
Henrique Gomes Batista, O Globo
WASHINGTON - O início das negociações entre a Argentina e o FMI indicam que o valor pode superar os US$ 30 bilhões que foram aventados na noite de terça-feira em Buenos Aires, depois que o presidente Mauricio Macri anunciou que o país recorreria ao fundo pela primeira vez em 15 anos. O formato do empréstimo pedido pelos argentinos - o mais tradicional do FMI, oferecido desde 1952 - determina que o Fundo vai exigir condições para liberar os recursos.
Após esta quarta-feira - o primeiro dia de reuniões entre Nicolás Dujovne, ministro da Fazenda argentino, e Alejandro Werner, diretor do Fundo para o Hemisfério Ocidental (que engloba as Américas) - o governo argentino soltou uma nota indicando que as negociações devem demorar cerca de seis semanas e dependerá da visita de uma missão do Fundo a Buenos Aires. Nenhuma entidade falou oficialmente em valores dos empréstimos e as autoridades não conversaram com a imprensa na capital americana, onde ocorrem as reuniões.
“A Argentina pedirá um acordo financeiro de acesso elevado. As equipes técnicas se encontram neste momento em intercâmbio de informação. Este processo dura normalmente cerca de seis semanas”, disse a nota. O FMI também lançou uma nota sobre as reuniões. De acordo com o Fundo, “As reuniões com autoridades argentinas continuarão amanhã (nesta quinta-feira) entre o ministro Nicolás Dujovne e Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI”.
Um acordo financeiro de “stand by” de alto acesso indica que o país vai pedir valores além dos limites normais, que varia de 145% a 435% da cota do país, dependendo do prazo de 12 a 36 meses. Como a cota Argentina no Fundo hoje equivale a US$ 4,5 bilhões, isso equivale que pedirá mais de US$ 19,5 bilhões, caso opte pelo teto de três anos de acordo.
E fontes do mercado financeiro e de entidades multilaterais em Washington indicam, sob sigilo, que o valor necessário para acalmar investidores deve superar, com folga, os US$ 30 bilhões.
Neste tipo de modalidade, sempre há condicionantes para o empréstimo. A questão que surge agora é se o Fundo exigirá do país algo além das reformas já propostas por Macri e das medidas de emergência que seu governo anunciou na sexta-feira e se estas medidas podem comprometer o crescimento argentino. Como as negociações estão em fase embrionária, é muito difícil prever. O fato é que o governo argentino e o FMI já descartaram a possibilidade de usarem a Linha de Crédito Flexível, espécie de “cheque especial para o país”, que é concedido de forma mais rápida e sem condicionantes, mas com o limite de US$ 30 bilhões - mais um indicativo de que o valor deverá superar esta cifra.
Os argentinos podem pedir um acordo preventivo, ou seja, sem o saque imediato de recursos. Nesta modalidade, há apenas a disponibilização de um “colchão” para o país, que em geral, graças à tranquilidade obtida com essa disponibilidade, sequer precisa usar estes recursos para honrar seus compromissos. Além disso, ao aceitar o acordo, o FMI dá uma espécie de “selo de aprovação” às políticas econômicas do país em questão, ajudando a reduzir a volatilidade do mercado financeiro.
Os organismos econômicos multilaterais baseados em Washington acreditam que, mesmo com o aumento da volatilidade desde que os EUA iniciaram uma retórica de guerra comercial e saíram do acordo do Irã elevando a cotação do petróleo, não há nenhum outro país em risco de precisar de um suporte do FMI. A única nação que exibe uma vulnerabilidade externa preocupante é a Turquia. Na região, o país com pior problema era o Equador, mas a recente alta do petróleo reforça o caixa do país exportador.
A economista Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute e futura diretora do Programa de Estudos Latino Americanos da Escola de Estudos Internacionais Avançados (SAIS) da John Hopkins University, avalia que o governo Macri agiu rápido ao buscar o FMI antes que a situação piorasse ainda mais.
- A Argentina desde 2015 está fazendo um trabalho hercúleo para consertar a economia após os governos Kirchner, que deixaram o país sem um banco central efetivo, sem regime de metas de inflação e até sem dados oficiais da economia. A mudança está sendo gradual, mas dado a exposição externa, a vulnerabilidade mundial prejudicou o país - explica ela.
Bolle não vê riscos, no curto prazo, de o Brasil precisar de algum tipo de socorro como a Argentina, apesar da péssima situação do país:
- O Brasil tem grande reserva e praticamente todo o endividamento nacional está em moeda local - explicou.