ser listadas em bolsas, inclusive em bolsas estrangeiras, precisam se adequar a dois aspectos essenciais: a regulamentação nacional e a garantia da segurança da rede nacional, da “infraestrutura crítica de informação” e de dados pessoais.
No Reino Unido, dados da Confederação das Indústrias Britânicas divulgados na terça indicaram que varejistas registraram a maior alta em gastos em quase sete anos em agosto, mas os estoques caíram aos menores níveis já registrados, pressionando os preços.
O índice sobre clima de negócios divulgado nesta quarta pelo Instituto Ifo, da Alemanha, marcou 99,4 pontos, abaixo do consenso de analistas ouvidos pela Reuters, de 100,4 pontos, e abaixo de 100,7 pontos registrados em julho.
Nesta quarta, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Adhanom Ghebreyesus, realizará uma conferência de imprensa para documentar os mais novos avanços na pandemia de Covid.
Inflação, precatórios e noticiário político
Em fala na Expert XP, Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, chamou a atenção na noite de terça-feira para a melhora nos indicadores fiscais do país, ressaltando que o pano de fundo para a dívida bruta é hoje “inegavelmente melhor” do que há alguns meses, e não apenas por causa do impacto da inflação.
Para Campos Neto, a inflação ajuda na melhor trajetória para a dívida bruta que é hoje esperada para o país, mas há um “bom pedaço” desse movimento que não está ligado ao aumento de preços na economia.
Ainda sobre a inflação, Campos Neto avaliou que o tema é “obviamente uma preocupação”, assinalando que o descolamento das expectativas de mercado para o IPCA no próximo ano subiu em relação às projeções da autoridade monetária.
Campos Neto disse que o BC tem sido o mais transparente possível na comunicação oficial de como enxerga o problema inflacionário, olhando de perto a inflação de serviços. Veja mais clicando aqui.
Já o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou que o governo poderá abrir mão de arrecadação para negociar a reforma do Imposto de Renda, e que esta semana será dedicada às negociações para tentar encontrar uma fórmula para o IR e também para a PEC dos Precatórios. Mas que não haverá rompimento do teto de gastos ou calote nos pagamentos.
Segundo informações da agência internacional de notícias Reuters, a equipe econômica considera a aprovação da PEC dos Precatórios crucial. Mas, independentemente de sua tramitação, quer que os precatórios do Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério) passem a ser analisados como uma conta só, para, com base em regra já existente, poder parcelá-los.
O pleito para que haja essa visão sistêmica faz parte de pedido da Advocacia Geral da União (AGU) enviado na semana passada ao Supremo Tribunal Federal (STF). Criado para distribuir recursos na rede pública de ensino, o Fundef (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental) foi extinto em 2006 e, desde então, vários entes regionais entraram na Justiça alegando direito a complementações no repasse.
Dentro da conta de R$ 89,1 bilhões em precatórios para o ano que vem, há R$ 15,6 bilhões relativos ao Fundef devidos aos Estados da Bahia (R$ 8,8 bilhões), Pernambuco (R$ 4 bilhões), Ceará (R$ 2,7 bilhões) e Amazonas (R$ 219 milhões).
Apesar da perspectiva incerta da PEC dos Precatórios, na terça o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou que a Casa tem compromisso com a agenda econômica e que dará andamento à Proposta de Emenda Constituição (PEC) da reforma tributária. O parlamentar considerou fundamental a busca pelo consenso, sem que isso implique, necessariamente, em “subserviência” às demandas do Ministério da Economia.
Questionado, Pacheco afirmou que mantém diálogo “franco” e “próximo” com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) e considerou natural haver divergências de pontos de vista entre as duas Casas. No campo econômico, segundo relatos de parlamentares, há uma disputa entre as duas Casas em torno da reforma tributária.
Ainda no radar político, na terça, o Senado aprovou, com placar folgado, a recondução de Augusto Aras a um novo mandato de dois anos à frente da Procuradoria-Geral da República, após sabatina na CCJ sem grandes sobressaltos para o indicado ao cargo pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).
Em votação secreta, presencial e nominal, o nome de Aras foi aprovado por 55 votos a 10, com uma abstenção. A chancela do Senado já era esperada, visto que a maioria da Casa é simpática ao procurador por seu perfil garantista.
