- Saul Loeb/AFP
Hillary Clinton, 67, ex-secretária de Estado (2009-2013), ex-senadora por Nova York e ex-primeira dama
Saiu uma pesquisa com um resultado interessante sobre Hillary Clinton na semana passada. De acordo com a pesquisa da Quinnipiac, 60% dos eleitores independentes acreditam que ela tem fortes qualidades de liderança. Mas quando esses mesmos eleitores foram questionados se ela é honesta e confiável, as avaliações viraram do avesso: 61% disseram que ela não é honesta e confiável. Aparentemente, muitos norte-americanos acreditam que Hillary Clinton é desonesta e indigna de confiança, mas também uma líder forte.
Deixemos de lado o caso dela por um segundo. Os resultados da pesquisa levantam uma questão maior: é possível ser uma pessoa ruim e ao mesmo tempo um líder forte?
O argumento para essa ideia é razoavelmente simples. A política é um campo duro, brutal.
As pessoas seguem a lei da selva. Às vezes, para conseguir fazer qualquer coisa, um líder precisa pressionar, ameaçar, intimidar, omitir a verdade. As qualidades que fazem de você uma boa pessoa na vida privada – bondade, humildade e capacidade de introspecção – podem ser desvantagens no cenário público. Eleger um presidente é diferente de encontrar um amigo ou uma namorada. É melhor contratar uma pessoa sem escrúpulos para fazer o trabalho duro.
Eu entendo o argumento, mas fora do mundo do faz-de-conta de "House of Cards", isso costuma estar errado. Votar em alguém com pouca ética na esfera privada é como embarcar em um navio de guerra com armas excepcionais e o casco apodrecendo. Existe uma boa chance de que você afunde antes que a viagem termine.
As pessoas que são desonestas, rudes e arrogantes têm dificuldades para atrair e conservar boas pessoas em sua equipe. Elas tendem a ter amigos desprezíveis. Elas próprias podem ser perspicazes, mas quase sempre estão cercadas de bajuladores e pessoas medíocres que desencadeiam escândalos e prejudicam a eficiência do líder.
Os líderes que não têm humildade são frágeis. Seu orgulho é inflado e sensível. As pessoas nunca os tratam com o respeito que eles acreditam merecer. Eles acabam consumidos por ressentimentos. Eles tratam a política como batalha, armam-se e se fecham para informações e feedback.
Você pode pensar que eles estão defendendo sua causa ou seus objetivos, mas quando o bicho pega, eles estão mais interessados em defender a si mesmos. Eles guardam uma lista de inimigos e a vida se torna uma questão de ajustar contas e imaginar conspirações.
Eles recusam qualquer política que possa prejudicar sua posição.
É um paradoxo da política o fato de que as pessoas que buscam o sucesso de forma obsessiva geralmente acabam se sabotando. Elas tratam cada relação como uma transação e não criam lealdade. Elas perdem qualquer voz interna que seja mais honesta.
Depois de um tempo, elas não conseguem mais perceber a si mesmas ou à situação de forma acurada. Mais cedo ou mais tarde, chega o seu Watergate.
Talvez, há muito tempo atrás, existisse um ambiente no qual esses maquiavélicos sem escrúpulos tinham espaço para fazer sua magia negra, mas nós não vivemos na Itália renascentista. Vivemos em um mundo sob uma atenção onipresente da mídia. Quando surge uma pitada de escândalo de qualquer tipo, o mundo político entra em um frenesi extremo e tudo para.
Vivemos em um mundo em que o poder está disperso. Você não consegue intimidar as pessoas cortando os seus inimigos em pedaços em praça pública. Mesmo a presidência não é um cargo poderoso o bastante para permitir que um líder governe pelo medo. Você precisa construir coalizões, apelando para os interesses próprios das pessoas e atraindo-as voluntariamente para o seu lado.
A política moderna, como a ética privada, diz respeito a construir relações pessoais duradouras e confiáveis. Isso significa ser justo, compreensivo, honesto e confiável. Se você é péssimo em criar laços de confiança, você é péssimo na política.
Pessoas com uma boa ética na vida privada conseguem se sair melhor a longo prazo. Eles amam genuinamente as causas, mais do que a si mesmas. Quando o noticiário distrai e as paixões de curto prazo crescem, elas ainda conseguem se guiar por aquela estrela distante. Elas têm menos tendência de reagir de forma extrema e fazer algo estúpido.
As pessoas com um senso ético apurado têm um sistema de alerta precoce. Elas não precisam pensar nos perigos do olho por olho das trocas de favores com bilionários. Eles têm uma repulsa estética contra pessoas que parecem sujas e situações que sejam repugnantes, o que evita uma série de problemas.
É claro, a ética privada não é suficiente. Você precisa saber reagir às pessoas sem escrúpulos que querem destruí-lo.
Mas, historicamente, os líderes mais eficazes – como, digamos, George Washington, Theodore Roosevelt e Winston Churchill – tinham uma consciência dual. Eles tinham uma voz interna ética fervorosa, capaz de gerar retidão, uma consciência radical de si mesmos e grande compaixão. Eles também tinham uma voz externa pragmática e perspicaz. Essas duas vozes conversavam constantemente, checando uma à outra, inquirindo para chegar a uma síntese, sábias como uma serpente e inocentes como uma pomba.
Eu não sei se Hillary Clinton possui essa dupla mentalidade. Mas eu sei que, se os candidatos não adquirem uma bússola ética fora da política, não é na Casa Branca que a conseguirão, e não serão eficientes lá.
Tradutor: Eloise de Vylder