sábado, 2 de maio de 2015

"Muitas versões", por Ruy Castro

Folha de São Paulo


Outro dia, na enxurrada de material sobre os 30 anos da morte de Tancredo Neves, um artigo me intrigou. Era uma entrevista de Tancredo ao repórter Jorge Bastos Moreno, reconstituindo os últimos instantes de Getulio Vargas no Catete em 1954: "Getulio morreu nos meus braços e de sua filha Alzira", disse Tancredo. "Quando entramos em seu quarto, ainda o encontramos com vida. Estava agonizando. Do seu coração jorrava um intenso jato de sangue."

O detalhe do jato de sangue impressiona, mas os historiadores Helio Silva e John Foster Dulles e a própria Alzira contam diferente. Segundo eles, o primeiro a ouvir o tiro e entrar teria sido Luthero, filho de Getulio, seguido de Alzira e de dona Darcy, mulher do presidente. Mas, quando se consultam os jornais daquele dia, tudo muda de novo. "A Noite" admite Luthero e dona Darcy, mas subtrai Alzira e acrescenta o general Caiado de Castro, chefe do Gabinete Militar, e o major Helio Dornelles, sobrinho e ajudante de ordens de Getulio. A "Última Hora" cita Caiado e omite todos os outros.

"O Cruzeiro" menciona Dornelles e o camareiro Barbosa, aliás o último a falar com Getulio antes do tiro. E o "Diário Carioca" introduz um personagem, o Sr. N. Sarmanho -assim mesmo, com a inicial. Estava ali por acaso, espiando pela janela da sala contígua ao quarto de Getulio, quando ouviu o tiro. Abriu a porta, viu a cena e, expedito, deu o alarme. Os primeiros a chegar teriam sido Oswaldo Aranha e o general Caiado. E quem seria o Sr. N. Sarmanho? Talvez cunhado de Getulio, irmão de dona Darcy, que era Sarmanho em solteira. Isso justificaria sua intimidade com o cenário.

Temos, portanto, três votos para Caiado, dois para Dornelles, Luthero, Alzira e dona Darcy, e só um para Tancredo. O dele próprio.

Mas Tancredo superou Virginia Lane. Ninguém falou nela.