Cássio Bruno - O Globo
'Se falar vou preso', disse o ex-deputado, que foi liberado na manhãVídeo http://migre.me/pSW9f
Presidente de honra do PTB e delator do processo do mensalão, o ex-deputado Roberto Jefferson saiu da prisão na manhã deste sábado, depois de 14 meses detido por envolvimento no escândalo de compra de apoio político no Congresso durante o primeiro mandato do ex-presidente Lula. Ele passará a cumprir pena no regime aberto. Jefferson estava preso na Casa do Albergado Coronel PM Francisco Spargoli Rocha, em Niterói.
— Tô bem. Tá pago. Ainda tenho tempo para cumprir (a pena em prisão domiciliar). Tô em paz. Agora, vou poder cuidar (da saúde) melhor. Vou namorar muito — afirmou Jefferson aos jornalistas na saída de prisão.
Ele se negou a comentar a operação Lava-Jato, que investiga a corrupção na Petrobras, apesar de mostrar com as mãos que o assunto está entalado na garganta.
— Se eu falar, o ministro (Luiz Roberto) Barroso vai me prender. Tá aqui (na garganta), mas eu não posso falar.
Jefferson afirmou ainda que vai tentar advogar, mesmo cumprindo pena no regime aberto.
- Minha rotina de trabalho continuará a mesma. Hoje sou auxiliar de escritório, mas quero ver se começo a advogar um pouquinho. Saber se eu posso avançar como consultor. Vou colocar em prática o que eu sei fazer.
Jefferson foi recepcionado pela mulher, Ana Lúcia Novaes, pela filha, Cristiane Brasil, por dois advogados e por dois sobrinhos. Ao sair da penitenciária, ele se despediu dos agentes e comemorou a liberdade. O oficial de justiça chegou ao local às 10h51 e saiu 11h 05, acompanhado do ex-detento. A movimentação atraiu curiosos, que ficaram gritando o nome do político, que delatou o mensalão em 2005.
Em 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) condenou o presidente de honra do PTB a 7 anos e 14 dias de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Ele segue para seu apartamento na Barra da Tijuca.
Ao cumprir pena em regime aberto, o ex-deputado não usará tornozeleira eletrônica, mas não poderá, por exemplo, frequentar bares ou usar bebidas alcoolicas.
No próximo dia 29, ele deve se casar com a mulher em Três Rios, interior do estado do Rio.
Ele contou que passou por oito infecções intestinais dentro da prisão porque, diz, sobrecarregou o intestino grosso, depois de passar por longo tratamento contra um câncer de pâncreas. O delator informou que teve total apoio do sistema penitenciário para cuidar da saúde.
— Eu fui tratado com dignidiade aqui. Aliás, não vi ninguém não sendo tratado assim. Eu evolui, melhorei, tive tempo de ler e de saber o sofrimento das pessoas - desabafou jefferson, chorando em seguida. - Tô aqui. Tô melhor do que ontem.
— Não há prisão que seja boa — completou, ao ser perguntado sobre a experiência na prisão.
Ao sair da prisão, ele foi questionado se poderia retornar à politica. Ele respondeu:
- Quem fala de politica agora é a Cris (deputada Cristiane Brasil). Já passei tudo para ela. Chega!
Na decisão que resultou na libertação de Jefferson, o ministro Barroso ressaltou o “ótimo comportamento carcerário” do detento Jefferson e afirmou que ele pagou a multa que devia à Justiça, no valor de de R$ 840.862,54 — com valores corrigidos pela inflação —, “requisito indispensável para a progressão de regime”, além de estar comprovado que ele está empregado em um escritório de advocacia. Com o trabalho, o ex-deputado conseguiu descontar 40 dias da pena. Ele foi preso no dia 24 de fevereiro de 2014 e já tinha cumprido, portanto, um sexto da pena em 16 de março deste ano, afirmou o ministro.
“Diante do exposto, acolho o parecer do Ministério Público Federal e defiro ao condenado Roberto Jefferson Monteiro Francisco a progressão para o regime aberto”, diz a decisão de Barroso.
Em agosto do ano passado, Jefferson já havia pedido ao STF para cumprir pena em casa, mas o pedido foi negado. O ex-deputado teve um câncer no pâncreas em 2012 e alegava que, com problemas de saúde, precisava de tratamento especial. O último pedido feito pela defesa de Roberto Jefferson foi em abril deste ano, logo depois de ter pago a multa que devia à Justiça.