Mais cedo, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Aras recebeu 21 votos a favor e 6 contra, em votação secreta após a sabatina. A votação em plenário no mesmo dia foi possível após a aprovação de regime de urgência para a indicação.
Na sabatina, o procurador-geral da República rechaçou criminalizar a atuação dos políticos e negou ter atuado de forma omissa em relação ao governo Bolsonaro e no enfrentamento à pandemia de coronavírus no país.
“Cumpri, neste aspecto em especial, o meu dever aqui comprometido na última sabatina: não permitir que o Ministério Público quisesse se substituir ao Poder Legislativo ou ao Poder Judiciário ou ao Poder Executivo”, afirmou.
O procurador-geral disse que, inicialmente, se manifestou contra a adoção de medidas cautelares contra o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) e de prisão do presidente do PTB e ex-deputado Roberto Jefferson, mas depois se manifestou a favor da detenção de ambos porque julgou que houve ameaças reais a ministros do Supremo.
Aras criticou a operação Lava Jato, considerando que houve uma “pessoalização” do modelo de forças-tarefas o que levou a uma série de irregularidades. Há senadores que até hoje respondem a investigações oriundas da Lava Jato.
Alvo de reiteradas críticas de Bolsonaro, o atual sistema de votação por meio de urnas eletrônicas foi defendido por Aras. Ele citou que o vice-procurador-geral eleitoral já se manifestou pela “idoneidade” do sistema utilizado.
Radar corporativo
O noticiário corporativo tem como destaque notícias de estatais como Petrobras, Banco do Brasil, além do Mercado Livre:
Petrobras (PETR3;PETR4)
A Petrobras recebeu nesta terça-feira o pagamento à vista de US$ 2,9 bilhões referente às obrigações das parceiras chinesas CNODC e CNOOC no acordo de coparticipação do campo de Búzios, no pré-sal da Bacia de Santos, informou a empresa em fato relevante.
Agora, a estatal emitirá o certificado de adimplência para a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), última etapa para que o acordo entre em vigência em 1º de setembro. O acordo já havia sido aprovado pela ANP no início deste mês.
Banco do Brasil (BBAS3)
O Banco do Brasil anunciou na terça-feira um reforço de R$ 10,5 bilhões em recursos adicionais para financiamentos no agronegócio, sendo R$ 2 bilhões destinados a produtores que tiveram perdas decorrentes de geadas.
Os demais R$ 8,5 bilhões serão destinados para apoiar a ampliação da tecnologia, sustentabilidade e infraestrutura no campo, por meio do lançamento do Programa BB Investimentos Agro, disse o presidente do banco, Fausto Ribeiro, durante evento transmitido pela internet. “Não faltarão recursos para atendimento das demandas dos produtores rurais”, enfatizou o executivo.
Mercado Livre (MELI34)
O Mercado Livre anunciou na terça-feira a compra de 100% da plataforma de entrega de encomendas Kangu, ampliando a aposta em logística própria como diferencial na América Latina, uma das regiões onde o comércio eletrônico mais cresce no mundo. A transação, por valor não revelado, leva para dentro do Mercado Livre a estrutura de cerca de 5 mil pontos da Kangu espalhados por 700 cidades no Brasil, além de México e Colômbia.
Criada em 2018, a Kangu usa pequenas lojas de bairro como pontos de coleta e entrega de encomendas, o que amplia a rede logística sem a necessidade de depender de terceiros, como os Correios. Desde o ano passado, já tinha como parceiro o Mercado Livre, cuja demanda do e-commerce cresceu fortemente desde 2020, diante do isolamento imposto pela pandemia.
Cosan (CSAN3)
Na terça, Juarez Saliba de Avelar, apontado como o CEO da JV Mineração, joint venture em mineração integrada pela Cosan, afirmou que a empresa deve começar a produzir no Pará em 2025 com uma capacidade de 10 milhões de toneladas de minério de ferro ao ano, que deverá ser expandida considerando os grandes recursos minerários na região de Carajás, onde a gigante Vale já atua.
(com Reuters e Estadão Conteúdo)
Ricardo Bomfim, InfoMoney