A epidemia do novo coronavírus foi precificada.
No meio de um sofrimento tão grande parece um absurdo cruel falar isso.
A Inglaterra está chegando a mil mortos por dia e os Estados Unidos se aproximam, no total, de 15 mil. Empata com a Espanha e logo deve superar a Itália, com quase 18 mil vítimas para prantear.
Mas o fato é que os mais afetados da Europa continental estão entrando no desesperadamente esperado platô e as projeções não indicam mais centenas de milhares ou até milhões de mortes.
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Nos “cem dias que mudaram o mundo”, na definição do Guardian, desde que um site do governo chinês mencionou em 31 de dezembro a “pneumonia de causas desconhecidas”, morreram 88.529 pessoas. Talvez alguns milhares a mais se os dados chineses forem duvidosos.
Alguns já estão saindo da paralisação total, outros planejam como fazê-lo.
Vale a pena olhar algumas das ideias em circulação:
1- Países de população pequena, alto índice de controle sobre o sistema de saúde e baixa contaminação têm um calendário invejável, nas circunstâncias atuais. E um programa lento gradual e restrito.
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As creches vão reabrir entre os dias 20 e 27, o primeiro grau a partir de 27 na Noruega. Total de mortos no país: 69. A Dinamarca segue um caminho similar.
O trabalho em casa continua e as medidas preventivas vão “durar muito tempo”, avisou a primeira-ministra Erna Solberg.
Na Áustria, comércios de produtos não essenciais com até 400 metros quadrados de área reabrem no dia 14.
Se der certo, outras lojas, shopping centers e até cabeleireiros retomam atividades no dia 1º de maio, com uma restrição importante: cada consumidor tem que ter acesso individual e 20 metros quadrados de espaço de circulação.
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Restaurantes, hotéis e escolas continuam fechados até meados de maio.
O “freio de emergência” pode ser puxado de novo se aumentarem as infeções, avisou o primeiro-ministro Sebastian Kurz.
O mais jovem chefe de governo do mundo, de 33 anos, disse que não vai ver os pais na Páscoa e todos devem manter o doloroso isolamento familiar.
A Áustria teve 273 mortes e foi empurrada a agir depois do episódio de Ischgl, a estação de esqui que virou um foco precoce de irradiação da doença. Só na Noruega, os primeiros 40 casos de coronavírus foram de esquiadores vindos da encantadora cidadezinha tirolesa.
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2- Na Alemanha, parece inacreditável, mas os times da primeira divisão, as duas famosas Bundelesligen, planejam voltar a jogar a partir de maio.
“As pessoas merecem ter pelo menos um pedaço de vida normal de volta”, disse o diretor Christian Siefert.
É claro que serão jogos sem público. Mas é claro que é mais um motivo para a Alemanha se orgulhar – e faturar pontos em matéria de prestígio internacional – pela forma altamente organizada e profissional que controlou uma crise nada mansa, com 2.349 mortes até ontem.
A ruptura do círculo vai ser igualmente organizada, controlada e baseada no maior trunfo do país: a ampla capacidade de fazer testes.
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Com isso, a Alemanha pode tomar a dianteira num dos mais mencionados instrumentos para a reabertura da economia: o “passaporte de imunidade”.
Os testes começariam a ser mandados nas próximas semanas, segundo proposta original do Centro Helmholtz de Pesquisas Infeciosas.
São testes sorológicos que detectam quem desenvolveu anticorpos ao vírus. Ou seja, foi exposto, mas não teve sintomas.
Protegidos pela imunidade natural, os detentores do “passaporte” poderiam voltar a trabalhar.
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A ideia já circula há algum tempo e nem precisa dizer que tem várias complicações.
Uma: quanto tempo dura a imunidade natural? Não se sabe. Na epidemia de Sars, era de dois anos. Os primeiros testes de laboratório indicam que a reinfecção é improvável, apesar de casos episódicos.
Outra: a discriminação entre os “certificados” e os não certificados.
O passe-livre incluiria também que já teve a doença e se recuperou.
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A hipótese também circula na Inglaterra e outros países – todos sem ter remotamente a capacidade de realizar exames em massa demonstrada pela Alemanha.
3- Uma ideia alternativa de liberação controlada dos mais resistentes é bem mais fora da caixa: permitir jovens adultos na faixa dos 20 ao 30 anos que não moram com os pais voltem ao trabalho.
Foi lançada pelo economista e cientista comportamental Andrew Oswald, da Universidade de Warwick, racionalmente preocupado, como todo mundo, com as consequências da paralisação para a “economia, a renda, os índices de desemprego, o níveis de endividamento nacional e as liberdades que desfrutamos como sociedade moderna”.
Jovens adultos nessa faixa, estaticamente muito mais protegidos de sequelas graves e morte (o índice geral de mortalidade é de 0,2%), formam 4,2 milhões da população britânica.
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Desses, 2,6 milhões trabalham no setor privado. Poderiam, na opinião de Oswald e equipe, fazer uma ponte para segurar alguns setores da economia nesse momento de grave emergência.
Como são cientistas, eles calcularam até quantas vidas seriam potencialmente perdidas: 630.
“Haveria casos trágicos e uma certa pressão sobre o sistema de saúde, mas os efeitos seriam bem menores se a população como um todo fosse liberada”, defendeu o economista comportamental Nick Powdthavee.
Maluquice desses tempos malucos? Pensar livremente, e se expor ao julgamento dos pares, faz parte do processo.
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4- Muito mais convencional e exigente, o sul-coreano Sulng Il-Cho, professor de epidemiologia da Universidade Nacional de Seul, tem um padrão bem específico: a “recuperação gradual” pode começar depois de duas semanas seguidas de abaixo de 50 casos registrados.
A Coreia do Sul é considerada um caso exemplar: mesmo a proximidade com a China não provocou um tsunami do novo vírus por causa de um já conhecido conjunto de medidas, incluindo detecção e rápido isolamento de contagiados e próximos.
O ápice de contágios foi atingido em 29 de fevereiro e agora o país está com uma média diária de 53.
Para consolidar a próxima fase “as pessoas precisam manter o distanciamento social e isso é um desafio”, disse o especialista. “As pessoas estão ficando fartas e o número de violações está aumentando”.
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A estratégia de esperar cair bem o número de infectados e daí atacar em massa é chamada de “procurar e destruir”, uma terminologia bélica, como tantas outras dessa epidemia.
Além da Coreia do Sul, Singapura é outro exemplo da estratégia que “poupa meses de angústia e desarranjo econômico”, concorda o ex-secretário da Saúde britânico, Jeremy Hunt.
5- Levantamentos intermitentes e localizados são outra alternativa que está sendo especulada na Inglaterra. Os moradores das regiões em “liberdade vigiada” ganhariam um respiro.
Mas precisariam estar preparados para voltar ao confinamento. “Talvez ainda mais estrito por causa de uma segunda onda de Covid-19 no outono”, avisa o progresso David Alexander, do Instituto de Redução de Risco do University College London.
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“Vamos passar por tudo isso de novo provavelmente no fim de novembro, começo de dezembro”, concorda Janis Orlowski, da Associação de Colégios Médicos dos Estados Unidos.
A suspensão intermitente, por região, poderia durar até seis meses, considerando-se o período até o próximo no hemisfério norte.
A má notícia é que não existe saída permanente enquanto não surgir uma vacina – se houver.
A notícia menos ruim, mesmo que a tragédia continue avassaladora, é que o pior do pior, pelo menos nessa primeira fase, parece estar passado.
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