Nossa querida Hillary Clinton tenta se esquivar de bala da esquerda e de bala da direita. Ela se inclina para um lado ou para o outro, dependendo o tema, com a Casa Branca na mira. Grandes temas na semana nos EUA foram os argumentos na Corte Suprema sobre casamento gay (agora Hillary é a favor) e obviamente os acontecimentos em Baltimore.
Peter Beinart, um combativo polemista liberal (de esquerda, no jargão brasileiro) na mídia americana não perdoa a ingratidão da candidata democrata. Ele lembra que exceto os direitos dos gays, nenhum debate de política pública mudou de forma tão dramática nas últimas décadas como crime. Em 1992, na corrida das primárias democratas, o jovem Bill Clinton retornou para o seu Arkansas, onde era governador, para supervisionar a execução de um negro condenado por homicídio que era deficiente mental. O lance ajudou Clinton na crucial primária em Nova Hampshire, quando ele estava metido em mais um dos seus escândalos sexuais.
Linha dura contra o crime, e isso nos tempos de chumbo do começo dos anos 90, foi crucial para Clinton vencer a eleição presidencial em 1992 e refazer a imagem dos democratas como muito frouxos na questão. No poder, em 1994, a sua lei do crime, entre outras coisas, expandiu a pena de morte, encorajou estados a ampliarem as sentenças de prisão e eliminou fundos federais para a educacao de presos. A bancada democrata no Senado, exceto um senador, votou a favor. No seu texto, Beinart questiona a validade e o impacto de muitos dos programas adotados desde os anos 90.
Agora em 2015, de olho nos eleitores democratas de esquerda que votam nas primárias, Hillary dá uma virada e lamenta a linha dura contra o crime que seu marido advogava. Foi uma postura que levou a uma política carcerária assombrosa que eu abordei na coluna de sábado. Mas, a virada de Hillary não é isolada. Mesmo alguns políticos influentes do Partido Republicano e seus financiadores polpudos como os irmãos Koch, também querem chumbo mais leve. Acontecimentos como Baltimore e outros que tiveram Ferguson como tiro de largada no ano passado agudizaram o debate sobre política contra o crime nos EUA.
São outros tempos, outra realidade e outro tipo de oportunismo eleitoral.
